Dois brasileiros estão em lista 50 Best de jovens que transformam a gastronomia

Marilia Miragaia, Folhapress

Novos na gastronomia

Dois brasileiros fazem parte da lista 50 Next, divulgada nesta terça (20), que elege jovens que estão moldando o futuro da gastronomia. Em sua primeira edição, a iniciativa é promovida pelo World’s 50 Best, considerado o Oscar do setor, e vem em um momento de crise e fechamentos provocados pela Covid –que fez premiações e avaliações serem postergadas.

Diferente dos rankings de bares e restaurantes do 50 Best, a lista com jovens líderes não tem ordem de classificação e foi dividida em categorias com um olhar mais abrangente à gastronomia –produção, tecnologia, educação, indústria criativa, ciência, hospitalidade e ativismo.

A atuação em regiões periféricas é um elemento em comum entre os dois representantes do Brasil: Mariana Aleixo, 33, está à frente de projetos no complexo da Maré, na zona norte carioca; Thiago Vinícius de Paula da Silva, 32, atua com a democratização do acesso a alimentos orgânicos no Campo Limpo, zona Sul de São Paulo.

“Com o restaurante e o armazém, damos visibilidade à conexão do campo com a periferia e à nossa quebrada. Até brincamos que vamos colocar mais Capão Redondo no Waze: é um convite para a cidade curtir os roteiros gastronômicos que estão nos extremos”, diz Thiago Vinícius.

Responsável pela organização de festivais de música e uma agência cultural, a Solano Trindade, ele decidiu conectar produtores de orgânicos da zona sul ao habitantes da região, marcada pela alta ocorrência de negócios que vendem comida ultraprocessada. Assim nasceu, em 2018, um armazém e um delivery, e, no fim de 2019, o restaurante Organicamente Rango, comandado por sua mãe, Tia Nice.

Além de entregar 1.500 pedidos de orgânicos por mês e produzir 200 pratos de comida por semana, Thiago também viabilizou, com apoiadores, a doação de quase 20 mil cestas de alimentos e 22 mil marmitas desde o começo da pandemia.

Em 2020, Mariana Aleixo também ajudou a organizar um banco de alimentos e a entrega de 65 mil refeições para populações em situação de rua no complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Desde 2010 ela usa a gastronomia em benefício dos moradores da região com o projeto Maré de Sabores, que está integrado ao Redes da Maré, movimento comunitário que atua em diferentes frentes no conjunto de 16 favelas da Maré, que tem 140 mil moradores.

Mulheres vindas da qualificação do Maré de Sabores também podem atuar em um bufê, que desde o começo da pandemia opera por delivery e produz uma cozinha brasileira que resgata memórias e tradições alimentares dos moradores locais –entre as sugestões, estão costela de porco com mostarda de cajá e bobó de banana-da-terra com leite de coco, dendê e farofa.

Dessa iniciativa também nasceu em 2016 a Casa das Mulheres, espaço voltado à equidade de gênero, que oferece acolhimento psicológico, jurídico e formação profissional.

“A gastronomia pauta a cultura e a cultura precisa falar mais da nossa identidade. Quando começamos a pensar na comida brasileira, vamos chegando em questões históricas, sociais e trazendo discussões de gênero e refletindo como esse poder econômico pode desenvolver territórios. O prêmio está trazendo essas questões, de como a gastronomia pode ser mais coletiva”, diz Mariana.

Uma agricultora filipina, uma chef indígena mexicana e uma empreendedora indiana estão entre os jovens de 34 países, de até 35 anos, eleitos pelo 50 Nexts por sua contribuição e pelo potencial de causar impactos positivos no mundo.

Eles foram escolhidos entre um conjunto de 700 candidatos, considerados entre inscritos, indicados e prospectados, em um processo feito em parceria com o Basque Culinary Center, instituto que atua na formação de chefs, no pólo gastronômico de San Sebastián, na Espanha.

Além do anúncio virtual desta terça, o 50 Next também prevê a realização de uma cerimônia física em Bilbao, no País Basco, na Espanha, para celebrar as listas de 2021 e 2022, quando as restrições de viagens forem aliviadas.

No ano passado, a organização do prêmio voltou esforços a iniciativas, como um leilão, para apoiar a recuperação de um setor profundamente abalado pelos meses de fechamento e pela crise econômica que se seguiu à chegada da Covid-19. Em março de 2020, a entidade cancelou a cerimônia global dos melhores restaurantes do mundo –a expectativa é de que o prêmio, que geralmente acontece em junho, deva acontecer no final deste ano na Antuérpia, Bélgica.

O “Guia Michelin”, por exemplo, anunciou na semana passada que vai retomar as atividades de avaliação em várias cidades nos Estados Unidos, com a reabertura de restaurantes no país. Segundo uma entrevista de um porta-voz do guia ao New York Times, 80% dos restaurantes estrelados estão abertos nos EUA –em todo o mundo, apenas um terço dos estabelecimentos estão em pleno funcionamento agora.

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