Alheios à Tocha Olímpica, moradores de rua clamam por ajuda do poder público

Redação


Colaboração Leopoldo Scremin

A festa foi incrível, vários destaques da sociedade curitibana, tanto esportiva quanto intelectual, empunharam a Tocha Olímpica e desfilaram sob aplausos de milhares de espectadores na última quinta-feira (14). Mas os curitibanos que já não fazem mais parte da sociedade, aqueles que por diversas circunstâncias perderam a dignidade e moram na rua, o que pensam da passagem do símbolo olímpico pela cidade que eles também habitam?

“Todo mundo pensa que morador de rua é vagabundo, mas antes de perder meus documentos, eu poderia comprovar que trabalhei mais que muita gente que hoje desvia de mim por desprezo”, disse João da Costa, 68 anos, que hoje reside embaixo de uma marquise da Rua XV de Novembro.

Nunca Curitiba teve tantos moradores de rua, e as “habitações” não se resumem apenas ao Centro da cidade. Reginaldo, de 27 anos, mora há 10 anos embaixo de um viaduto da Linha Verde – na época segundo ele, nem se chamava Linha Verde – e segundo ele a realidade triste de puxar carrinho de papel o levou a bebida, e a bebida às drogas. Segundo ele, ontem a prefeitura os encaminhou para lugares fora do trajeto que a Tocha Olímpica faria, para “maquiar” o estado clamoroso que a cidade se encontra:

“Você imagina o quanto foi gasto para passar esta Tocha Olímpica hoje, em uma cidade que nem é a das Olimpíadas. Enquanto isso, nenhum prefeito ou governador faz nada por nós, a única ajuda que recebemos é de pessoas que nos trazem sopa a noite de vez em quando. Nos julgam, mas ninguém pensa nas noites que passamos aqui na rua quando faz -1°, -2°. O pacote de bolacha que comprei para jantar hoje também recolhe imposto. É pouco, mas também somos contribuintes”, desabafou Reginaldo, que cuida de carros na frente do Shopping Itália.

A realidade é tão triste que tem gente que trabalha em empresa multinacional, e mora na rua. O servente Edilson, de 39 anos, que pediu para não mencionar o nome da empresa que trabalha, não consegue lugar para morar, e mesmo com emprego – comprovado com cracháda empresa – está morando na rua há seis meses. Seu irmão Ramirez, que já foi meitre em churrascaria, culpa a crise e a corrupção pela sua falta de sorte, afinal, segundo ele, o restaurante em que ele trabalhava “quebrou” e nem a rescisão recebeu ainda.

Segundo Tiago, outro “habitante” das marquises da Rua XV, a Fundação de Ação Social – FAS – tem funcionários que os humilham ao invés de ajudar: “Na verdade cara, as únicas pessoas que nos tratam como seres humanos são os evangélicos ou o pessoal da Igreja (Católica), porque os funcionários públicos, só nos fazem sentir pior, devido à forma que nos tratam. Para eles nós somos um estorvo”.

Todos os entrevistados concordam num ponto; o país não tem condições de sediar os Jogos Olímpicos. Afinal, segundo eles, um país que não consegue cuidar de seu povo, não tem condições de receber pessoas de outro país.

As entrevistas foram captadas às 23h20min de quinta-feira, 14 de Julho, o dia em que Curitiba recebeu a Tocha Olímpica.

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