‘Madalena’ é um dos filmes mais enigmáticos de jovens cineastas

Naief Haddad, Folhapress

Filme Mdalaena crítica

O corpo de Madalena, uma mulher trans, é encontrado no meio de uma vasta plantação de soja em um município do Centro-Oeste. O filme, que leva o nome da personagem, mostra as reações de três pessoas da mesma cidade ao crime. São de diferentes classes sociais e de distintos graus de proximidade com a jovem assassinada.

Assim apresentado, o primeiro longa-metragem dirigido pelo matogrossense Madiano Marcheti pode parecer uma ação ou um suspense de estrutura razoavelmente simples. Longe disso.
“Madalena”, em exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é um dos filmes de ficção mais enigmáticos da safra recente de jovens cineastas do país.

Marcheti aborda uma realidade vergonhosa, o Brasil como um dos líderes mundiais em assassinatos de pessoas trans. Mas não toma o caminho de um filme-denúncia, construído matematicamente para comprovar uma tese. O diretor privilegia o fazer artístico, um terreno de mistérios e, só a partir daí, ele nos desvela o que é repugnante.

Filha de uma costureira, Luziane, papel de Natália Mazarim, vai à casa de Madalena buscar o pagamento de um trabalho feito pela sua mãe. Anda pela casa e, como não a encontra, decide pegar o dinheiro dentro de uma bolsa.

Em contraste com Luziane, jovem moradora da periferia, Cristiano, papel de Rafael de Bona, pertence ao grupo mais abastado do lugar -a cidade não é identificada, mas sabemos se tratar de uma região de forte produção agrícola em Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul.

Filho de um fazendeiro e de uma candidata ao Senado, o rapaz deve zelar pela terra e pela imagem da família. É o que faz dentro da sua caminhonete. Sua vida, porém, escapa do controle quando o cadáver de Madalena aparece na lavoura comandada pelo pai.

Também trans, Bianca, papel de Pamella Yule, sente falta da amiga que morreu, mas não demonstra indignação com o crime –a indiferença, em graus variados, une os três protagonistas. Bianca, no entanto, é a mais solar das figuras do filme.

“Madalena” provavelmente ganharia densidade dramática se oferecesse algo mais sobre as ligações entre cada um desses três personagens e Madalena. Um reequilíbrio entre o que se expõe e o que se esconde viria a calhar.

A maior força do filme não está no modo como registra as relações humanas, e sim na maneira como observa os elementos externos, as plantas (na agricultura e na floresta) e as águas, por um lado, e a tecnologia, por outro.

Máquinas, como os tratores enormes, se impõem como símbolos fantasmagóricos. Surgem também como representação de uma virilidade masculina que precisa se afirmar o tempo todo. Em contraponto, riachos cercados de uma vegetação exuberante, um paraíso etéreo do qual a câmera se aproxima lentamente, oferecem o respiro possível numa atmosfera, em geral, opressiva.

Ao tratar da finitude humana associada aos elementos naturais, especialmente a flora, Marcheti avança no universo da metafísica e se sai bem, com uma maturidade incomum para um diretor estreante em longa-metragem. O filme cresce, portanto, quando comenta a vida e a morte trans pelos signos da natureza.

Ainda que algumas imperfeições sejam evidentes, “Madalena” mostra caminhos estéticos bastante originais, o que deixa no ar uma dúvida boa -para onde vai o cinema de Madiano Marcheti?

MADALENA
Quando sáb. (30), às 21h20, na sala 1 do Cine Marquise, com presença do diretor e de parte do elenco; dom. (31), às 16h15, na sala 1 do Itaú – Frei Caneca; ter. (2), às 16h10, na sala 3 do Reserva Cultural
Elenco Natália Mazarim, Rafael de Bona e Pâmela Yulle
Direção Madiano Marcheti
Avaliação Bom

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