Tony Awards, o Oscar do teatro, é entregue neste domingo em Nova York

Folhapress

Silas Martí

Ela está louca para ver o mundo todo pegar fogo. E só veste cor-de-rosa às quartas. Uma das meninas malvadas do colegial roubou a cena na Broadway neste ano, a vilã que destronou a mocinha na tradução do cinema para os palcos do teatro americano.

Os agudos estridentes de Taylor Louderman às vezes agridem os ouvidos, mas sua Regina George, a patricinha do mal de “Mean Girls”, versão teatral do filme escrito por Tina Fey 15 anos atrás e um dos musicais mais celebrados da temporada nos Estados Unidos, arrebatou a crítica.

Liderando as indicações ao Tony, o Oscar do teatro concentrado na Times Square nova-iorquina, estão o musical inspirado no filme “Meninas Malvadas” e outra adaptação das telas ao palco, o desenho animado “Bob Esponja Calça Quadrada”, transfigurado ali no carnavalesco musical “SpongeBob SquarePants”.


Essas duas produções, também grandes sucessos de bilheteria, estão indicadas em 12 categorias, entre elas melhor musical, melhor libreto, melhor ator e melhor atriz -estes últimos são Ethan Slater, o Bob Esponja, e Louderman.

O remake de “Angels in America”, sobre a epidemia da Aids nos Estados Unidos de Ronald Reagan nos anos 1980, lidera a lista de revivals -que têm uma categoria própria-, batendo um recorde da história do prêmio, com 11 menções.

Muito do enorme hype em torno dessa peça, aliás, é obra de seus atores principais, dois favoritos a troféus na cerimônia desta noite em Nova York. No épico de Tony Kushner, Andrew Garfield é o frágil Prior Walter, que tenta driblar a morte ao se descobrir soropositivo, e Nathan Lane interpreta o advogado ultraconservador Roy Cohn, que sofre com a mesma doença embora negue sua homossexualidade na era da chamada peste gay.

O dramalhão de sete horas divididas em duas partes exige força de vontade e muitas centenas de dólares dos espectadores que lotam as sessões. Mas a maratona teatral não decepciona. Lane, o eterno Albert Goldman da versão americana de “A Gaiola das Loucas”, impressiona na pele de um machão virado do avesso, que alterna força explosiva e extrema fragilidade.

E Garfield, mais famoso por sua encarnação do Homem-Aranha em dois filmes da franquia, nunca pareceu tão vulnerável em cena. Esquálido e balbuciante, ele tenta manter as aparências enquanto definha. Sua performance marcada por trejeitos afeminados fica às vezes no limite do caricato, mas desperta grande empatia.

Na mesma peça, Denise Gough se afirma como favorita ao prêmio de coadjuvante, pelo papel de Harper Pitt, uma viciada em antidepressivos que compartilha as alucinações de Prior Walter. A direção de Marianne Elliott, que também disputa um Tony, brilha, brilha ao construir paralelos entre os dramas de cada personagem pela sobreposição de cenas -o quarto de um hospital, por exemplo, é ao mesmo tempo o quarto de um casal em crise.

E as visões de um personagem, como a Antártica sonhada por Harper, contaminam as dos outros, em especial as visitas do anjo-profeta que tanto assombra Prior Walter. O anjo, aliás, é um espetáculo à parte. Um time de atores movimenta as enormes asas mecânicas da aparição vivida por Beth Malone, que se torna assombrosa em cena. Eles também dão corpo à sua sombra, como se o anjo arrastasse aonde fosse uma nuvem negra com vontade própria.

Num universo marcado pela pirotecnia, esse anjo analógico, calcado só na coreografia precisa dos atores, é um alívio -e uma alegoria que torna mais atuais os assuntos dessa peça da década de 1990. Esse não é o anjo branco e puro das montagens anteriores. Suas asas perderam boa parte das penas, e sua saia é uma bandeira americana puída, aproximando a América de Reagan do país de Trump.

O homem no comando da Casa Branca, aliás, ressurge até em “Mean Girls”, quando a personagem de Taylor Louderman conta que foi bloqueada por ele no Twitter -o presidente costuma silenciar seus detratores na rede social. Em plena era de #MeToo, o musical sobre arroubos de crueldade adolescente ganhou alguns momentos de militância e ativismo, com um final mais moralista e alertas das garotas, entre eles a recomendação de nunca mandar nudes para algum menino.

Mas grande parte da experiência desse “Mean Girls”, que costuma ter sessões abarrotadas de meninas eufóricas vestindo cor-de-rosa, é uma tradução bem literal do filme, só trocando os diálogos originais por momentos de cantoria. E funciona. As músicas não são ruins, e o universo escolar se adapta bem aos palcos, com coreografias envolvendo lousas, carteiras, mesas e até bandejas do refeitório. Também impressiona o cenário do quarto de Regina George, a patricinha-mor, quase uma casa da Barbie em escala humana.

Do trio das peças mais indicadas ao Tony, “SpongeBob SquarePants” tem menos interesse dramático, mas compensa com a construção de cenários e figurinos lisérgicos, que abusam de neons, pompons e perucas fluorescentes. Os cabelos rosa-choque ou esverdeados dos personagens e números coreográficos rodopiantes completam essa fantasia hiperbólica, talvez a melhor tradução de um desenho animado nonsense para um palco de teatro de verdade.

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