A Rua e a Bruma, a Régua e o Compasso

Escritor, imortal da Academia Paranaense de Letras, Dante Mendonça lança, neste domingo, a obra que fala dos 50 anos da Rua das Flores, de Curitiba. Será no Palácio Belvedere.

Pedro Ribeiro - 20 de maio de 2022, 13:01

Foto/Divulgação
Foto/Divulgação

 

Por Dante Mendonça

A Rua das Flores foi o primeiro calçadão do Brasil exclusivo para pedestres. Em 1972, no dia 19 de maio, há 50 anos. Sua história daria um romance.

E deu. “A Rua e a Bruma, a Régua e o Compasso”. A Rua XV de Novembro, principal de Curitiba. A Bruma da ditadura militar no país. A Régua e o Compasso do prefeito-arquiteto de Curitiba e sua turma de jovens pares de profissão, engenheiros, arquitetos, visionários, ousados, criativos.

A Rua e a Bruma, a Régua e o Compasso – Romance da Revolução Urbana de Curitiba” é o novo livro de Dante Mendonça, que juntou história e ficção, personagens reais e imaginários, para compor a saga da transformação urbana de Curitiba, a partir justamente do fechamento ao tráfego de um trecho da principal rua da cidade.

EM CLIMA DE ROMANCE

Engana-se quem esperar do livro um tratado histórico sobre a Rua das Flores, que no pedaço de calçadão retomou o antigo nome da Rua XV de Novembro e foi palco de pintura de crianças, torre de informações, mesas e cadeiras na calçada, enfim, um cenário para o encontro e a prosa entre as pessoas, ao nível do homem a pé.

O livro recua no tempo e desvenda a Curitiba que era, bem antes da que passou a ser na década de 1970, a partir de duas personagens centrais, Zenaide e Gérard Lauzier. Ela, de nome inspirado numa página desenhada pelo cartunista francês Gérard Lauzier para a revista Realidade, e o próprio, que vem a Curitiba abrir sua exposição na Galeria Cocaco, no mesmo dia do nascimento da Rua das Flores.

A ser lançado neste domingo (22) das 10 às 14 horas, no Palácio Belvedere, o livro de Dante Mendonça, a contextualização da revolução urbana de Curitiba começa em 1949, com a vinda do maestro Xavier Cugat à cidade, para um show na Sociedade Thalia.

Partindo da constatação de Jaime Lerner, “Curitiba é conhecida como túmulo das orquestras espanholas, porque os músicos acabavam se apaixonando por alguma polaca e aqui encerravam suas carreiras”, desfilam pelas páginas do livro as grandes orquestras, as noitadas bancadas pelo ouro verde da cafeicultura, os amores e desamores, o entrecruzar de influências desenhando a alma de uma cidade. Vão da sisudez dos colégios católicos de influência francesa, por exemplo, ao ineditismo de uma galeria de arte como a Cocaco. Do Île de France à Velha Adega, do solo de trombone para um búfalo no Passeio Público à inauguração do Teatro do Paiol por Vinícius de Moraes.

A Rua das Flores é como o primeiro ponto da sutura da cidade diante da bruma. É um divisor de águas entre a Curitiba taciturna, encolhida, e a cidade referência no mundo. Mas é, principalmente, o despertar do curitibano para o seu cenário de vida. A partir daquelas pedras colocadas no chão, ele passou a discutir sua cidade. Para o bem ou para o mal, mas nunca mais com indiferença.

E você, onde estava em 19 de maio de 1972, dia do nascimento da Rua das Flores?

Dante Mendonça é jornalista, escritor, chargista e artista plástico.