Campana: Memória de um Jornalismo sem medos

Foi de muita felicidade e apropriada a homenagem que a Assembleia Legislativa promoveu a Fábio Campana, que perdemos para a Covid em fevereiro último.

Redação - 17 de junho de 2022, 10:56

Foto: Marcelo Elias
Foto: Marcelo Elias

Por Aroldo Murá - Foi de muita felicidade e apropriada a homenagem que a Assembleia Legislativa promoveu, dia 13, por iniciativa do deputado Luiz Fernando Guerra, a Fábio Campana, que perdemos para a Covid em fevereiro último.

Denise Camargo, a esposa, companheira de 50 anos, lá estava dizendo seu “sim” às rememorações do parlamentar sobre a multi e diferenciada carreira de Fábio em seus mais de 40 anos de jornalista profissional.

Jornalismo profissional que nada tem a ver com os chamados “influencers” que polulam por aí, e muitas vezes poluem as redes sociais com seus “comerciais” e suas militâncias políticas, essas   quase sempre permeadas de “fake news”.

NADA COM INFLUENCERS

Esses blogueiros e ditos influenciadores por vezes têm milhões de seguidores. Eles cresceram com patrocínios oficiais nos tempos do governo Lula; são também bem contemplados – em muitos sentidos – pelo atual governo federal. Formariam, segundo o ministro Moraes, do STF, o chamado “Gabinete do Ódio”.

Fábio Campana

Luiz Fábio Campana – esse é seu nome completo – estudou Psicologia e depois “pós graduou-se” na “Escola dos Jornalistas”, o dia a dia das redações e das ruas, sem ter passado pela academia que prepara os profissionais da imprensa. Ou deveria prepará-los.

O AMIGO CAMPANA

Tenho isenção suficiente para falar do amigo Campana, que até me premiou com dedicatória em um de seus muitos livros. Era um poliforme comunicador, e inegável dono de ampla cultural geral, que ia de conhecimentos históricos (vide seu nome ligado ao do Cabeza de Vaca) a  quase tratados de Histórias Política, ou, ainda, expondo-se à crítica literária com seus romances nunca corretamente apreciados pelos chamados críticos literários.

Fábio com os filhos Izabel e Rubens Campana

Fábio nunca me pareceu preocupado com Reconhecimentos. Escrevia porque tinha de escrever. Era matéria essencial, alimentando sua dependência irremovível na análise que trabalhava sobre o Paraná, que conhecia como poucos.

ALÉM DO COTIDIANO

Enxergar Campana somente como um analista do cotidiano político local é erro sem tamanho. Ele tinha, em meio a erros e muitos acertos, o condão de descobrir o que chamo de “pecados dominantes” de certos homens públicos, os quais expunha sem temores, mas sem fechar-lhes inteiramente as portas a um diálogo futuro.

Estaria eu sendo hagiográfico quando falo de Campana? Acho que não, porque reconheço que, a par de um reconhecimento enorme na comunidade, por seus dia a dia jornalístico, ele também enfrentou batalhões de adversários, muitos dos quais o levaram a tribunais. Diziam-se agredidos pelo jornalista.

Fábio Campana

Tinha opositores, às vezes pode ter sido injusto, era humano. Com a possibilidade de Reconciliação em “pontes” que ele construía com diálogo e memória histórica única. Tal como, por exemplo, fez com Jaime Lerner, de quem foi aferrado adversário, no passado dos anos 1980/90, e de Greca, de quem escreveu um dos mais engraçados textos, irônico, expondo o hoje prefeito a sofrer, numa viagem de avião, de “frouxos intestinais”. Uma preciosidade.

Aroldo Murá com Jamil Snege, Carlos Alberto Pessôa e Fábio Campana, nos anos 1990

De Lerner, diga-se, era, nos últimos anos, um fiel companheiro de jantares, ao lado de Deiró e Dante Mendonça. Até que a Covid acabou com eles.

EXCESSO FRATERNO

Pra mim, haverá sempre o agradecimento de quem um dia – 23/12/2003 – escreveu um texto inteiro de sua coluna na Gazeta do Povo com o título “Mestre Murá”. Mensagem que, claro, inflou meu ego e que, como tantas outras provas de amizade, faz com que não fale dele senão bem. Especialmente agora que o Anjo da Morte o levou

(“De mortuis nil nise bene”, dos mortos não se diga senão o bem). A recomendação apenas amplia meus motivos para ser, no caso de Campana, um analista comprometido em enxergá-lo como personagem raro da imprensa paranaense. Afinal, sou humano.

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