É serio: dá para acreditar na performance musical dos atores de “Bohemian Rhapsody”

Redação


PopCorn Music

 

Por Daniel Derevecki

O que falar da trilha sonora desse filme? É o Quenn, isso já bastaria. Mas tem muito mais coisas ali para encantar aos ouvidos do que uma simples “playlist”. O cuidado com a música é primoroso, desde os créditos iniciais, com a vinheta da 20th Century Fox tocada numa guitarra com distorção, até aos momentos mais épicos, como a recriação do lendário show da banda no “Live Aid”, realizado em 13 de julho de 1985 no estádio de Wembley para arrecadar fundos destinados ao combate à fome na Etiópia.
De modo geral o filme não tem sido um sucesso de crítica, porque muitas incongruências com a realidade vem sendo apontadas ao longo das semanas desde a sua estreia. Uma delas diz respeito ao Brasil, quando é mostrado o show da banda no Rock in Rio de 1985, como se este tivesse ocorrido quase 10 anos antes. Mas não sejamos ingratos, há boas cenas do Rio de Janeiro e é dado um destaque e tanto para o momento no qual o público canta “Love of My Life”.
Quem dá vida a Freddie Mercury é Rami Malek (37), que entrega ao público uma performance bastante verossímil, sendo elogiado recentemente por isso pelo astro Robert Downey Jr., o “Homem de Ferro” da Marvel. Mas quem rouba a cena no aspecto da música instrumental é o britânico Gwilym Lee (35), que interpreta o guitarrista e astrofísico (isso mesmo, você não leu errado) Brian May. Ele toca a guitarra com muito realismo, principalmente nas cenas de palco. Complementam a banda o americano Joseph Mazzello (35), que vive o baixista Jhon Deacon, e Ben Hardy (27), que faz o baterista Roger Taylor. É importante salientar que Mazzello e Hardy não deixam a desejar e fecham bem a “cozinha”, como se identifica no jargão das bandas o conjunto “baixo e bateria”. Essa qualidade visível é fruto de um trabalho de consultoria que todos tiveram com músicos profissionais. Nos créditos finais está a informação com os nomes dos “coaches” de voz, piano, baixo, guitarra e bateria.

Outros aspectos que foram muito bem trabalhados no filme tem relação com os bastidores da indústria fonográfica da época. Embates com a gravadora, escolha de repertório, relação com agentes, entre outras coisas, são bacanas de se ver. Mas a cereja do bolo foi mostrar a maneira com que se gravavam as músicas no estúdio. É importante salientar que, na época do Queen, as gravações eram realizadas pelo processo analógico, com fitas magnéticas, e não pelo digital, através de softwares de computador.
Uma das diferenças entre os dois processos (analógico e digital) reside na quantidade de canais disponíveis para se gravar ao mesmo tempo. No passado, um estúdio que gravasse com 4 canais era coisa fina, um que gravasse em 8 então era quase coisa de alienígena, 16? Deixa pra lá. Para conseguir algo inovador, como a incomparável música que dá nome ao filme, foram necessárias várias “dobras” das vozes dos cantores, feitas repetidas vezes em fitas magnéticas. No filme eles mostram que houve mais de 20 dobras. Para fazer essa dobra era necessário colocar a fita já gravada para tocar e gravar a voz adicional em outra fita. Depois, pegava-se a gravação com essas duas vozes já gravadas e repetia-se o processo em outra fita e assim era feito dobra após dobra. Haja fita. Somente assim foi possível obter aquele efeito “coral” no trecho famoso: “Galileo, Galileo….”
Outra coisa muito importante exibida foi o processo de criação dos discos. Naquele tempo havia uma preocupação muito grande dos artistas com os seus álbuns. Um LP era uma obra de arte e precisava de um fio condutor que imprimisse identidade e transitasse pelo trabalho da capa à última faixa do lado B. Os discos do Queen eram assim. Aqui no Brasil as produções seguiam pelo mesmo caminho. Podem servir como exemplos disso os discos “Transa” (1972), de Caetano Veloso, e “Secos e Molhados” (1973), do grupo de mesmo nome.
Com relação às performances de palco, a sequência que mostra o histórico show no “Live Aid” é ótima e tem um momento curioso: o produtor e agente da banda está atrás da mesa de som (um monstro de pelo menos 32 canais cheio de botões) e faz um truque que hoje em dia seria improvável. Ele troca de lugar uma marcação com fita adesiva para poder aumentar o volume dos microfones que seriam usados por Freddie. Se fosse hoje, numa mesa digital, ele não teria acesso, porque as configurações já estariam gravadas previamente e, em alguns casos, só poderiam ser acessadas por senha. Se esse fato ocorreu ou não eu não sei, mas foi interessante.

No mais é só estourar a pipoca, aumentar o som e curtir, porque a trilha já está disponível no Spotify.

Daniel Derevecki é bacharel em Música Popular pela Universidade Estadual do Paraná.
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Twitter: @danielderevecki

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