Produção de desenhos animados cresce no Brasil e atinge nível de conteúdo internacional

Folhapress

Por Márcia Soman

A produção de desenhos animados aumentou e melhorou no Brasil nos últimos anos, principalmente em decorrência da lei que estabeleceu cotas obrigatórias de programação brasileira nos canais de TV por assinatura. Apesar disso, o  espaço destinado aos infantis na televisão aberta diminuiu.

Para Kiko Mistrorigo, da produtora TV Pinguim, a cota de 3 horas e 30 minutos por semana na TV paga permitiu que a produção brasileira chegasse ao nível das produções internacionais. “Existe muito critério para se chegar no produto final que é exibido na Disney ou na Discovery.”

Ele cita um exemplo de sua própria produção, como “Peixonauta” (TV Brasil), sobre o agente secreto que possui um traje especial que o permite voar e respirar fora d’água, e também AmigãoZão, coprodução entre Brasil, Canadá e EUA baseada no curta metragem homônimo, de 2005. O desenho retrata três crianças, Yuri, Lili e Matt, e seus três “amigões”, um elefante, uma girafa e um canguru. Passa na TV Brasil e no Discovery Kids.


Este último está também na lista da consultora Beth Carmona, que inclui ainda obras focadas na cultura nacional. A série “Tainá e os Guardiões da Amazônia” traz a personagem indígena da trilogia de sucesso no cinema nos anos 2000 e passa na Nickelodeon. Já a animação Lendas Animadas, que foca histórias tradicionais do imaginário brasileiro, está disponível gratuitamente no canal da ComKids na Spcine Play, plataforma da Prefeitura de São Paulo.

Embora reconheça o crescimento da produção nacional, Carmona afirma que há potencial inexplorado por falta de investimento. Como, por exemplo, série documentais. “Lá fora, isso já se faz bastante. São programas que contam como as crianças vivem e brincam em suas regiões.”

Na contramão da maior produção nacional, o espaço destinado aos infantis na televisão aberta diminuiu. As principais emissoras de desenhos são os canais educativos públicos, Cultura e TV Brasil. Entre os canais privados, a Record dedica duas horas das manhãs de domingo ao Record Kids. Já a Globo, que extinguiu o TV Globinho em 2012, não tem programa dedicado exclusivamente a este público.

A exceção é o SBT, que mantém o Bom Dia & Cia, além das novelas “Carrossel”, “Cúmplices de Um Resgate” e “As Aventuras de Poliana”.

Procurada, a Globo afirmou em nota que “conta com uma programação que interessa também ao público infantil -e não apenas a ele”. A Record não respondeu até o fechamento desta edição.

O professor Elmo Francfort, da pós-graduação de estratégia de programação em TV da Universidade Anhembi Morumbi, atribui a minguada programação infantil às mudanças que tornaram mais rígidas as regras de publicidade voltada a este público, além da forte concorrência dos canais da TV paga. São fatores que tornaram o modelo dos programas infantis pouco lucrativos.

Francfort lamenta a falta de maior variedade de desenhos na TV aberta e diz que ela não é compensada pela oferta maior de conteúdo em outras plataformas. “Boa parte das crianças brasileiras tem uma TV em casa, mas não tem internet ou computador. Extinguir a programação infantil vai contra o conceito de democratização da mídia. É preciso pensar: quem é que vai manter a TV aberta no futuro?”

Quantidade e qualidade

Não é apenas ao que está passando na tela que os pais devem prestar atenção. O uso excessivo de mídias digitais já um problema que afeta as crianças também.

Uma pesquisa divulgada em 2016 pelo Ibope mostrou que mais da metade (54%) das crianças de 0 a 12 anos passam mais de 4 horas por dia em contato com aparelhos eletrônicos. Isso é o dobro do tempo máximo recomendado para crianças acima dos 5 anos e o quádruplo da recomendação para as crianças de 2 a 5 anos, segundo a Academia Americana de Pediatria, considerada referência em todo o mundo. O estudo foi feito com mil crianças da região da Grande São Paulo.

Passar tempo demais nas mídias digitais, seja na TV ou no YouTube, pode afetar a qualidade de sono, o desenvolvimento e a saúde física e mental das crianças, segundo a academia americana.

A psicanalista Ana Olmos defende rigidez dos pais na hora de controlar o tempo de exposição dos pequenos às telas: nada de ceder ao “só mais um pouquinho” ou ao “deixa só acabar o desenho”.

Durante as férias, a tarefa pode ficar mais fácil, já que os pais podem oferecer um passeio ao ar livre ou outra atividade em família em troca da tela. Quando as aulas voltarem, a psicanalista sugere não deixar o período de acesso às mídias digitais para antes da lição de casa. “Fica mais difícil interromper o período de TV da criança com um pedido para que vá fazer uma tarefa.”

O uso dos aparelhos deve ser evitado também nas horas de refeições, durante brincadeiras em família e no quarto da criança. Para isso, é importante que os adultos sejam o exemplo e evitem também a utilização constante dos celulares ou equivalentes em casa.

A TV deve ser desligada também ao menos uma hora antes de dormir, para que a criança consiga se acalmar dos estímulos proporcionados pelos desenhos e “desligar o cérebro” para ir para a cama, aconselha Olmos.

Vale lembrar que essas regras são para as crianças a partir dos 2 anos. Antes disso, a recomendação da associação americana é que não haja contato algum com qualquer tipo de tela. Nesse estágio, chamado de sensório motor, é crucial ao desenvolvimento da criança que ela seja estimulada a se movimentar e explorar o ambiente com todos os seus sentidos. “Quanto maior o contato com mídias digitais, mais difícil fica para a criança passar um tempo com outras crianças”, alerta Olmos.

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