Filme sobre ‘cura gay’ estreia nos cinemas brasileiros

Folhapress

Por Guilherme Genestreti

Dois meses atrás, “Boy Erased”, filme crítico sobre a chamada “cura gay”, passou reto pelos cinemas brasileiros e foi direto para o DVD, apesar de seu elenco hollywoodiano e indicação ao Globo de Ouro. Razões comerciais, segundo a sua distribuidora.

Por ironia, outro longa com a mesma abordagem sobre o assunto, mas sem nomes estrelados, “O Mau Exemplo de Cameron Post”, estreia no país nesta quinta (18) até mesmo em sala de shopping center.

A cineasta Desiree Akhavan se surpreende ao saber. “Tivemos que lutar muito para que o nosso filme estreasse nos cinemas aqui nos Estados Unidos, enquanto ‘Boy Erased’ teve um lançamento grande.”


Nem mesmo o fato de ter sido o grande premiado do Festival Sundance, a meca da produção independente, ajudou. “Acho que tem a ver com o fato de lidarmos com sexualidade feminina, com a história de uma garota que se masturba e tem desejos”, crê.

Ambas as produções partem de livros. Em “Boy Erased” (ed. Intrínseca), o americano Garrard Conley narra as memórias de quando foi levado pelo pai, um pastor batista, a um desses locais que se propõem a reorientar gays. Narra como um psicólogo dali aplicava jogos mentais nos frequentadores e incentivava exorcismos.

“Cameron Post” (ed. HarperCollins) é o romance juvenil escrito por Emily M. Danforth, inspirado em uma experiência do mesmo tipo, só que com uma adolescente lésbica.

Ambos os filmes abordam a inspiração religiosa que guia esses centros, evocam suas normas peculiares, como a revista de pertences para proibir a entrada de itens profanos, e o senso de inadequação dos protagonistas diante das arbitrariedades de seus líderes.

Enveredam, assim, por esse quase gênero cinematográfico que é o do filme de internação. São praticamente versões LGBT teens de “Um Estranho no Ninho”.

Mas as semelhanças terminam aí.

“Boy Erased” está mais para uma (malsucedida) tentativa de fazer bom-mocismo com pautas identitárias e chamar a atenção ao escalar atores como Nicole Kidman e Russell Crowe para papéis centrais. Vem também de um diretor, Joel Edgerton, com pouca ligação com a causa.

Já “O Mau Exemplo de Cameron Post” faz jus ao pedigree indie, que lhe rendeu prêmio em Sundance, com produção mais modesta, mais sutileza e menos atores famosos.

Sua diretora também é um nome conhecido em produções que resvalam na temática queer.

O filme também deixa de lado o maniqueísmo que marca “Boy Erased” e opta por não tratar religiosos como vilões nem os frequentadores desses centros como incautos vítimas de lavagem cerebral.

“Não queria transformá-los numa piada”, explica Akhavan. “A esquerda liberal não gosta muito da ideia, mas eu queria falar da humanidade que existe mesmo nos que defendem essas formas de terapias.”

Chloë Grace Moretz (“Deixe-me Entrar”) interpreta a personagem-título, uma adolescente órfã que é flagrada pelo namorado aos beijos com uma outra menina. A tia a obriga a frequentar o Promessa de Deus, programa mantido por psicólogos evangélicos em algum lugar não especificado dos rincões americanos.

Ali, Cameron aprende que o desejo homossexual é a ponta do iceberg de uma série de questões que só a religião irá sanar. O ano é 1993. Sem internet para conhecer histórias de outras lésbicas, a sensação de inadequação e solidão da garota é maior. É naquele centro, contudo, que encontrará mais gente como ela.

Nova-iorquina filha de iranianos, a diretora usou no filme parte de suas experiências num retiro destinado a pessoas com sobrepeso. “Para mim, foi bom. Cheguei odiando todas as pessoas que também estavam ali e aos poucos passei a ver traços meus em cada uma delas.”

Isso ajuda a explicar o seu olhar um pouco mais generoso aos demais personagens que, assim como Cameron, são submetidos às regras do Promessa de Deus, incluindo aí os que as respeitam cegamente, seja lá por que razão.

Durante as filmagens do longa, no segundo semestre de 2016, Donald Trump acabou eleito, levando a tiracolo o seu vice, Mike Pence, religioso e entusiasta fervoroso desse tipo de terapia de reorientação sexual.

“Não mudou a nossa abordagem, mas trouxe um senso de urgência para o filme”, explica Akhavan. “Antes, nos preocupávamos se seria relevante tratar do assunto naquele momento. Aquilo, então, deixou de ser apenas retórico.”

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