'Lightyear' retorna a 'Toy Story' com beijo gay e influência da ópera espacial

Na trama, Buzz e Alisha Hawthorne são patrulheiros espaciais que protegem a galáxia de qualquer ameaça; autoridades dos Emirados Árabes Unidos baniram o filme dos cinemas locais por causa do beijo.

Leonardo Sanchez - Folhapress - 18 de junho de 2022, 09:18

Foto: Reprodução/Pixar
Foto: Reprodução/Pixar

"Em 1995, Andy ganhou um boneco do Buzz Lightyear, personagem de seu filme favorito. Este é o filme." É assim, deixando bem claro a que veio, que começa "Lightyear", nova animação da Pixar que estreou nesta semana.

Os fãs mais apaixonados devem se lembrar de ter visto algo sobre as origens do patrulheiro espacial no comecinho de "Toy Story 2", num videogame, ou na série "Buzz Lightyear do Comando Estelar" -mas o novo longa rejeita totalmente essas aparições especiais.

Isso porque a ideia do diretor Angus MacLane, que criou ele próprio a jogatina do segundo capítulo da saga, era se afastar do estilo engraçadão e cafona dessas passagens, investindo numa aventura espacial épica, nos moldes de "Star Trek", "Star Wars", "Aliens, o Resgate" e "Battlestar Galactica" -uma ópera espacial, para os versados no assunto.

"A verdadeira história do Buzz não havia sido explorada da maneira que poderia ter sido. Esse foi nosso ponto de partida. Queríamos destacar o patrulheiro, não o brinquedo", diz MacLane, que faz parte de uma leva de animadores da Pixar que vêm sendo promovidos à cadeira de direção, como aconteceu nos recentes "Red: Crescer É uma Fera" e "Luca".

"Eu queria ficar o mais distante possível da série e daquela introdução em 'Toy Story 2', são coisas que existem em universos totalmente diferentes. Eu não estava interessado no tom delas."

De fato, "Lightyear" vai numa direção bem distante daquela seguida pelos quatro filmes e vários curtas em que Buzz divide o protagonismo com o caubói Woody. No novo longa, ele tem forma mais humana e até trocou de voz -Tim Allen deu espaço a Chris Evans, na versão original.

Os fãs mais puristas, no entanto, não precisam se preocupar, pois o traje verde e branco continua lá, bem como a fixação do personagem em relatar tudo o que acontece ao gravador de seu bracelete e o ar de estrela convencida.

Na trama, Buzz e Alisha Hawthorne são patrulheiros espaciais que protegem a galáxia de qualquer ameaça. Durante uma missão, sua nave colide e faz um pouso forçado num planeta hostil. Sem equipamentos para alçar voo, eles e a tripulação de milhares de humanos e robôs fixam residência ali.

Frustrado com sua falha, Buzz decide embarcar numa série de testes com equipamentos feitos às pressas, mas que podem ajudá-los a voar novamente na velocidade da luz. O problema é que o tempo passa mais lentamente para a cobaia, nessas várias missões improvisadas, e o protagonista vê todos aqueles que conhece envelhecerem enquanto ele permanece jovem.

O que é inusitado em "Lightyear", no entanto, é o fato de a expectativa para conhecermos mais sobre um dos personagens mais icônicos do cinema de animação ter sido ofuscada por uma polêmica às vésperas de seu lançamento. Em meio a protestos de funcionários da Disney contra a maneira como a empresa estava lidando com uma lei homofóbica da Flórida, vazou a informação de que um beijo gay havia sido cortado do longa.

Atacada de todos os lados, a Disney rapidamente restaurou a cena e, agora, ela é a cereja no bolo de uma das sequências mais simpáticas de "Lightyear". Hawthorne, a amiga de Buzz, é lésbica e, à medida que envelhece em cena, cria uma família com uma cientista, tem um filho e troca um beijo amoroso com a mulher - o primeiro de um longa do estúdio.

"Ficções científicas sempre foram um veículo para a representatividade. Mesmo quando voltamos aos anos 1960, com 'Star Trek', que era muito mais diverso do que qualquer outra série da época", diz a produtora Galyn Susman. "Nós queríamos mostrar o mundo do jeito que ele é, e isso é essencial para que as pessoas se conectem com a história e esses personagens."

A fala ignora um tanto os bastidores do filme, e vai na contramão do que acreditam autoridades dos Emirados Árabes Unidos, que baniram "Lightyear" dos cinemas locais por causa do beijo no começo da semana.

Questionada sobre as pressões para que questões LGBTQIA+ sejam cortadas de filmes como a nova animação, Susman desconversa. "Neste momento da história, há muito apoio à diversidade e inclusão, então é ótimo poder aproveitar essa oportunidade. Estamos felizes em estar fazendo este filme desta forma e neste momento."