Peça censurada pela ditadura ganha perspectiva negra no Festival de Curitiba

Fernando Garcel

Autor de peças teatrais durante o período militar, Plínio Marcos escreveu “Navalha na Carne” nos anos 60. O espetáculo foi levado pela primeira aos palcos em 1967, mas foi censurado e somente voltou a cena 13 anos depois

A perspectiva do olhar negro sobre o teatro marginal de Plínio Marcos ganha espaço no Festival de Teatro de Curitiba. “Navalha da Carne Negra” fará apresentações no Sesc da Esquina, nesta quarta e quinta-feira (3 e 4), às 21 horas. Ingressos estão disponíveis na internet e nas bilheterias oficiais do evento.

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Os atores Lucelia Sergio, Raphael Garcia e Rodrigo dos Santos interpretam Neusa Sueli, Vado e Veludo, uma prostituta, um cafetão e um camareiro gay, que, nas palavras do crítico teatral Décio de Almeida Prado, fazem parte de um “subproletariado” – “uma escória que não alcançara sequer os degraus mais ínfimos da hierarquia capitalista”.

A direção é de José Fernando Peixoto de Azevedo, que usa câmeras para criar um “dispositivo-estúdio” em que as imagens são captadas e transmitidas ao vivo.

“Presente o tempo todo em cena, a câmera, esse dispositivo de olhar e enquadramento, força a construção. O espectador vê o jogo em cena e compara com o corte que assiste na tela. Os monitores revelam a dimensão do corte, emoldurando o jogo e sua teatralidade”, explica o diretor, professor da Escola de Arte Dramática da USP, diretor e fundador do Teatro de Narradores (1997-2017) e colaborador do grupo Os Crespos, além de dramaturgo do espetáculo “Isto é um negro?”, que também se apresenta no Festival.

“Essa redução perversa da imagem do corpo preto produzida pela história da escravidão: a mercadoria-corpo que é a prostituta Neusa Sueli estancando a fome com seu sanduíche de mortadela; da sexualidade excessiva da ‘bicha’ Veludo à sexualização do corpo negro, esse corpo-objeto, ao qual não se concede o direito ao desejo; e, a partir daí, até a fantasmagoria viril chamada Vado, cuja expressão é a imitação de uma violência cuja gramática constitui uma gestualidade macaqueada da violência naturalizada na figura do macho nacional”, traduz Azevedo.

A atriz Lucelia Sergio é da Cia Os Crespos (SP), Raphael Garcia, do Coletivo Negro (SP) e Rodrigo dos Santos, da Cia. dos Comuns (RJ), grupos que têm extensa pesquisa teatral sobre o tema.

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