Previstos em 15 mil, flamenguistas se adaptam a restrições no Qatar

Folhapress


Os vagões de metrô em que mulheres e homens viajam separados, o mercado com lojas para “espelhos e espadas” e a dificuldade quase intransponível de comprar cerveja são estranhas para a torcida do Flamengo. Mas os brasileiros vestidos de vermelho e preto, que falam alto e cantam em qualquer lugar que se juntem também são diferentes para os qataris.

A cada dia que se aproxima da semifinal do Mundial contra o Al-Hilal, da Arábia Saudita, o número de flamenguistas aumenta em Doha. Segundo o Itamaraty, 1.800 imigrantes do brasileiros vivem de maneira legal no Qatar. O governo da nação árabe estima que 15.000 torcedores do Flamengo estarão na capital na terça (17), quando a equipe entrar em campo para tentar uma vaga na decisão.

Neste domingo (15) eles já eram encontrados aos arredores do Museu de Arte Islâmica, no Souq Waqif, onde bebiam café gelado “já que não tem álcool”, como disse um deles, ou no Villagio Mall, o shopping center mais frequentado de Doha, com seu canal que é uma tentativa duvidosa de homenagear Veneza, na Itália.

Houve quem tentasse ir ao treino do time, na manhã deste domingo (15), no estádio Abdullah bin Khalifa. Mas a atividade foi fechada. “A ideia é ganhar tempo até a hora do jogo porque, para dizer a verdade, aqui não tem o mesmo clima de Lima [na final da Libertadores]. As pessoas daqui olham para nós mais desconfiados. Nem sei se o futebol é um esporte popular aqui. É melhor eles se acostumarem porque hoje tem apenas o Brasil. Em 2022 serão mais 31 países”, comentou o médico Antonio Carlos Marques Mendes, 61, que viajou a Doha incentivado pela mulher com o argumento de que “era a chance da vida.”

“Acho que na verdade o que ela quis dizer é que eu posso morrer antes da próxima”, completa, divertindo a si mesmo e a dois amigos. Um deles se recusou a ser entrevistado porque, jura, viajou e vai passar nove dias no Qatar sem a mulher saber.

O perfil do torcedor flamenguista em Doha parece ser diferente do que esteve na partida diante do River Plate pela decisão do torneio sul-americano. A viagem ao Peru poderia ser feita sem avião, apenas com carro ou ônibus. A distância do Rio de Janeiro para Lima é de 4.840 quilômetros. Para chegar a Doha são 11.509. O voo sem escalas pela Qatar Airways chegou a custar R$ 25 mil.

“O mais barato que achei foi via Etiópia, mas fiquei com medo porque chegaria aqui apenas na segunda à noite. E se atrasa e eu perco a semifinal?”, comenta o publicitário Bruno Medeiros, 43, que fez o trajeto com escala em Istambul.

A pressa fez com que torcedores em Doha estivessem na pouco usual situação de ter dois ingressos para cada partida. A pressa e o medo de que as entradas fossem compradas fizeram brasileiros recorrerem a sites de revenda, como o britânico Viagogo. O veterinário Odair Melchior, 35, pagou R$ 1.500 por bilhete que normalmente custaria R$ 300. Mas no dia seguinte à sua chegada ao Qatar, a Fifa liberou novo lote. Ele comprou de novo.

“Fiquei com medo porque o ingresso tem de ser nominal e o que eu recebi do Viagogo tem o nome de outra pessoa. E se me barram na hora de entrar no estádio? Aí fui lá e comprei mais um, mas de forma oficial. Melhor pagar mais e estar garantido de ver o jogo”, afirma.

A principal reclamação era a impossibilidade de comprar álcool, de venda limitada a poucos bares de hotéis cinco estrelas e que exigem traje esporte fino. E a garrafa long neck, de 355 ml, custa cerca de R$ 50.

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