Liverpool ganhou final contra o Real Madrid em 1981, quando se jogava um outro futebol

Folhapress

Muitos passes errados e bolas divididas. Muita entrega e muito pouca técnica. Em um campo com um gramado longe das condições ideais, pois abrigara um confronto de rúgbi dias antes, Liverpool e Real Madrid fizeram jogo equilibrado e com poucas chances de gol em Paris, no dia 27 de maio de 1981. Era a final da Copa da Europa, como foi chamada a Liga dos Campeões até 1992, e o primeiro encontro entre os dois gigantes europeus.

Neste sábado (26), às 15h45, em Kiev, as duas equipes voltam a se enfrentar na decisão do título continental, mas em uma realidade muito diferente daquela época. Trinta e sete anos atrás, os times não exibiam propaganda na camisa, apenas a marca, discreta, do fabricante do uniforme. Os jogadores também não tinham seus nomes estampados na parte de trás da camisa, acima do número.

Naquela decisão, no estádio Parc des Princes, um dos atletas não teve nem o número às costas, jogando sem identificação. O goleiro Agustín Rodríguez, do Real, vestiu uma camisa não numerada.
Já a camisa 10, costumeiramente reservada a um meia-atacante, geralmente o craque do time, teve como dono, no caso do clube espanhol, o zagueiro García Navajas, de futebol comum.

Os goleiros tinham permissão para pegar com as mãos as bolas recuadas -a regra mudou no começo dos anos 1990-, e Liverpool e Real recorreram várias vezes a esse expediente, assim como aos chutões. A marcação por pressão inexistia.


Falta na intermediária? Mesmo longe do gol, era sinônimo de bola alçada na área, na expectativa de uma cabeçada certeira ou de uma falha da defesa que permitisse uma sobra para a finalização. Atualmente só se usa esse artifício no final das partidas, quando a equipe está atrás no placar.

Se o Real e o Liverpool de hoje contam com um batalhão de estrangeiros, na década de 1980 isso era raro. Nos Reds, eram três, todos da vizinha Escócia: o zagueiro Hansen, o volante Souness e o atacante Dalglish. Nos Blancos, do técnico iugoslavo Vujadin Boskov, dois: o volante alemão Stielike e o atacante inglês Cunningham. A transmissão pela TV era básica. Além da câmera principal, na lateral, havia apenas mais duas, atrás de cada um dos gols -esse era o único ângulo para a exibição do replay das jogadas mais relevantes.

O que também diferia em 1981, em relação a 2018, era o favorito ao título. As apostas eram no Liverpool, que chegava à capital francesa representando o mais vitorioso futebol europeu da época, o inglês. O Liverpool tinha conquistado a Copa da Europa em 1977 e 1978, e o Nottingham Forest, nos dois anos seguintes. O Real não vencia o torneio desde 1966.

Depois de um primeiro tempo sem nenhuma clara oportunidade de gol, o time madrilenho teve uma ótima, e única, aos 3 minutos da etapa final. O lateral esquerdo Camacho, que no segundo tempo passou a atuar sem posição fixa, recebeu livre pela direita e, da entrada da área, tentou encobrir o goleiro Clemence, errando por pouco.

Depois, não houve grandes emoções até os 37 minutos, quando o Liverpool fez seu gol em uma jogada despretensiosa. Na ponta esquerda, o meia Ryan Kennedy bateu um lateral na direção de outro Kennedy, Alan, o lateral esquerdo que se projetava ao ataque com o intuito, segundo ele, de apenas chamar a atenção dos rivais para que colegas como Dalglish, a estrela da equipe, Souness e McDermott ficassem menos marcados.

“Eu não estava pensando em fazer o gol. Mas abriu um espaço [perto da área] e corri ali. Depois de matar a bola no peito, lembro que o zagueiro central tentou me acertar, mas errou e eu fiquei livre”, disse Alan Kennedy em reportagem publicada pela BBC.

Na verdade, foi o lateral direito García Cortez quem buscou desarmar o elemento-surpresa do Liverpool, porém, talvez com receio de cometer um pênalti, foi sem convicção para a dividida.
Alan Kennedy, então com 26 anos, avançou e, quase na pequena área, chutou entre a trave e o goleiro para dar a vitória ao Liverpool.

Herói improvável, ele tinha dúvida se jogaria, pois ainda se recuperava de uma fratura no pulso ocorrida no jogo de ida da semifinal contra a Inter de Milão. Escalado pelo treinador Bob Paisley, atuou com uma proteção no local.

Paisley, morto em 1996 aos 77 anos, é ao lado do italiano Carlo Ancelotti o único técnico a conquistar três vezes a Liga dos Campeões. Venceu com o Liverpool em 1977, 1978 e 1981. Ancelotti triunfou com o Milan, em 2003 e 2007, e com o Real Madrid, em 2014.

Zinédine Zidane, atual treinador do Real, pode neste sábado (26) se igualar a eles caso seu time supere o Liverpool na final em Kiev.

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