Tribunal suíço libera Guerrero para disputar a Copa pelo Peru

A primeira coisa que Paolo Guerrero fez foi ligar para o pai, José Guerrero. "Papi, vou jogar o Mundial", disse pelo tel..

Folhapress - 31 de maio de 2018, 22:08

Foto: Federação Peruana de Futebol
Foto: Federação Peruana de Futebol

A primeira coisa que Paolo Guerrero fez foi ligar para o pai, José Guerrero. "Papi, vou jogar o Mundial", disse pelo telefone. Ele havia recebido a notícia que seu último recurso havia funcionado. O Tribunal Federal da Suíça concedeu nesta quinta-feira (31) efeito suspensivo, e o peruano poderá disputar a Copa do Mundo, que começa no próximo dia 14.

Era a tentativa final depois de a CAS (Corte Arbitral do Esporte) ter aumentado sua pena de seis para 14 meses de suspensão por encontrar traços de benzoilecgonina, um metabólico de coca, na urina do atleta após partida contra a Argentina, pelas eliminatórias, em outubro de 2017.

A defesa do jogador usou tudo que tinha em mãos. Chegou a oferecer que uma amostra do cabelo do peruano fosse retirada ali, no meio do julgamento. Assim poderia ser feito um exame toxicológico.

Guerrero apresentou resultado de teste que ele encomendou a um laboratório para mostrar que não havia consumido cocaína. O atacante diz ter tomado chá de coca em hotel no Peru antes do jogo. A CAS não aceitou o documento porque o exame não foi feito em um local credenciado pela Wada (Agência Mundial Antidoping).

"Nós falamos na hora: então vocês podem pegar uma amostra do cabelo dele. O jogador está aqui. É só pegar e fazer o exame", afirma o bioquímico L.C. Cameron, especialista em metabolismo e contratado para ajudar na defesa.

Era uma tentativa também de demonstrar que o jogador não tinha nada a temer. A alegação foi de que o teste não foi feito em laboratório credenciado, mas havia seguido todo o protocolo necessário. "Eu não consegui entender", disse Cameron, professor da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) e uma das referências brasileiras no assunto, citando o aumento da suspensão. Ele afirma ter saído do julgamento com confiança de que Guerrero seria absolvido.

Durante o depoimento, Cameron debateu o assunto com o especialista enviado pela Fifa e houve concordância de que a causa mais provável da contaminação foi o chá. "Quando eu falo algo e a minha contraparte técnica concorda, não espero que a parte jurídica vá dizer o contrário", concluiu o especialista.

A Fifa havia punido Guerrero com suspensão de um ano. Após apelação, a pena foi reduzida para seis meses. Ele voltou a jogar em maio, pelo Flamengo. Insatisfeita, a Wada entrou com recurso na CAS. "A CAS concluiu pelo argumento jurídico de que Guerrero foi imprudente. Ignorou a questão científica. É a mesma coisa que ir a três cirurgiões, todos dizem que é preciso operar o rim, mas a florista afirma que não. E você vai pela florista", reclama Cameron.

A suspensão que ameaçou tirar o peruano do que provavelmente será a única Copa do Mundo da carreira (ele tem 34 anos) causou comoção. Os capitães de Dinamarca, França e Austrália, adversários do Peru na fase de grupos, enviaram carta à CAS pedindo diminuição da pena.

"A gente precisa estudar de novo e repensar o que é e o que não é doping no futebol. Tem sido comum na minha vida profissional ver casos que são tecnicamente inviáveis irem em frente. Isso precisa ser pensado de forma honesta pelas agências , pela Wada, pelos atletas...", conclui Cameron, que trabalha como biomédico com o volante Fred, da seleção brasileira.

Guerrero fará parte da lista entregue pelo técnico Ricardo Gareca à Fifa. O Peru está no Grupo C e estreará contra a Dinamarca, no dia 16.