Comédia com Luana Piovani, ‘O Homem Perfeito’ extrai humor do machismo

Folhapress


Guilherme Genestreti

Ele nunca foi lá um grande fã de comédias românticas. Não tinha visto nem “Um Lugar Chamado Notting Hill”. Também não se vê como diretor de pastelões. “Me encaixo mais no drama mesmo”, diz o cineasta Marcus Baldini.

Relutância à parte, é o seu nome que estampa a segunda comédia nacional mais vista entre as lançadas neste ano, o escrachado “Uma Quase Dupla”. E é ele quem está no comando de outra, mais ácida, mas com o mesmo fôlego para figurar entre as mais vistas do gênero: “O Homem Perfeito”, que estreia nesta semana.

Espécie de diretor cômico por acidente, o carioca de 44 anos começou nos longas com o drama “Bruna Surfistinha”, em 2011, engatou no humor com “Os Homens São de Marte… E É pra Lá que Eu Vou”, três anos depois, e de lá nunca mais saiu.

Não que Baldini não tenha ambições de voltar a rodar títulos mais sérios, com o mesmo tom da série “Psi”, que tem a sua assinatura em vários dos episódios. “Mas é que no cinema os projetos cômicos acontecem mais rápido”, afirma.

Isso não significa que o diretor não goste de fazer o público gargalhar. “Gosto de quando as pessoas riem pelo nervoso. Nos Estados Unidos se faz piada até com assunto seríssimo.”
“O Homem Perfeito” é desses que tiram graça de assuntos espinhosos -solidão e machismo, no caso-, tratados de forma sarcástica por Tati Bernardi, colunista da Folha de S.Paulo e autora do argumento do longa. O roteiro também é assinado por Patricia Corso e Pedro Coutinho.

Luana Piovani interpreta Diana, escritora quarentona trocada pelo marido por uma bailarina bem mais nova. Para melar o namoro do ex-companheiro, ela cria o perfil falso do que seria um homem perfeito numa rede social e ludibria a garota.

Em paralelo, a protagonista do longa também tem de lidar com um roqueiro mulherengo, vivido por Sergio Guizé, a quem ela serve de “ghost writer” numa autobiografia -situação com a qual roteirista diz se identificar. “Sei o que é ficar anos escrevendo um filme, ir à pré-estreia e ver que todo mundo está cagando para você.”

A história de “O Homem Perfeito” tem muito a ver com os próprios temas que Tati aborda em suas colunas na Folha de S.Paulo. Estão lá as expectativas frustradas com os relacionamentos e a dualidade entre o macho alfa e o macho sensível. “Escrevo sobre o que acho engraçado. Acho neurose uma coisa engraçada”, diz.

Foi a escritora quem propôs ao diretor uma imersão em comédias românticas antes de levar o roteiro à tela.

“Ele tem horror a humor raso, ele compra briga por piadas inteligentes”, diz. “O resultado é que o filme ficou classudo, sem a tosquice do gordo que sai correndo com o sorvete na bunda.”
Esse é um dos méritos que diferenciam o longa ou o também recente “Mulheres Alteradas” da massa de blockbusters cômicos nacionais. Há naqueles um esforço claro para não se apoiar em piadas surradas ou no humor gritado, onipresente em “Até que a Sorte nos Separe” ou “De Pernas por Ar”, ambas as franquias da lavra de Paulo Cursino.

Baldini, agora sim, vai dar um tempo no humor. Foi escalado para dirigir “Sequestro do Voo 375”, inspirado no caso dramático do maranhense Raimundo Nonato da Conceição, que quase conseguiu jogar um avião da Vasp no Palácio do Planalto em 1988. E quer adaptar para o cinema a canção “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”, de Fausto Fawcett, aquela que, segundo a letra, cavalgou pelos subúrbios, “toda nua, toda nua, toda nua, toda nua”.

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