Três anos após Mariana, rompimento de barragem deixa 200 desaparecidos em Brumadinho

Folhapress


Três anos após o maior desastre mundial da história da mineração, em Mariana (MG), o Brasil registrou um novo desastre. Uma barragem se rompeu e pelo menos outra transbordou na sequência, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Cerca de 200 pessoas estão desaparecidas, de acordo com informações do Corpo de Bombeiros.

As instalações pertencem à Vale. Segundo o presidente da empresa, Fabio Schvartsman, o dano ambiental será muito menor que o de Mariana, mas a tragédia humana deverá ser maior.

Os rejeitos de minério de ferro atingiram uma área administrativa da empresa, onde havia cerca de 300 funcionários e colaboradores por volta das 13h, e também uma zona residencial e uma pousada.

Segundo o governo de Minas Gerais, sob gestão Romeu Zema (Novo), sete corpos foram encontrados até as 20h.

Nove pessoas foram retiradas com vida da lama e cerca de 100 ilhadas foram resgatadas. De acordo com dados transmitidos pelo representante da Vale ao governador mineiro, havia 427 pessoas no local, das quais 279 foram encontradas vivas.

O rompimento da barragem liberou 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos, que entraram no rio Paraopeba. A estimativa é a de que esse volume represente um quarto do que foi liberado no acidente com a barragem de Fundão, em Mariana, que pertencia à Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billiton.

Na ocasião, em novembro de 2015, 19 pessoas morreram, e milhares foram atingidas pelos estragos do rastro de lama, que contaminou o rio Doce e chegou até o litoral do Espírito Santo, matando animais e prejudicando o abastecimento de água.

Ao longo da tarde desta sexta-feira, familiares de desaparecidos em Brumadinho tentavam buscar informações sobre seus parentes. Marcelo da Silva, 48, foi a um centro de saúde de Belo Horizonte, a cerca de 35 km, em busca do irmão.

“Desde que recebi a notícia que a barragem tinha estourado comecei a ligar para ele, mas o telefone só dá fora de área. Tem gente falando que podem existir vítimas com vida, isoladas numa área da empresa”, afirmou.

Na pousada Nova Estância Inn, ao menos nove pessoas ficaram desaparecidas, entre os proprietários e funcionários, segundo familiares ouvidos pela reportagem.

O estabelecimento era utilizado por turistas que iam à região visitar o Instituto Inhotim, em Brumadinho, que abriga um jardim botânico e um acervo de artes plásticas. O instituto foi evacuado por medida de segurança e ficará fechado pelo menos até domingo.

Moradores de cidades próximas também foram orientados a deixar suas casas. Em Betim, cidade com 433 mil habitantes, a prefeitura disponibilizou caminhões para auxiliar o transporte de residentes do bairro de Citrolândia.

O fornecimento de água para a região metropolitana de Belo Horizonte não deve ser atingido, segundo a Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais). Já a captação no Paraopeba foi interrompida, e cidades atendidas pelo sistema passaram a ser abastecidas por outras represas.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) deverá sobrevoar a região atingida neste sábado (26). Em entrevista, ele afirmou que a tragédia poderia ter sido evitada.

Ele evitou listar culpados, mas disse que caberia à Vale “se antecipar a problemas”.

“A administração da Vale do Rio Doce não tem nada a ver com o governo federal. Apenas cabe a nós a fiscalização por parte do Ibama, que é um órgão vinculado ao ministério do Meio Ambiente, e buscar meios para se antecipar a problemas, mas esses meios partem primeiramente da empresa que executa a obra.”

A barragem que rompeu nesta sexta não recebia rejeitos desde 2015 e seria descontinuada. Ela obteve em dezembro a licença para o reaproveitamento dos rejeitos dispostos e para seu encerramento de atividades, segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais

O laudo que autorizou o reaproveitamento dos rejeitos e o descomissionamento da barragem é de agosto de 2018.
A estabilidade da barragem tinha sido garantida por um auditor. É um sistema que ajuda prever riscos, mas não resolve, diz o geólogo Jehovah Nogueira Júnior. A barragem de Fundão, da Samarco, também tinha estabilidade garantida.

Como essas instalações de mineração são de grandes dimensões, o estudo de risco de ruptura é feito por análise amostral, explica o geólogo. “É comum se estudar algumas seções e ter uma que está crítica que não foi escolhida.” O método pode falhar em detectar infiltrações em seções não vistoriadas, segundo ele.

O professor de Engenharia de Minas da UFMG Evandro Moraes da Gama afirma que a supervisão das barragens aumentou após o desastre de Mariana, mas ainda é fraca. “Não foi suficiente porque aconteceu outro acidente, com a mesma empresa, a mesma natureza, o mesmo tipo de minério, o mesmo tipo de rejeito.”

Segundo relatório da ANA (Agência Nacional de Águas) divulgado no fim do ano passado, com dados de 2017, ao menos 45 barragens do Brasil estão vulneráveis e podem apresentar risco de rompimento. As de Brumadinho não constavam dessa lista.

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