Ao Distinto Cavalheiro renova comida de boteco. Veja receitas

Eduardo Sganzerla

Cada boteco de Curitiba tem muita história para contar.
mignon executivo do boteco e bar

O boteco é uma tradição antiga no Brasil que preserva características essenciais que já foram consagradas pelo público em cada bar. É um lugar simples e informal, com grande variedade de bebidas, petiscos e comida rápida oferecidos a preços geralmente populares. Como as gerações, o boteco se renova. Este é o caso do Ao Distinto Cavalheiro, que funciona no espaço de uma antiga farmácia, desde 2002, na esquina da Saldanha Marinho com a rua Visconde do Rio Branco, centro de Curitiba. O bar foi completamente remodelado nesta pandemia e hoje desponta com um cardápio de comida de boteco e restaurante bem refinado. “Um lugar de respeito para cavalheiros e damas” – brinca seu novo proprietário, o advogado e professor José Renato Gaziero Cella, que ali estabeleceu um ponto para encontrar amigos e despender boa parte do seu lazer, “fazendo o que gosta”.

Boteco, que é um diminutivo de botequim, termo originário da palavra botica, armazém no qual se vendia de tudo e que evoluiu para o vemos hoje, tem sempre uma história para contar. E Curitiba conta com muitos estabelecimentos tradicionais desse tipo, como são os consagrados Bar Stuart (1904), Bar Mignon (1925), Casa Velha (1927), Bar Palácio (1930) entre muitos outros. O boteco, que alimenta o espírito boêmio, já criou frases célebres tipo “minha vida é um litro aberto!”

interior de Ao Distinto
O bar com seu interior renovado, mas que manteve características originais. Foto: divulgação.
área externa
A área externa do bar, um espaço pequeno, mas simpático e confortável. Foto: divulgação.

Ao Distinto Cavalheiro, “a mais distinta esquina de Curitiba”

A história do Ao Distinto Cavalheiro começou com artista plástico Odil Miranda Ribeiro. Ele pensou originalmente numa cafeteria, mas que logo viraria um tradicional boteco do centro da cidade. O bar passou por diversos proprietários. Em 2018, quando foi mais uma vez posto à venda, Cella, que era frequentador antigo do Ao Distinto, decidiu comprá-lo. “Como esquecer as discussões acaloradas intelectuais, ideológicas e futebolísticas? Assim sempre foi o Ao Distinto, um lugar para celebrar a boa prosa com sapiência e prestigiar a esquina mais distinta de Curitiba”, diz ele.

Um pouco antes da pandemia, o bar promoveu o grito de carnaval em que, pela primeira vez, recebeu autorização municipal para interromper o tráfego de rua para o festejo. Com a quarentena, a partir de março de 2020, Ao Distinto foi também obrigado a fechar as portas. Foi então que Cella deu um passo mais arrojado: reformar o bar. E o seu maior receio, conta ele, nem era o de elevar ainda mais o prejuízo derivado da inatividade, “mas o de correr o risco de desfiguração do estabelecimento e, portanto, da sua identidade que tanto encanta os seus habitués”.

Na reforma, tudo foi pensado para minimizar ao máximo o impacto da mudança. “Resolvi incrementar ainda mais a identidade curitibana do boteco e o culto às suas personagens icônicas, de modo a homenagear, na parte externa, seus escritores, músicos, atores e artistas plásticos, com a calçada paranista a servir de passeio”, explica Cella.  O bar reaproveitou o antigo mobiliário típico das velhas boticas, de madeira escura; passou a ter piso esquadria em branco e preto, azulejos na parede e objetos pitorescos pendurados, paredes com eventos históricos de Curitiba emoldurados em singelos quadrinhos.

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Homenagem a paranaenses com o pé na boemia

temas paranaenses
Uma homenagem do bar a paranaenses ilustres que sempre tiveram um pé na boemia. Foto: divulgação.

As portas de aço do boteco foram pitadas com personagens da história paranaense, geralmente com um pé na boemia. Este é o caso do poeta e escritor Emílio de Meneses (1866-1918) que, conta a história, foi o maior boêmio que Curitiba viu nascer e viver e talvez jamais verá outro igual. Como todo o boêmio desse quilate, teve uma vida muito conturbada. Mesmo assim, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Como contrariar era uma de suas características, escreveu um discurso de posse que desancava o antecessor ocupante da cadeira, Salvador de Mendonça. Por isso, jamais permitiram que ele tomasse posse.

Outra porta foi dedicada aos músicos da cidade. “Aqui a negritude está fortemente representada”, explica Cella. Aparecem as figuras do Saul Trumpet (1943-2017), que, por diversas vezes, se apresentou no Ao Distinto e que foi um de seus mais queridos frequentadores. Além dele, o incomparável Waltel Branco (1929-2018), compositor de primeira hora da nascente TV Globo, curador do programa Concertos para a Juventude, que passava nas manhãs de domingo da emissora nos anos 1960 e 1970, compositor, ao lado de Henry Mancini, da trilha do famoso filme Pantera Cor de Rosa. E também o lendário cantor e compositor Lápis, Palminor Rodrigues Ferreira (1942-1978).

Na outra porta quem está representado é Frederico Lange de Morretes (1892-1954), pintor, desenhista, gravador, cientista e professor. Lange de Morretes, como era conhecido, foi o artista que concebeu os desenhos que aparecem nas calçadas chamadas paranistas, em petit-pavé, que estão nas ruas de Curitiba e que também integram a parte externa do bar.

Filé mignon também vira comida de boteco

Com a reinauguração e a renovação da comida de boteco, o bar também passou a ser restaurante e a abrir em horário comercial regular, com cardápio de almoço e jantar. Ao Distinto oferece, além da comida tradicional de boteco, uma mescla de refeições completas, servidas com o couvert, salada, prato principal e sobremesa em preço fixo. Exemplos disso são os pratos executivos, como o de mignon (receita abaixo); o bolinho de carne, que pode ser servido na forma do sanduíche, batizado de Lapa (receita abaixo); e a porção de costelinha de porco defumada (receita abaixo).

Executivo de mignon

mignon no boteco
Foto: divulgação.
  • 150g de mignon grelhado com a cebola, temperados com sal e pimenta-do-reino à gosto.
  • 150g de fritas
  • 120g de arroz
  • 120g de feijão
  • Farofa

Bolinho de carne Lapa

lapa
Foto: divulgação.
  • 1 pão d’água
  • 2 fatias de queijo
  • 1 bolinho de carne frito (180g)
  • Cheiro verde picadinho

Com o pão cortado ao meio, montar o sanduíche colocando uma fatia de queijo sobre a parte de baixo do pão.  Sobre ele, acrescentar o bolinho de carne frito, a outra fatia de queijo e aquecer no forno até o queijo derreter. Cobrir com cheiro verde e colocar a outra parte do pão. Cortar ao meio para servir.

Costelinhas de porco

costelinha
Foto: divulgação.
  • 800g de costela especial Bizinelli temperada
  • Pré-assar a costela em forno à 180°
  • Cortar as ripas e fritar em óleo até dourar
  • Servir com limão e molho de pimenta
dono do bar e boteco
Cozinheiro nas horas vagas, o advogado e professor José Renato Gaziero Cella comprou e repaginou o bar. Foto: Bruno Tadashi

 

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