Livro para combater o machismo não é para combater os homens

Ruth Manus esclarece que o livro contra o machismo não é um livro contra os homens, que não são só os homens que têm atitudes machistas; até mesmo algumas mulheres são machistas.

Redação - 11 de maio de 2022, 17:05

Foto/Divulgação
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A advogada e doutora em Direito Internacional pela Universidade de Lisboa, Ruth Manus, vem à capital paranaense para lançar o livro “Guia prático antimachismo - Para pessoas de todos os gêneros”. O evento será nesta quinta-feira, às 19h, na Livrarias Curitiba do Shopping Palladium.

Com seu estilo franco e certeiro, a autora mostra que expandir a conversa sobre o machismo - convidando para o papo quem ainda não têm familiaridade com o assunto - é mais do que necessário: é urgente.

“Decidi escrever esse livro porque temos muitas obras sobre feminismo, masculinidade tóxica e outros assuntos, mas poucas que sejam um convite a um passo anterior. E esse passo é um convite para ser feminista. São degraus de uma mesma escada. Mas acho, inclusive, que é mais produtivo e eficaz convidar as pessoas (sobretudo os homens) a começar pela desconstrução do machismo”, explica a escritora.

A obra é um convite à reflexão sobre estereótipos criados há milhares de anos e que também podem demorar a se dissipar. “Todos somos machistas. Assumir isso é um ato de coragem e trabalhar para essa desconstrução é a solução que a gente quer. Isso é um projeto de uma vida inteira. Não há fórmula mágica. Convido o leitor a refletir e a identificar seus gatilhos. A partir daí, há um trabalho diário a ser feito”, destaca Ruth.

Sentindo na pele

Na obra, a autora relata um caso pessoal vivenciado no período de Carnaval. “Quando tinha 18 anos, um brutamontes me pegou, segurou minha cabeça e desatou a beijar minha boca porque é Carnaval e as pessoas diziam que era normal, que ‘está tudo bem’. Levei anos estudando gênero para entender que sofri um ato de violência”, complementa.

Por mais curioso que seja, a situação - considerada corriqueira na época de Carnaval - ainda é relativizada e aceita como habitual. “Não é normal e não pode ser”, acrescenta Ruth.

A autora também salienta que a sociedade não consegue desconstruir o machismo se não tirar da cabeça que existem duas possibilidades: abandonar rótulos e conclusões precipitadas.

Em busca de igualdades

Ruth Manus esclarece que o livro contra o machismo não é um livro contra os homens, que não são só os homens que têm atitudes machistas; até mesmo algumas mulheres são machistas.

“Quando falamos em machismo estamos falando de algo que oprime a vida dos homens também (não poder chorar, não poder ganhar menos que a mulher, não poder ser vulnerável, não poder dizer que precisa de apoio de saúde mental e tantas outras truculências). Por outro lado, lembramos que as mulheres também estão contaminadas pelo machismo – e é preciso fazer um trabalho intenso de autocrítica. É preciso ser um trabalho conjunto da sociedade”, diz.

Contudo, a luta feminista busca principalmente a igualdade de direitos, oportunidades e tratamento entre homens e mulheres e se desdobra em vários segmentos. “O movimento feminista luta contra a situação de inferioridade em que a mulher ainda vive na sociedade”, reforça a escritora que já publicou outros quatro títulos, todos pela Editora Sextante.

Segundo a ONU Mulheres – criada em 2010 para unir, fortalecer e ampliar os esforços mundiais em defesa dos direitos humanos das mulheres - mesmo após décadas de ativismo e das dezenas de leis sobre igualdade salarial, as mulheres ainda ganham menos de 80 centavos para cada dólar recebido por homens. E, de acordo com o Fórum Econômico Mundial, no ritmo atual, o mundo precisará de 257 anos para superar essa desigualdade de gênero no trabalho.

Masculinidade tóxica

Outro tema abordado no livro Guia prático antimachismo - Para pessoas de todos os gêneros envolve a masculinidade tóxica.

O conceito centra-se na ideia de que alguns traços culturais associados à masculinidade são arcaicos, perpetuando a homofobia, a tendência à violência, a hipercompetitividade e o desejo de dominação.

“A crença popular de que ‘os homens são assim mesmo’, eles têm comportamento violento, não demonstram emoções, tendem a dominar ou controlar os outros reforça comportamentos prejudiciais instigados aos homens, em vez estimular um movimento, a partir da educação e da informação, no sentido de levá-los a assumir seus erros e se desculpar por eles”, destaca Ruth Manus.

A autora também complementa que os homens não são criados para a reflexão, para a serenidade, para a gentileza. A opressão masculina começa ainda na infância, pregando a necessidade de força, rigidez, velocidade e truculência. Se não ensinamos meninos a lidar com seus sentimentos e os instigamos a ser cada vez mais brutos (chamando isso de “ser homem”), não é de surpreender que haja muitos casos de violência de gênero mais tarde.

O isolamento decorrente da Covid-19 mostrou o exponencial aumento de casos de violência doméstica. Seria isso um sinal de que, quando tiramos os homens de ambientes onde eles canalizam a masculinidade tóxica - como bares, estádios e estradas com alta velocidade - essa toxicidade emerge dentro de casa? Provavelmente.

Ditadura da beleza

Para Ruth Manus, enquanto o machismo prega padrões muito restritivos de existência, o feminismo luta pela liberdade de ser plural. O machismo define não apenas padrões comportamentais, mas também de aparência.

“A ditadura da beleza estereotipada é uma verdadeira prisão para as mulheres. É preciso ser magra, ter cabelos longos, esconder os cabelos brancos e qualquer outro indício de envelhecimento. As mulheres passam vidas inteiras tentando corresponder a uma expectativa imposta por padrões distorcidos, tentando ter corpos que não são os seus, cabelos que não são os seus e idades que não são as suas. Precisamos rever esses conceitos, senão nunca teremos mulheres verdadeiramente emancipadas”, complementa a escritora.

Sobre a autora

Ruth Manus é doutora em Direito Internacional pela Universidade de Lisboa, onde também cursou pós-graduação em Direito Europeu.

É mestre em Direito do Trabalho, com ênfase no trabalho feminino, pela PUC-SP. Ela vive desde 2014 entre o Brasil e Portugal. Também atua como palestrante, é colunista do jornal português Observador e da revista Glamour no Brasil, e autora de outros sete livros, entre eles Um dia ainda vamos rir de tudo isso; Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas e 10 histórias para entender o fim do mundo – este último, finalista do Jabuti 2021, em coautoria com Jamil Chade – publicados pela Editora Sextante.

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