Livro examina ascensão de Bolsonaro e aponta riscos para a democracia

Em "Linguagem da Destruição", intelectuais buscam entender a formação do bolsonarismo e os riscos que a democracia brasileira enfrenta.

Ricardo Balthazar - Folhapress - 10 de abril de 2022, 17:15

Foto: Divulgação/Companhia das Letras
Foto: Divulgação/Companhia das Letras

Quando a historiadora Heloisa Murgel Starling, o cientista político Miguel Lago e o filósofo Newton Bignotto decidiram unir esforços para escrever um livro sobre o bolsonarismo, o que mais os intrigava era a resiliência do apoio que o presidente Jair Bolsonaro recebe de parte da população.

Para os três intelectuais, era difícil entender o êxito alcançado pelo presidente na campanha de 2018 e o fato de que seu governo ainda contava com a aprovação de 1 em cada 4 brasileiros após dois anos de pandemia, a despeito dos erros no enfrentamento da Covid e de mais de 600 mil mortes.

As reflexões que eles fizeram nos meses de isolamento chegam às livrarias nesta segunda (11), num momento em que se acumulam evidências de que Bolsonaro não só conservou o apoio de grande parcela do eleitorado, mas começou a recuperar parte dos seguidores que tinham se desgarrado na pandemia.

"Linguagem da Destruição" é composto por três longos ensaios que buscam entender a formação do bolsonarismo e os riscos que a democracia brasileira enfrenta. Os capítulos são individuais, mas os textos também refletem discussões que os três autores tiveram durante a quarentena, remotamente.

O primeiro, escrito por Lago, examina fatores que ajudaram Bolsonaro a surfar a onda de descrédito nos partidos políticos tradicionais, em especial a bem sucedida estratégia de comunicação desenvolvida nas redes sociais para mobilizar seguidores, espalhar desinformação e combater adversários.

Starling aponta o reacionarismo como um traço essencial do bolsonarismo. A pesquisadora analisa suas origens históricas para tentar explicar os vínculos estabelecidos pelo presidente com a ditadura militar (1964-1985) e a proeminência que a exaltação dos governos autoritários ganhou em seus discursos.

Bignotto revisita a história da ascensão do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália em busca de elementos para entender Bolsonaro. O professor rejeita comparações simplistas com os movimentos do início do século 20, mas encontra neles várias características comuns à nova direita brasileira.

Escritos a quente, os ensaios não oferecem respostas definitivas, mas reúnem material farto para pensar. "O bolsonarismo é um fenômeno que transcende o presidente e seus assessores mais imediatos, com raízes mais profundas que precisam ser investigadas", afirma Bignotto.

Na visão do trio, o objetivo de Bolsonaro é simplesmente destruir as instituições criadas no processo de redemocratização do país, a partir da segunda metade dos anos 1980, e minar as garantias estabelecidas pela Constituição de 1988 para proteger direitos fundamentais e os pilares da democracia.

Para Starling, a força do bolsonarismo e a popularidade do presidente sugerem um rompimento de laços de solidariedade social construídos após o fim da ditadura.

"Precisamos entender como a nossa comunidade se sustentará se alguns setores não tiverem mais compromisso com isso", diz ela.

Lago vê Bolsonaro como um personagem único na história do país. "Não há nada comparável ao que a nossa direita produziu antes", afirma.

"Quando enaltece a ditadura, ele não se refere a políticas públicas que gostaria de resgatar, mas à tortura de opositores, ou seja, às práticas mais terríveis do regime".

Starling caracteriza o projeto de Bolsonaro como uma "utopia regressiva", dada a ausência de propostas para o futuro do país. "Quando se volta para o passado autoritário, ele não está em busca de soluções para os nossos problemas, mas de identificação com os grupos mais radicais que apoiaram o regime", diz.

Os autores do livro não fazem previsões, mas temem pelas consequências do processo de corrosão das instituições no longo prazo.

"Há um risco de desmanche completo da nossa esfera pública, da arena política, se essa destruição continuar no ritmo acelerado dos últimos três anos", afirma Bignotto.