Antônio Maria, 100 anos: amor e saudade em versos e crônicas

Luiz Claudio Ferreira, Agência Brasil

antônio maria 100 anos

“Ô ô ô saudade/ Saudade tão grande/ Saudade que eu sinto/ Do Clube das Pás, dos Vassouras/ Passistas traçando tesouras/nas ruas repletas de lá”. Os versos do Frevo nº 1 do Recife (1951) anunciam o sentimento de um multiartista que vivia, segundo pesquisadores de sua obra, de forma intensa. 

O pernambucano Antônio Maria ficou tão conhecido por clássicos da música brasileira, entre frevos, inspirações de amor, amarguras e samba-canção (repletas também de dor, inclusive), como por sua habilidade em prosa em crônicas diferenciadas. O Frevo nº 2 do Recife (1953) também é dele, tanto letra quanto música: “Mas tem que ser depressa/Tem que ser pra já/Eu quero sem demora/O que ficou por lá”. Antônio Maria viveu intensamente e queria mesmo era falar de amor, como explica o biógrafo Joaquim Ferreira dos Santos, autor de Um homem chamado Maria, em entrevista à Agência Brasil.

Para lembrar e celebrar seu legado, a Rádio MEC preparou uma série de interprogramas com trechos de crônicas e canções desse personagem da alma e da noite carioca. Também nesta série temos as vozes de seu filho, amigos e parceiros, como Fernando Lobo, presentes no acervo de programas da EBC. Ouça abaixo:

Produção: Jose Freitas

Narração de crônicas: Sidney Ferreira

Locução: Raquel Ricardo

Trabalhos técnicos: Raphael Napoleão

Coordenação: Adriana Ribeiro

Outro pesquisador da obra de Antônio Maria, o escritor Guilherme Tauil, que promete uma antologia composta por 200 crônicas neste ano do centenário de Maria, concorda que a temática que envolvia as obras do pernambucano eram aquelas do coração. “O que ele perseguia era falar sobre amor”. Antônio Maria nasceu em 17 de março de 1921, em Pernambuco, e começou a carreira em 1938, como locutor na Rádio Clube. Trabalhou e morou em Salvador e Fortaleza. Outras marcas importantes de sua história são a derrocada financeira da família fazendeira e a busca de nova vida no Rio de Janeiro, quando ocorrem as maiores mudanças de sua jornada.

“Ele começou pelo mundo do rádio, da palavra falada e depois transitou para literatura”, afirma Guilherme Tauil.

Diferente de outros autores “puro-sangue” do mundo literário, Maria carregava outras experiências. O primeiro assunto dele é a rádio, onde tratava de assuntos como o futebol, ao lado de Ary Barroso. Foi na Cidade Maravilhosa que se encontrou como cronista e compositor, de forma intensa, trabalhando demais e dormindo de menos, como assinalam pesquisadores. Ele morreu em 1964, aos 43 anos, vítima de um infarto fulminante.

TRADUTOR DO BRASIL

Para o biógrafo Joaquim Ferreira dos Santos, que publicou pela primeira vez um livro-perfil (Noites de Copacabana) sobre Antônio Maria no ano de 1996, o artista centenário foi um dos grandes tradutores do Brasil em meados do século 20. Ferreira dos Santos recorda-se dos primeiros contatos com a obra de Antônio Maria, quando ouvia suas canções pela Rádio Nacional, interpretadas por cantoras como Elizeth Cardoso e Nora Ney. A primeira obra escrita por Ferreira dos Santos abriu espaço para o artista pernambucano passar a ser cultuado ao lado de outros autores consagrados da literatura e da música.

Em redações, Antônio Maria experimentou as máquinas de escrever de revistas como O Cruzeiro e Manchete, e jornais como Última Hora, O Globo, Diário Carioca e O Jornal, seu último local de trabalho.

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Antônio Maria (centro), Dircinha Batista e Carlos Frias, em Fortaleza, no ano de 1944. (Foto: Coleção José Ramos Tinhorão/IMS)

VENTO VADIO

O pesquisador Guilherme Tauil, que desenvolveu dissertação de mestrado sobre a obra de Antônio Maria, está envolto na garimpagem de 200 crônicas para uma antologia a ser publicada até o final do ano de 2021. O livro tem título: Vento vadio (a ser publicado pela editora Todavia), que era como Antônio Maria pretendia batizar seu primeiro livro, o que nunca foi concluído. “O que a gente está planejando é uma antologia definitiva. E estou com um problema bom, já que selecionei mais de 300 obras para chegar a 200”.

Assim como Ferreira dos Santos, ele entende que Antônio Maria é um escritor memorialista e essa vertente ficou menos explícita ao longo do tempo. “É um tema fortíssimo. Ele tem sensação de deslocamento no Rio de Janeiro. Apesar do grande êxito profissional, ele se sente o tempo inteiro deslocado. Ele volta ao Recife em suas crônicas com frequência e chegou a relatar ter sido vítima de preconceito por causa do sotaque pernambucano”. Maria identificava-se como negro e se entendia “gordo”, e essas marcas, segundo o pesquisador, estão na obra do artista.

Em O Evangelho Segundo Antônio (ouça trecho abaixo), o cronista sintetiza: “Cá estou eu a escrever tolices. Com imensa facilidade – convenhamos. Vivemos dias em que é preciso escrever tolices. Há uma dor preponderante em cada coração”. Os pesquisadores entendem que a obra de Antônio Maria é atemporal, e pode ser inspiração de leitura no contexto atual.

“Trata-se, realmente, de um bálsamo na arte brasileira. Nasceu no Nordeste e juntou realidades tão diferentes. Cabe um Brasil inteiro na obra dele, de elegância e sensibilidade artística. Em momentos como os que estamos vivendo, é importante que tenhamos contato com boas leituras, como as crônicas, que são textos do cotidiano e encantam”, afirma Joaquim Ferreira dos Santos. Aliás, novos leitores podem se inspirar pelo trecho final da crônica mencionada: “Com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente (isto é, o homem que desdenha do próprio coração). Profissão: esperança”.

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