‘Marighella’ traz retrato menos branco da luta contra a ditadura militar

Lúcia Monteiro - Folhapress


Depois de dois anos de impedimentos –quer dizer, censura–, a estreia de “Marighella” é um acontecimento histórico e político. O tão aguardado encontro do filme com o público, nas salas de cinema, precisa evidentemente ser festejado.

E não só por jogar luz sobre Carlos Marighella, morto em 1969, personagem da maior envergadura que ainda aguardava o devido reconhecimento. Digna de celebração é também a escolha do cantor Seu Jorge para o papel do guerrilheiro e escritor nascido em Salvador, considerado pelos militares o inimigo número um do Brasil.

Seu Jorge imprime carisma, humor, inteligência e força ao personagem a cada aparição na tela. O principal feito do filme é provavelmente o de pôr em primeiro plano a negritude do político, num gesto explícito de propor um retrato não hegemônico da militância contra a ditadura.

Diferentemente de outras narrativas audiovisuais que recriam o período, em geral protagonizadas por estudantes brancos de classe média ou alta, “Marighella” traz à tona a diversidade dos militantes da Ação Libertadora Nacional, movimento integrado por mulheres e homens, jovens e não tão jovens, estudantes e operários, brancos e pretos, sudestinos e nordestinos, solteiros e pais de família.

Não vem ao caso questionar se Marighella era de fato “tão negro quanto” Seu Jorge. Baseado na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães, o longa é fruto de decisões tomadas durante a realização, quase meio século após a morte do personagem real e se assume como obra no presente.

Como já dizia o historiador francês Marc Ferro, todo filme documenta em primeiro lugar seu próprio tempo, e por isso a fidelidade a uma suposta “realidade dos fatos” está longe de ser o melhor critério para avaliar uma obra.

Vale mais observar decisões de mise-en-scène tomadas no presente. “Marighella” escolhe o registro do filme de ação, numa filiação explícita à “Tropa de Elite”, de 2007, grande sucesso de bilheteria protagonizado por Wagner Moura.

Numerosas, frontais e relativamente longas, tanto as cenas de tortura e execução quanto as ações dos militantes são problemáticas. Cabe questionar a espetacularização da violência e seu uso como arma para seduzir plateias. Mas o debate é maior.

Na duração, as sequências dedicadas às sessões de tortura parecem domesticar o inimaginável, quase como se reiterassem a lógica de Estado que presidia as ações dos carrascos, determinando também o papel das vítimas. A frontalidade da morte beira o pornográfico –ou o abjeto, para usar um termo do crítico e cineasta Jacques Rivette.

Felizmente, na maior parte do tempo, a presença de Seu Jorge na tela escapa do jogo violento. O filme faz de Marighella um herói humano, ousado, sagaz e divertido.

As cenas iniciais com o filho na praia comovem pela beleza não sincrônica entre imagem e som, e é difícil conter o riso quando o guerrilheiro surge de peruca num elevador, disfarce que Marighella de fato usava, e diz algo como “as mulheres não resistem a tamanho charme”.

Melhor ainda seria se o filme tivesse conseguido trazer mais de seu pensamento estratégico e seu talento como poeta. Faltou também um retrato menos apressado da participação dos frades dominicanos na política, embrião da Teologia da Libertação. Tais ressalvas não reduzem o mérito de “Marighella”, filme necessário.

Sua estreia, no mês da Consciência Negra -mais precisamente neste 4 de novembro, dia em que Marighella morreu numa emboscada em 1969-, contribui para preencher lacunas de uma história com enormes repercussões no presente.

MARIGHELLA

Quando: Estreia na quinta (4)
Onde: Nos cinemas
Classificação: 16 anos
Elenco: Seu Jorge, Humberto Carrão e Adriana Esteves
Produção: Brasil, 2019
Direção: Wagner Moura
Avaliação: Bom

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