Gincana cabo de guerra

Redação


O jornalista, escritor e publicitário, Alceo Rizzi, autor do livro Nego Mico e Zé Pavão, nos brinda com mais um crônica de sua obra que vem ganhando as páginas da mídia nacional e é destaque nas principais livrarias.

– A alemoa tá uma arara – sussurra Nego Mico, amedrontado com a expressão de fúria da vizinha de sítio de Zé Pavão que está posicionado mais atrás, apenas com a mão direita na corda, a outra segurando o cigarro recém aceso. Zé Pavão, franze a testa com a fumaça que invade os olhos antes de uma baforada, faz sinal com a cabeça como quem pede concentração e silêncio, para que Nego Mico se vire e continue a olhar para a frente e preste atenção na prova.

Estão todos preparados para o cabo-de-guerra, disputa da primeira gincana patrocinada pelo município no calendário de eventos de seu aniversário comemorado na semana, equipes inscritas em várias modalidades de obstáculos e desafios. Pouca gente conhece a senhora de rosto severo e expressão enfurecida que faz companhia a dupla de encrenqueiros sempre envolvida em alguma artimanha.

A aparência de dona Gertrude é ainda mais assustadora, cabeça repleta de bobies enrolando os cabelos grisalhos e descobertos. – Sérá qué ésse Sé Pafon tá te cracinha cómíco – pensa dona Gertrudes antes de voltar o rosto enfurecido em direção aos três rapazes que do outro lado seguram a outra ponta da corda.

Está intrigada, ao olhar para trás teve a sensação de ver o advogado lhe fazer rápido e abusado gracejo, fica na dúvida se foi para ela, só não tira satisfação ali mesmo porque não tem tanta certeza, está confusa.

O gracejo que dona Gertrudes suspeita receber, não é para ela. Zé Pavão apenas é apanhado em flagrante no momento em que faz beicinhos, mostra a língua, manda beijinhos em provocação aos três rapazes. Faz caretas, balança o pescoço de um lado para o outro, movimenta os olhos, simula estrabismo, encena expressões abobalhadas enquanto coloca o cigarro na boca e aperta os olhos com o incômodo da fumaça. Aperta com a mão esquerda o antebraço direito do braço dobrado, punho fechado com a corda presa, como quem chama para briga. Age como palhaço.

Nego Mico sente calafrios ao ver a expressão da vetusta senhora, não esquece daquele episódio na loja, quando enfiou aos mãos em seus seios para pegar o dinheiro escondido dentro do sutiã.

Cada vez que se recorda sente dor psicológica nos testículos e por instinto de defesa, em ato mecânico, já vai curvando o corpo e juntando os joelhos dobrados. Não consegue entender como foi aceitar essa brincadeira armada pelo advogado, justamente com a participação da arredia dona Gertrude, é um mistério o argumento que Zé Pavão utilizou para convencê-la.

“Puta que o pariu, como fui me meter nessa m…da” – pensa já arrependido por se deixar convencer por Zé Pavão, que a força bruta de dona Gertrude, tornaria fácil ganhar o prêmio principal da gincana, prometido então a Nego Mico.

Com a vizinha, o acerto era outro, justificara Zé Pavão, ela não tinha interesse no prêmio prometido pelos organizadores. “Como fui entrar nessa conversa mole?” – lamenta Nego Mico, tomado de desconfiança e calafrios. Por impulso, repentinamente ele solta a corda, volta-se para trás e pede para o advogado trocar de lugar, ou não participa da disputa da prova, está com medo de dona Gertrude ter alguma reação intempestiva e sobrar para ele. Zé Pavão percebe sua aflição e consente, passa então a sua frente e Nego Mico se posiciona atrás, por cautela toma distância ainda maior, fica segurando a extremidade da corda, atento e precavido. “Não sou besta” -, comemora.

Dona Gertrudes percebe o burburinho logo atrás, vira-se para dar uma olhada, momento em que o advogado retoma os trejeitos e gracinhas de provocação aos desafiantes, com a corda apenas em uma das mãos, a outra segurando a ponta do cigarro quase todo consumido. Neste momento faz gestual de quem manda beijocas com a boca para os rapazes, é apanhado por dona Gertrudes, mulher de pavio curto, que considera ter então a comprovação que o advogado está de gracinhas e deboches com ela enquanto está de costas para ele. Perde a concentração e neste instante ouve-se o disparo do juiz da prova, dando início à disputa do cabo de guerra.

Dona Gertrudes, com seus mais de 100 quilos parece ter se transformado em uma pena, é arrancada do seu lugar como se desse enorme salto para frente, arrastada de bruços e esfolada no chão da terra pedregosa, seguida de Zé Pavão, que também desatento, pela força do impulso do outro lado, é lançado sobre ela e cai estatelado em cima de dona Gertrudes.

A matrona se esquece da disputa, se desfaz como pode para tirar de suas costas o fardo do advogado que tenta se levantar, vira-se para ele e com as duas mãos espalmadas, pesadas e calejadas desfere violento tapa ouvidos, de ambos os lados, prensando a cabeça de Zé Pavão em um grande e abafado estalo.

– Cafacheste” – grita dona Gertrudes enquanto olha para o advogado desacordado e estendido no chão ao lado, se levanta, ajusta o enorme vestido que quase lhe cobre os pés e volta-se para trás à procura de Nego Mico, paralisado com toda a cena. Tomado por espécie de catatonia, ele só se dá conta que dona Gertrudes se aproxima quando ouve o “Yahhh”, conhecido e implacável grito de guerra da matrona e percebe também que ela já está com o braço estendido para trás para ganhar impulso em direção ao seu rosto.

“Négo sem férgonha” – grita enfurecida a alemã, convencida da cumplicidade de Nego Mico ao que considera a falta de respeito do advogado em lhe fazer gracejos desonrosos diante do público. No momento em que está para receber o violento e ensurdecedor tapa ouvidos da matrona, Nego Mico, por lampejo, se agacha e dona Gertrudes, com a força e o impulso que emprega no braço, mão espalmada, gira sobre seu corpo e atinge o juiz da prova que está posicionado logo atrás, a seu lado, tinha intensão de intervir e serenar os ânimos. Ele vai a nocaute instantaneamente, arremessado quase dois metros para trás. Nego Mico aproveita a confusão e desaparece, desembesta em correria pelo caminho que lhe parece mais fácil, leva a mão esquerda ao ouvido como se sentisse a bordoada que conseguiu evitar de dona Gertrudes. Sente a dor psicológica que também se espalha pelos seus testículos, alterna movimentos das mãos da cabeça para baixo, sucessivamente. Pensa no advogado que deixou para trás, está compadecido pelo amigo, mas não ousa ir em seu socorro. Só toma coragem de reencontrar o advogado pouco tempo depois, fora de perigo, na enfermaria do hospital. Tem a impressão que o advogado, já acordado está um tanto vesgo e quando se dirige à enfermeira que o observa, em vez de falar ele grita, sua voz ecoa por todo o hospital. Tem a sensação que o amigo está fora de seu eixo, um tanto aparvalhado, ele reclama alto que não consegue ouvir sua voz.

Está com amnésia parcial, só lembra de momentos antes do forte impacto nos ouvidos, não sabe o que aconteceu, grita perguntando para o amigo quem foi que ganhou a disputa do cabo de guerra.Para tranquilizar o amigo, Nego Mico mente, fala que foram eles os vencedores, mas a tentativa de conversa não tem efeito, Zé Pavão não ouve nada. Nego Mico faz a segunda tentativa e diz aos berros que dona Gertrudes nem precisou fazer muito esforço para arrastar os três marmanjos pelo chão para ganharem a prova. O advogado esboça então leve sorriso nos lábios, diz para o amigo que ele não precisa falar assim tão baixinho sobre a vitória que tiveram. “Essa dona Gertrudes é uma verdadeira dama Neguinho” – grita em resposta o advogado.

O juiz, que casualmente também se encontra em um dos leitos da enfermaria, igualmente observado por uma assistente do hospital e acompanhado por familiar, com a audição de apenas um dos ouvidos, ainda está confuso, com memória fragmentada do que aconteceu. Sem lembrança da traumática pancada, ele suspeita, grogue, que sofreu acidente pelo disparo que teria saído pela culatra do revólver quando deu o sinal de início da prova. Vira então o olhar em direção aos amigos encrenqueiros e pergunta a eles quase gritando: – Quem foi o filho da puta que trocou a espoleta?

Alceo Rizzi *Jornalista e publicitário. (Crônica de um segundo volume de Nego Mico-Zé Pavão e Outros Aloprados, a primeira edição à venda nas lojas e site da Livrarias Curitiba. ttps://www.livrariascuritiba.com.br/nego-mico-ze-pavao-e-outros-aloprados-aut-paranaense-lv431107/p )

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