Nego Mico e Zé Pavão, obra de Alceo Rizzi, um humor que oxigena nossa alma 

Pedro Ribeiro


 

A sensação é de que você está vivenciando a cada fato narrado. É como se  estivesse dentro das estórias, como um dos personagens ou figurante, ou então no outro lado da rua, sentado em um desses bancos  instalados nas calçadas e ofertados por  comerciantes locais, assistindo a tudo e morrendo de rir dos protagonistas principais. Assim me senti ao ler o livro Nego Mico e Zé Pavão e outros Aloprados, do jornalista, escritor e publicitário, Alceo Rizzi.

Suas crônicas, recheadas de um vocabulário que mescla a fala do caboclo com o arrastado dialeto dos imigrantes italianos em um diálogo de boteco, de rodinha de esquina, de fofocas de porta de igreja, cochichos em velórios, nos remetem aos anos 70 nas pequenas cidades do interior.  Suas crônicas, bem humoradas e bem escritas, nos lembram do folclore que infelizmente está se acabando ou se acabou nos tempos das colonizações por imigrantes italianos, gaúchos, catarinenses, mineiros e paulistas, que povoaram pequenas cidades na região Oeste e Noroeste do Estado.

Em cada uma dessas cidades podemos dizer que havia um Nego Mico, o cidadão carismático, que dominava as rodinhas de conversa e um Zé Pavão, aquele espertalhão que sempre coloca alguém em uma cilada para o deleite da rapaziada. Essas duas figuras, personagens principais do livro de Rizzi, são incorporadas em crônicas de ficção, estórias, lendas e contos que dominam nossas mentes e corações, nos fazendo reviver momentos históricos na vida interiorana.

As lambanças, as ciladas, as frias, as merdas, as pegadas e outras sacanagens que Nego Mico e Zé Pavão protagonizam nas crônicas do livro são um retrato dos momentos vividos nas pequenas cidades e vilarejos.  O roubo de um porco, uma galinha ou uma ovelha para um churrasco com amigos e um convite especial ao dono do animal, fazia parte dos desafios da “turma da pesada”.  É claro que sempre sobrava para um Nego Mico, ou Tonho da Lua, Zé Canabrava, Mosquito, Lesmam, Jaboti…

Não sei se o autor do livro, que conheço desde a década de 70, quando trabalhamos como repórteres, eu na Gazeta do Povo e ele no jornal O Globo e depois na Gazeta Mercantil, se baseou em fatos e estórias ocorridas na sua Pato Branco. O que sei e percebi  nas dezenas de crônicas é que elas se passaram por todo o nosso  Estado, inclusive na minha Alto Paraná,  e ainda hoje vejo acontecimentos semelhantes em cidades como Morretes e Antonina, onde todos se conhecem por apelidos e contemplam seus Negos Micos e Zé Pavões.

Alceo Rizzi não pautou suas estórias apenas no interior do Estado, mas também no cenário curitibano do tempo em que se fazia frio e as pessoas frequentavam o cinema, em especial o Cine Avenida, na Boca Maldita, coração político da capital. Mas o foco está no interior e é de lá que vem as saborosas crônicas do autor que já prepara uma nova edição.

Um livro, uma maravilhosa obra de humor desplugada e realista.

 

Nego Mico – Zé Pavão e outros Aloprados pode ser encontrado nas livrarias Curitiba.

 

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