Com portões fechados, faturamento do Trio de Ferro despenca em meio à pandemia

Rafael Nascimento


A pandemia da covid-19, que já infectou 5,6 milhões e matou 162 mil pessoas no Brasil, atingiu em cheio os cofres dos clubes brasileiros. Ainda sem perspectivas concretas de ter a torcida de volta às arquibancadas, Coritiba, Athletico e Paraná deverão acumular queda acentuada no faturamento em 2020.

Além da perda da receita de bilheteria desde março, quando os primeiros casos da covid-19 foram registrados no estado, o Trio de Ferro, seguindo uma tendência nacional, também pode ter retração em outras importantes fontes de receita, como a exploração comercial de seus estádios, nos programas de sócio-torcedor, além de transferências de jogadores e patrocínios.

“É uma perda sem precedentes para o futebol brasileiro. Os clubes nunca faturaram tanto como em 2019, e o novo coronavírus vai impactar em cheio as contas dos clubes, principalmente os da elite do futebol nacional”, afirma Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão esportiva.

Os clubes brasileiros apresentaram em 2019 a melhor receita da história, com R$ 6,1 bilhões. Por conta da pandemia, os principais clubes do país devem arrecadar, no mínimo, R$ 1,8 bilhão a menos que o ano passado, de acordo com levantamento da Sports Value.

“Com o ‘novo normal’ que estamos vivendo, sem torcedores nos estádios e com a queda projetada de diversas receitas, os clubes nacionais vão apresentar, em média, perdas entre 30 e 40% de suas receitas”, emenda o especialista em gestão esportiva.

Com os estádios vazios por tempo indeterminado, a queda no faturamento dos clubes brasileiros deverá gerar reflexos, inclusive, nas contas nos próximos anos. “O cenário para 2021 sugere a limitação de público nos estádios e uma perspectiva de retração da economia”, completa Sommogi.

SITUAÇÃO FINANCEIRA DO ATHLETICO PREOCUPA

Entre os times da Capital, o Athletico deverá sentir com maior intensidade a perda de receitas no período da pandemia. O estudo da Sports Value indica que o clube pode perder até 43% da receita em 2020, projetada em R$ 221 milhões, contra R$ 390 milhões do exercício anterior.

De acordo com o último balanço publicado pelo clube, o Furacão apresentou lucro líquido de R$ 63 milhões no ano passado. Em uma temporada sólida, o clube arrecadou R$ 26,4 milhões com o programa Sócio Furacão e outros R$ 23,5 milhões com bilheteria, além de R$ 74,8 milhões em direitos televisivos e R$ 84,8 milhões em premiações, com os títulos da Copa do Brasil e da Levain Cup, e as campanhas na Libertadores, Recopa Sul-Americana e Campeonato Brasileiro.

A perda de receita athleticana em premiações, aliás, deverá se acentuar após a eliminação precoce do time na Copa do Brasil, onde acabou derrotado pelo Flamengo nos dois jogos das oitavas.

A estimativa de queda de 43% no faturamento é superior, inclusive ao resultado projetado para o próprio Flamengo, time que mais faturou no Brasil em 2019 (R$ 950 milhões), e que deverá perder 42% das receitas neste ano.

Furacão pode perder até 43% da receita em 2020, por conta da pandemia. Foto: Marcelo Cortes/Flamengo

O Athletico já havia indicado preocupação com o impacto da covid-19 nas contas para o exercício de 2020 no último balancete, assinado pelo presidente Mário Celso Petraglia.

“Embora a entidade não possa estimar a duração ou gravidade do impacto de surto de COVID-19 no momento, se a pandemia continuar, ela poderá a ter um efeito adverso/material nos resultados de operações futuras do clube, posição financeira e liquidez no exercício de 2020”, diz um dos trechos do documento.

IMPACTO NA DUPLA PARATIBA SERÁ MENOR, APONTA ESPECIALISTA

O objetivo do Coritiba para a temporada 2020, além de se manter na elite do futebol nacional, fora das quatro linhas era muito claro: recuperar o rombo nas contas que os dois anos de Série B deixaram no clube.

Sem conseguir o acesso em 2018, o Alviverde viu sua receita operacional líquida despencar de R$ 95,6 milhões para 41,2 milhões na última temporada. Em 2019, o Coritiba apresentou um déficit de R$ 50,4 milhões.

A diminuição abrupta na receita com direitos de transmissão de TV, de R$ 58,9 milhões para R$ 15,3 milhões, a queda nos valores com transações de atletas (R$ 2,9 milhões em 2019 contra R$ 11,9 milhões no exercício anterior) e ainda a queda na arrecadação com o plano de sócios, no segundo ano consecutivo de Série B (receita de R$ 12,1 milhões em 2018 e R$ 10,2 milhões no ano seguinte) ajudam a entender a queda acentuada do faturamento no Alto da Glória.

“A situação do Coritiba é a mesma dos clubes que voltaram para a Série A. Financeiramente o clube viveu o pior ano de sua história em 2019, com déficit de 50 milhões. Mas a queda foi tão acentuada no ano passado que o clube deve voltar a ter certo equilíbrio em 2020, mesmo em meio à pandemia”, explica Amir Somoggi.

Alviverde apresentou déficit de R$ 50,4 milhões ano passado, mas deve recuperar fôlego financeiro em 2020. Foto: Divulgação/Coritiba

Mesmo sem faturar em bilheteria, a temporada 2020 deverá ser de recuperação financeira no Alto da Glória, principalmente pelo incremento nas cotas de televisão.

“É uma situação curiosa, o clube volta para a Série A com o torcedor motivado, mas vem a pandemia, não tem futebol, e depois as atividades são retomadas com portões fechados. O clube pode eventualmente perder receita com o sócio-torcedor, que deixaria de pagar por não poder ir ao estádio, mas a receita de televisão vai fazer a diferença no caso do Coritiba. Financeiramente talvez não seja um ano bom para o clube, mas certamente será melhor que 2019”, completa o especialista.

Último colocado no Campeonato Brasileiro em 2018, o Paraná Clube viu seu faturamento ruir com o rebaixamento, passando de uma receita operacional líquida de R$ 48,6 milhões para R$ 21,8 milhões em 2019.

O Tricolor também amargou quedas consideráveis nas cotas de TV (R$ 29,9 milhões para R$ 8,1 milhões), na receita do estádio (R$ 8,2 milhões para R$ 5,2 milhões) e em patrocínios (R$ 4,4 milhões para apenas R$ 346 mil). Como resultado, o clube apresentou no ano passado déficit de R$ 2 milhões na última temporada, conforme o mais recente balanço.

Sem arrecadar com bilheteria, Tricolor pode terminar o ano novamente no vermelho. Foto: Rodrigo Sanches/PRC

Com a covid-19, Amir Somoggi pontua que o clube deve fechar mais uma temporada no vermelho.

“Sem bilheteria, o Paraná Clube pode acumular perda de receitas com o sócio torcedor, na cota de TV e eventualmente patrocínios, seguindo a tendência do mercado nacional”, observa o especialista.

CLUBES ADOTAM SILÊNCIO

Athletico, Coritiba e Paraná Clube foram procurados pela reportagem para comentar a projeção de perdas com a pandemia e as estratégias adotadas pelos clubes para contornar a situação. Através de suas assessorias de imprensa, Athletico e Coritiba informaram que não iriam se posicionar sobre o tema. O Paraná Clube não retornou até o fechamento da matéria.

SEM PERSPECTIVA DE RETORNO DA TORCIDA NOS ESTÁDIOS

Ainda sem contar com uma vacina para a doença e com a possibilidade de um repique dos casos do novo coronavírus no Brasil, assim como vem ocorrendo nos Estados Unidos e em países da Europa, o período é de incertezas no futebol.

Representantes de clubes brasileiros e a Confederação Brasileira de Futebol se reuniram por videoconferência, no último mês, e mantiveram a proibição à presença de torcida nas competições nacionais. No fim de setembro, o Flamengo isoladamente chegou a se posicionar favorável ao retorno do público nos estádios, e provocou divergências entre os cartolas.

A CBF afirma que o retorno gradual do público só deverá ocorrer com isonomia e aval das autoridades de saúde estaduais, de acordo com medidas protetivas previstas no estudo encaminhado ao Ministério da Saúde, que prevê no máximo 30% da capacidade dos estádios liberada aos torcedores.

PERDAS EM ESCALA GLOBAL

Os impactos econômicos no esporte não se resumem ao mercado brasileiro – e nem somente ao futebol.

Na Europa, os 20 clubes com maior arrecadação devem acumular, em média, perdas entre 13%, no cenário mais otimista, e 29%, em uma projeção dentro da realidade atual.

Fonte: Deutsche Bank / análise Sports Value

A NBA, liga de basquete profissional dos Estados Unidos, deixou de faturar US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 8,15 bilhões) a menos que o projetado para a temporada 2019/20.

A temporada havia sido paralisada no dia 11 de março, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) anunciou a pandemia, antes da fase de playoffs, e só foi retomada no final de julho, após o cancelamento de 171 jogos da temporada regular e em um formato de “bolha”, dentro do complexo da Disney, em Orlando, na Flórida.

O sistema de segurança, que isolou jogadores, comissões técnicas e funcionários da covid-19 e se mostrou um case de sucesso teve custo aproximado do US$ 150 milhões, segundo a ESPN americana.

Na última sexta-feira (6), a direção da NBA, em conjunto com a associação dos jogadores da liga, confirmou que a temporada 2020/21 terá início no dia 22 de dezembro, em um formato reduzido, com 72 jogos para cada franquia e previsão de encerramento antes dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em julho.

A liga estima uma perda de 40% das receitas para a próxima temporada, caso as arenas não possam voltar a receber público.

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