Homoafetividade é abordada na peça “ATERRA” no Fringe, nesta sexta (29)

Simone Giacometti


“Do primeiro encher dos pulmões até a última batida do coração somos bombardeados e baleados por negações e desistências.  E quase todas as que deixamos pelo caminho – como sementes inférteis – não foram uma decisão apenas nossa e sim porque alguém algum dia nos disse que deveríamos. Então eu te pergunto…o que você tem aterrado?”   É com esse texto que o público da peça “ATERRA” – autoproclamada uma poesia documental – se depara antes do espetáculo começar.  Na  instalação artística feita com o objetivo de provocar reflexão, há outro cartaz que convida a escrever em um papel todos os “aterramentos” mantidos ocultos na alma e a se livrar do peso, de forma lúdica, depositando o escrito em um monte de terra, ao lado da porta de entrada  do Auditório Antônio Carlos Kraide, no Portão Cultural.

“ATERRA” faz parte da mostra paralela Fringe, do Festival de Teatro de Curitiba 2019 e é uma parceria de criação entre Adelvane Neia e Renan Bonito. O ator atua solo no palco, com participações especiais de Gabriele Christine. O cenário remonta ao campo e a narrativa é feita a partir de um homem do campo que vive no início do século passado e aborda de forma sutil a questão da homoafetividade. A questão é abordada de modo delicado e tocante, fazendo com que o espectador repense o amor e as formas de amar, de coração aberto.

Renan conta que o texto é um retorno às próprias origens.   Recentemente ele voltou a morar em Jacarezinho,  no norte pioneiro,  casa da Companhia da Terra.   A história é contada a partir de uma pesquisa documental feita com vários moradores antigos do município. Ao longo da trama, há contextualização da realidade vivida há 100 anos.  “A gente partiu do teatro documentário e colheu depoimentos de pessoas da nossa terra. Nós conversamos com gente que viveu nessa primeira metade do século passado, com 80 e até mais de 90 anos, que puderam compartilhar suas histórias, suas imagens. Por isso eu acho que o espetáculo é tão simples e profundo”, explica ele.

O cenário figurino é de  César Almeida e remonta às paisagens bucólicas, com sons de pássaros, rios e criação de animais. Mas preserva a contemporaneidade do tema e os dilemas vividos pelo personagem extrapolam o  tempo.  A direção do espetáculo é de  Adelvane Neia, referência na palhaçaria no Brasil.

“O público tem respondido muito bem nos momentos em que há uma interatividade.  Como o espaço é menor, a gente poder ver no rosto das pessoas o sorriso, de estarem compartilhando a história. Foi nisso que pensamos desde o início, abrir o peito das pessoas pra que elas recebessem a história.  E aí  surgiu a ideia da instalação na entrada. É um momento de começar a entrar na energia do espetáculo e ficar mais receptivo, já que há uma dificuldade pra descolar da realidade, com tanta agitação e tecnologia disponíveis”.

A estreia no Festival de Teatro de Curitiba 2019 tem sido uma experiência incrível para todo o grupo.  “Mais do que o maior festival de teatro do Brasil, é um momento de união da classe. É uma troca, um ato de resistência”, avalia Renan.

“ATERRA” também está entre os espetáculos do Festival de Curitiba que contará com um intérprete de Libras. A intenção dessa atitude é ampliar o alcance da arte, fazendo com ela chegue ao maior número de pessoas possível.    Uma parceria com o interpréte Jonatas Medeiros,  da Fluindo Libras.

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Portão Cultural

A peça “ATERRA” é uma das dezenove que se revezam no palco do Auditório Antônio Carlos Kraide.  O espaço abriga uma maratona de espetáculos ao longo dos próximos dias de festival.

Thierry Piovesan trabalha com produção há 18 anos e está responsável por coordenar toda movimentação no Portão Cultural. Segundo ele,  o local oferece uma das melhores estruturas para as equipes.

“Toda equipe está afinada para cuidar de cada detalhe.  Luz, som, cenário, devem estar perfeitos para cada grupo que entra em cena.  Eu me surpreendi de forma bastante positiva com a infraestrutura”,  revela.

Thierry já participou do Fringe como ator e agora está na produção. “A gente faz porque gosta e é muito bom acompanhar a evolução desse evento que acontece simultâneo ao festival.  No início era um espaço destinado ao teatro amador, mas a gente percebe que isso já mudou e muitos talentos são revelados a partir daqui”, conta ele.

O Fringe traz números impressionantes.   Ao todo são 359 espetáculos, 1436 apresentações que reúnem 2154 artistas em 70 lugares diferentes.    São 18 mostras especiais e 21 espetáculos independentes, entre eles 7 atrações internacionais, com expectativa de público de 125.000 pessoas.

Serviço:

Espetáculo: “ATERRA”

Ficha Técnica:  CNX Produções – Direção: Adelvane Néia – Companhia: Juliane Rosa, Gabriele Christine, Mariana Montezel, Renan Bonito, Jonatas Rodrigues Medeiros, Junior Rocha, Cesar Almeida

Data: 29/03 (sexta-feira)

Horário: 15h

Local: Auditório Antônio Carlos Kraide, no Portão Cultural

Endereço:  Avenida Rep. Argentina, 3430- Água Verde

 

 

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