Anvisa diz que não sabia sobre suicídio antes de suspender testes da Coronavac

Vinicius Cordeiro

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O diretor-geral da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, admitiu que não tinha a informação que o “efeito adverso grave” em um voluntário da Coronavac se tratava de um suicídio antes da decisão da agência em suspender os testes clínicos da fase 3 da suposta vacina contra a covid-19.

“Não havia essa informação entre as que recebemos ontem, essa que o senhor acabou de citar [suicídio]. Informação não é informação se não vem pelo canal correto. Não estamos em brincadeira de criança, existem canais preestabelecidos. Os demais canais, por mais que tenham informações relevantes, não são do comitê independente”, afirmou Torres, que ainda reiterou que a decisão da Anvisa foi “técnica”.

“Diante de um efeito adverso grave não esperado, suspende o estudo. Diante de um efeito grave esperado, segue o estudo. Quem nos diz sobre isso é o comitê internacional independente. O leigo olha e pensa estar diante da mesma situação, mas são distintas por todos os fatos”, completou a diretora da agência, Alessandra Bastos.

A Anvisa ainda diz ter recebido dados incompletos sobre a morte para dar prosseguimento à pesquisa e que não é parceira de qualquer desenvolvedor de eventuais vacinas.

Em laudo obtido pela Rede Globo após informação da TV Cultura, o “efeito adverso grave” no voluntário de 33 anos foi um suicídio. Conforme o boletim de ocorrência da polícia obtido pela imprensa, o homem foi encontrado com 33 anos com uma seringa próxima ao braço. O exame toxicológico do IML (Instituto Médico Legal) ainda comprovará a suspeita.

O governo de São Paulo e o Instituto Butantan lamentaram a suspensão dos testes e o fato de terem sido avisados pela imprensa. Ou seja, a Anvisa não notificou o Butantan sobre a suspensão dos testes. O instituto nega que o “efeito adverso grave” não teria ligação com a vacina. A informação do suicídio teria sido omitida por respeito à família do voluntário.

Mais cedo, as autoridades paulistas demonstraram indignação pela suspensão dos estudos. Dimas Covas, diretor do Butantan, disse que a decisão foi desnecessária e ainda afeta os outros voluntários da pesquisa.

“É uma notícia que causa surpresa, insegurança e, no nosso caso, causa até indignação. Suspenderam estudo, causaram medo nas pessoas, fomentaram ambiente que já não é muito propício ao fato dessa vacina ser feita em associação com a China”, afirmou Covas em entrevista coletiva.

BOLSONARO CELEBRA SUSPENSÃO DA CORONAVAC 

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se manifestou nas redes sociais e comemorou a suspensão dos testes da Coronavac como uma “vitória” sobre o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Os dois protagonizam uma “guerra da vacina”. O principal ponto do embate é sobre a obrigatoriedade do remédio para o coronavírus na população.

Questionado sobre a comemoração do presidente, o diretor-geral da Anvisa afirmou que a agência não vai tecer qualquer comentário sobre política. “O que o cidadão não precisa é de Anvisa contaminada por guerra política. Ela existe, mas tem de ficar dos muros para fora. Não é razoável que pessoas da ciência passem a tecer comentários e análises. Não somos comentaristas políticos, não recebemos para isso”, finalizou.

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A Coronavac estava na fase 3 dos testes clínicos, a última para comprovar a eficácia da vacina contra a covid-19.

Nessa etapa, os voluntários são divididos em dois grupos: um recebe a vacina e outro placebo, uma substância sem qualquer efeito. Apenas um comitê internacional (que não faz parte da Anvisa) toma conhecimento sobre quais as pessoas pertencem a cada grupo. Todos os participantes são monitorados

Para os estudos da Coronavac serem retomados, é preciso que a Anvisa receba os “dados brutos”, que efetivamente comprovem a alegação do Butantan. Depois, isso terá que ser validado pelo comitê internacional.

“Nossa posição será alterada quando tivermos acesso a todos os dados-fonte. Além disso, é necessário avaliação do comitê independente sobre a morte. Só depois, de forma colegiada, é decidido se a pesquisa será retomada”, afirmou o gerente-geral de medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes.

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