Atleta trans de 11 anos é impedida de competir no sul-americano de patinação

 Maria Joaquina foi a segunda colocada no Campeonato Brasileiro de Patinação do ano passado. Entre as cinco ..

Cristina Seciuk - CBN Curitiba - 13 de abril de 2019, 15:19

 

Maria Joaquina foi a segunda colocada no Campeonato Brasileiro de Patinação do ano passado. Entre as cinco atletas com os melhores desempenhos, ela deveria ter sido chamada automaticamente para representar o país no Sul-americano 2019, mas a convocação não aconteceu.

A negativa da Confederação Sulamericana de Patinação teve ligação direta com o gênero da criança e não foi a primeira dificuldade no dia a dia dela e da família. O desabafo é do pai, Gustavo Uchôa. "Quando a gente vai se hospedar em um hotel, viajar de ônibus ou de avião, há sempre uma exposição muito grande dela porque conforme a pessoa que atende a gente, sempre a pessoa quer saber quem é aquele menino que está no Rg, é bem desgastante", conta ele.

Maria Joaquina é uma criança trans. Adotada junto com seus dois irmãos em 2016, aos oito anos de idade, ela já apresentava disforia de gênero, quando a pessoa não se identifica com o sexo de nascimento. "Quando a gente adotou eles em 2016, ela já estava há dois anos no lar com os outros dois irmãos.  E ela entrou lá com cabelo grande e na época eles disseram  para a gente que a Maria já tinha entrado no lar como uma menina. Na ocasião nós a gente não se deu conta do que eles queriam dizer, mas depois percebemos que ela já era uma menina desde muito pequena", explica o ele.

Conforme o pai, a família segue o protocolo médico para a idade, que se limita ao acolhimento. Maria Joaquina tem acompanhamento psicológico profissional e nunca tomou hormônios, interferência que só é considerada cabível a partir da puberdade.

A patinação faz parte da vida da menina desde que foi adotada por Gustavo e pelo companheiro Cleber. Em 2018, ela pôde participar dos torneiros paranaense e nacional na categoria feminina com classificação que garantiria a presença dela no campeonato continental, mas agora foi comunicada de que não poderá competir no Sul-americano, a ser realizado entre os dias 19 e 30 de abril em Santa Catarina.

Os pais da atleta foram à Justiça na tentativa de fazer com que a Confederação Sul-americana volte atrás. "Desde então a gente está batalhando pra que eles mudem esse pensamento. Porque por se tratar de uma criança, não há influência de hormônios, não tem ação da testosterona em relação à força, a convocação é mérito dela. Partindo que a negativa veio da Sulamericana, nós recorrermos diretamente lá", explicou.

Em nota, a Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação informou à CBN que não pode atentar contra as determinações e regras vigentes, definidas pelas entidades internacionais da modalidade. Em comunicado enviado para a federação nacional, a Confederación Sudamericana de Patinaje, informou que o seu comitê executivo, “com base em estatutos e regramentos vigentes, só permite que compitam em seus eventos, patinadores cujos documentos de identidade confirmem a que categoria pertences”, ou seja, masculino ou feminino. Ainda no texto, a entidade internacional afirma que o conceito não é passível de contestação.