Bruno Pereira, morto aos 41, deixou cargo para trabalhar direto com indígenas no AM

Indigenista assassinado deixa três filhos; ele tinha vasta experiência na terra indígena e foi dispensado da Funai durante o governo de Jair Bolsonaro.

Ana Luiza Albuquerque - Folhapress - Marcelo Toledo - Folhapress - 16 de junho de 2022, 08:16

Foto: Divulgação/Funai
Foto: Divulgação/Funai

O indigenista Bruno Pereira, 41, assassinado no Vale do Javari, acumulava anos de trabalho junto aos povos indígenas e era um alvo de ameaças em razão de sua atuação na região amazônica.

Ele, que deixa três filhos - duas crianças de 2 e 3 anos e uma adolescente de 16- estava desaparecido desde o último dia 5 junto com o jornalista britânico Dom Phillips, 57, e era apontado por amigos e colegas como uma pessoa que sempre quis propiciar condições para que os indígenas cuidassem das terras em que vivem da forma que quisessem.

Servidor de carreira da Funai (Fundação Nacional do Índio) desde 2010, Pereira pediu licença depois de ter sido exonerado da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém-Contatados, na qual esteve por 14 meses.

Ele tinha uma vasta experiência na terra indígena Vale do Javari e foi dispensado do cargo em outubro de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), sem motivos técnicos aparentes, de acordo com indigenistas.

A exoneração do cargo foi assinada pelo secretário-executivo do ministério então comandado pelo ex-juiz federal Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública).

Naquele ano, Pereira chefiou a maior expedição para contato com os isolados em 20 anos.

Seus colegas dizem que ele estava insatisfeito com as dificuldades que tinha para atuar na Funai, que sofria pressão de superiores e que, por isso, decidiu trabalhar diretamente com a ONG Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), onde estava desde então.

O coordenador executivo do Opi (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato), Fabio Ribeiro, disse, no período em que ele e Phillips estavam desaparecidos, que Pereira tinha uma capacidade muito forte de mobilizar os órgãos públicos para fazer operações e que era uma figura pública na região.

Numa carta aberta divulgada após a saída dele da função na Funai, um grupo de 14 indigenistas o qualificou como plenamente qualificado para as funções e afirmou que a saída dele do cargo era um retrocesso histórico da política pública para proteção dos povos indígenas isolados.

Antes de liderar a Coordenação de Índios Isolados, Pereira esteve à frente da Coordenação Regional do Vale do Javari, onde foi morto por conta de sua atuação.