‘A Melhor Escolha’ traz Bryan Cranston como veterano de guerra

Thales de Menezes - Folhapress

É em Sal Nealon que o roteiro deposita algumas cenas de humor, que surgem em meio ao drama. Cranston acha que tentar trabalhos bem diferentes do tipo que viveu em "Breaking Bad" é um desejo natural e compreensível.

O ator americano Bryan Cranston, 62, tem se dedicado a uma missão ingrata: fazer o público não associá-lo a Walter White, o papel de anti-herói que interpretou em “Breaking Bad” de 2008 a 2013. Mas ninguém é protagonista de uma das séries mais cultuadas da história TV e se afasta facilmente do personagem. Na teoria, “A Melhor Escolha” (“Last Flag Flying”) poderia ajudá-lo. Não faltaram expectativas para um novo longa de Richard Linklater, indicado em 2015 ao Oscar de melhor filme, roteiro e direção com “Boyhood”.

No entanto, o filme que estreia nesta quinta (22) no Brasil não teve nos Estados Unidos uma grande repercussão. A culpa não é de Cranston nem de seus colegas de elenco, os também consagrados Laurence Fishburne e Steve Carell. Não vale procurar um culpado, aliás. “A Melhor Escolha” não é um projeto fácil, e o ator reconhece isso à reportagem. “É um filme triste, mas uma história muito bonita. Não sei se seria viável realizá-lo sem Richard Linklater, que é um contador de histórias nato, não é alguém que se apega a técnicas habituais de se amarrar um roteiro, que não serviriam muito para três personagens como esses.”

O ator se refere a três veteranos da Guerra do Vietnã que voltam a se reunir em 2003. Larry Doc Shepherd (Carell) procura por Sal Nealon (Cranston) e Richard Mueller (Fishburne) para pedir que eles o acompanhem na viagem de busca do corpo de seu filho, soldado morto no Iraque. O personagem de Cranston é um dono de bar que passou por estresse pós-traumático. “A maneira que ele escolhe para lidar com isso é uma espécie de automedicação. Fuma, bebe, usa drogas e não toma exatamente as melhores decisões. Mas é o primeiro a querer ajudar o amigo.”

Para Cranston, há uma lição que o filme pode ensinar. “Quando você aceita uma pessoa em sua vida, tem de aceitá-la em sua integridade, não apenas pelas características dela que o agradem.”
Cranston era pré-adolescente nas convocações para o Vietnã. Para o papel, teve contato com muitos veteranos. “A Guerra do Vietnã foi a primeira em que nossos homens foram lutar num país que ninguém conhecia e por uma causa que não tinha repercussão entre os americanos. E por lá 58 mil soldados americanos morreram sem um motivo justificável.”

Ele afirma que o filme tem uma clara mensagem pacifista. “É interessante ser um filme contra as guerras e não mostrá-las, não há uma cena de batalha na tela. Acho que filmes de guerra precisam ter cuidado para não glorificar a coisa toda. A última decisão que qualquer país deve tomar é declarar guerra a outro.”

Contra Trump

Crítico contumaz do presidente americano Donald Trump, Cranston aproveita para mais um disparo. “Penso que o atual presidente americano deveria compreender que diplomacia e negociação não são métodos menos valorosos. O filme poderia ensinar algo a Trump, mas ele não tem capacidade para aprender qualquer coisa.”

A química do trio de atores rendeu elogios unânimes na crítica americana. O papel dele talvez seja o mais difícil, porque é em Sal Nealon que o roteiro deposita algumas cenas de humor, que surgem em meio ao drama. Cranston acha que tentar trabalhos bem diferentes do tipo que viveu em “Breaking Bad” é um desejo natural e compreensível. “Se eu já fiz alguma coisa, não quero ficar me repetindo”, diz. “Fui para a Broadway, depois interpretei no cinema um personagem real, o roteirista Dalton Trumbo”, lembra, referindo-se a “Trumbo”, que lhe deu uma indicação ao Oscar em 2016.

Ele diz que, apesar de o novo filme ser “muito triste” há “esperança” nele. “É uma história com momentos engraçados. Esse papel foi desafiador em muitos níveis.” O roteiro de “A Melhor Escolha” tem ligações com o filme “A Última Missão” (1973), de Hal Ashby, um dos primeiros grande trabalhos de Jack Nicholson.

Ambos são baseados em personagens do escritor Darryl Ponicsan. Apesar de nomes modificados, o soldado interpretado por Cranston seria o mesmo vivido por Nicholson naquele filme.
Ele não quis rever “A Última Missão”. “Não sou louco. Jack Nicholson é um ícone, você não pode querer fazer nada parecido com ele. Seria muita estupidez da minha parte.”

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