“Príncipe da República de Curitiba”. Volta por cima de Wanderlei Silva

Redação


Nascido nas Mercês, em Curitiba, o lutador Wanderlei Silva, hoje aos 39 anos, promete voltar aos ringues no fim do ano. Em fase madura da carreira, Wanderlei deixou o conforto da Califórnia para voltar e dar sentido à vida de vitórias precoces. ‘Tá, acabou, game over, ganhei. Vou morrer aqui agora”, pensou. Não, a decisão foi voltar, se dedicar a causas sociais, resgatar jovens, que como ele, nasceram em ambientes menos favorecidos.

“Contar a sua história sempre vai motivar alguém. Se o cara pode eu também posso”, estimula. Wanderlei é sinônimo de superação e quer ser ainda maior. “O mais importante é o que o cara (famoso) fez no pós. Estou começando agora, retribuir”.

Imagem: Josh Hedges | UOL Esporte
Imagem: Josh Hedges

“Eu nasci nas Mercês. Quando meus pais vieram morar pra cá, em um casa de madeira onde hoje é o Castelo de Treviso. Tinha uma casa de madeira ali. Foi emprestada aquela casa para o meu pai e minha mãe. E agora construíram um castelo. É como se eu fosse um ‘Príncipe da República de Curitiba’ (gargalhadas). Pobre, porém, nobre.”

Recuperação e espetáculo

PP – Como foi a recuperação depois do atropelamento, você fez duas cirurgias?

WS – Fiz duas cirurgias,  uma no ombro e outra no joelho. Recuperei meu joelho esquerdo e meu ombro direito. Fiquei muito feliz em ver a qualidade técnica do médico que me operou, aqui de Curitiba. Mostrou qualidade, porque estou tendo uma recuperação excelente. Já tenho quase todos os movimentos. Andei só um dia de muleta. Fiquei muito feliz com a performance do médico. Meu joelho e ombro já estava realmente desgastado, lógico, 25 anos lutando. Disse o cara (o médico) que se eu for usar a direita, sou canhoto, volto a ter 16 anos (gargalhadas).

PP – Em quanto tempo volta a treinar?

WS – Já voltei a fazer preparação física, fazendo fisioterapia, bicicleta, faço pescoço, abdominal. Mesmo machucado algum tipo de músculo tem que fazer.

PP – Você pretende lutar em dezembro?

WS – Estou esperando para ver se consigo voltar em dezembro. Eu ia lutar em setembro, mas ainda é muito difícil. Ou não, vai que o cara é um X-Men.

PP – Qual torneio?

WS – Vou lutar no Rizin (Rizin Fighting Federation MMA). Esse é para ser o torneio mais violento do mundo. Ele tem as regras do Pride e sem peso. É um torneio interessante. Eu cresci agora, esto com 103 kg, pretendo ficar com 100 kg para poder lutar com qualquer um. É o que vou fazer para dezembro. Essa luta eu queria fazer com um estrela. Pode ser em dupla, eu e mais um contra duas estrelas. O que está faltando é algo que todo mundo queira ver.

PP – É um torneio como era antes, no início do MMA?

WS – É um evento em que pode ser mais perto do real.

PP – O documentário do HBO (seriado “A Grande Luta”, que mostra em detalhes momentos decisivos das carreiras de grandes lutadores brasileiros) que estreou no mês passado, que mostra o período em que você virou um fenômeno da luta, e dos mais antigos você ainda é um dos lutadores que conseguiu despontar no formato moderno do Pride e UFC. Quando pretende se aposentar?

downloadWS – Estou encarando o esporte, na verdade, o grande dilema é se o MMA é um esporte ou entretenimento. No esporte se tem um ranking, que deveria ser seguido. Não poderia o primeiro lutar com o último. Deveria ter regras específicas. Estou vendo que o negócio é o entretenimento. O artista ganha muito mais do que um atleta. Estou me preparando para lançar um novo tipo de entretenimento. É o entretenimento da porrada.

Os lutadores se encontram e saem na mão. Toma uma e dá risada. Um evento pra que gosta de ver luta boa. Com isso podemos dar oportunidade para toda uma rapaziada que está parada, mas que todo mundo quer ver lutar. Por exemplo, a luta que todo mundo quer ver é Pelé contra o Macaco. Eu queria ver o Pelé contra o Macaco. Não é por um cinturão, não é o número 1 do mundo, mas tenho certeza que seria um lutão. Ele começaram tudo.

Tem muitos caras bons. Eu gostaria de ver uma luta das grandes lendas do jiu jitsu. Um Royce (Grace), um Rickson Gracie contra um Sakuraba.

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PP – Mas você quer criar um evento para isso?

WS – Estou me encaixando no evento do Japão e queremos trazer essa técnica que ele tem de fazer eventos, desse estilo japonês para o Brasil. Entretenimento.

É o que eu sei fazer melhor. Onde consigo atingir o maior número de pessoas. Vamos tentar passar para essa rapaziada nova que se um pode todo mundo pode. Todo mundo tem alguma coisa que pode incentivar alguém. Se contar a sua história vai motivar alguém. Se um jornalista foi até o bairro contar como é o trabalho, vai levar a gurizada para outro mundo.

Não precisa de estrutura, tem que investir nas pessoas. As pessoas tem que ser captadas e colocadas no lugar certo.

PP – Você estava engajado em manifestações, tem algum trabalho social em andamento?

WS – Um dos motivo de eu ter voltado ao Brasil foi a questão social. Eu estava morando na praia, a três quadras da praia, em Hilton Beauty (California), perto do Pier, onde tem campeonato mundial de surf nas ondas perfeitas. Estava lá, com um carrão na garagem, dinheiro guardado… Pensei, ‘tá, acabou, game over, ganhei. Vou morrer aqui agora’.

Vitórias e família

PP – Você venceu na vida, ficou rico?

WS – Ser rico é relativo. Ser rico é ter o suficiente. Comprar muitas casas, você vai morrer, e deixar no colo do seu filho que não fez nada para ganhar aquilo. A grande sacada é chegar a um lugar e ver que não tem nada que eu queira comprar que eu não possa comprar. Aí você não quer. Tanto que estou de bicicleta aqui porque não quis comprar um carro. Não tenho necessidade de ter. O ter é diferente do ser.

PP – E os filhos?

Tenho uma filha de 20 anos, faz Publicidade. Estou casado e tenho um filho de 12 anos. O meu filho é a coisa mais engraçada desse mundo. Ele nasceu aqui e está indo para os Estados Unidos com três anos. Ele passou por toda a alfabetização dele lá. Ele só lê em inglês e fala um português meio estranho.

Ele começou a jogar futebol agora e se apaixonou. Ele é muito inteligente. 80% da inteligência vem da mãe. E minha esposa é médica, é administradora, e ela é canhota, e ele é 100% canhoto, tem muita habilidade.

Social 

“Quero entrar com o meu projeto de luta para o Instituto Ayrton Senna. Vou criar o Instituto Wanderlei Silva, voltado para a luta, e entrar no Instituto Ayrton Senna, que ajuda muita gente. O mais importante é o que o cara (famoso) fez no pós. Estou começando agora, retribuir. O grande legado é quantas pessoas o cara pode alcançar e quantas vidas ele pode mudar. Fazer as pessoas (perdidas) pensarem diferente. A gente vive neste mundinho aqui, mas quando a gente coloca o pé no banhado lá, vê a gurizada lá, vê o que acontece no bairrão. Temos que ter pessoas dispostas a ir lá, meter o pé no banhado e se importar com essas pessoas. Tem que arregaçar as mangas, ir lá e fazer. O pessoal não sabe o que acontece.”

Confira a entrevista em em que o atleta fala sobre a recuperação após acidente, família e política:

– Narley Resende, Mariana Ohde e Fernando Garcel

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