Com Odebrecht, Colômbia volta a falar de corrupção

Mariana Ohde


Por Rafael Neves, Metro Curitiba

Desde que os Estados Unidos revelaram, no fim do ano passado, que a Odebrecht pagou US$ 439 milhões em propinas fora do Brasil, alguns dos onze países implicados ainda não descobriram o nome de um culpado sequer. Não é o caso da Colômbia: o país já radiografou boa parte do esquema local da empreiteira, que distribuiu US$ 11 milhões em propinas de 2009 a 2014, e novos detalhes são destaques diários na imprensa do país.

A atenção dada à delação da Odebrecht é parte de um movimento que, aliado ao recente acordo de paz do governo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), deve colocar a corrupção como tema central no país pela primeira vez em muito tempo. Segundo o cientista político Jairo Libreros, negociar com a guerrilha ou vencê-la militarmente era o único dilema que decidia eleições desde os anos 1990, mas a campanha de 2018 deverá ter uma mudança de foco.

“O ‘refletor’ das Farc não nos deixava ver o problema da corrupção em toda a sua extensão. Obras que não se cumprem, modificações nos contratos que aumentam os preços e uma série de pequenos escândalos voltaram a interessar a opinião pública nos últimos meses. Estávamos no meio dessa discussão quando chegou a delação da Odebrecht”, diz Libreros, que é professor da Universidade Externado, em Bogotá.

Vencedor do prêmio Nobel da Paz justamente pelo acordo com as Farc – que foi rejeitado pela maioria dos eleitores em um plebiscito -, o atual presidente Juan Manuel Santos também aparece no caso Odebrecht, embora em circunstâncias estranhas. Em janeiro, o Ministério Público do país anunciou que o ex-senador Otto Bula confessou, já preso, ter recebido US$ 4,6 milhões da Odebrecht e repassado US$ 1 milhão à campanha de Santos em 2014.Odebrecht na Colômbia

Dias depois, porém, o próprio Bula desmentiu a informação em uma carta escrita à mão ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE), dizendo que não fez pagamentos à campanha de Santos. O presidente nega. “Peço ao CNE uma investigação a fundo o mais rápido possível para que venha à luz toda a verdade no caso Odebrecht”, escreveu Santos no Twitter.

Estrada das propinas Todos os US$ 11 milhões que a Odebrecht diz ter pago em propinas na Colômbia derivam de uma única obra: um trecho de 528 km da ‘Ruta del Sol’, uma estrada que ligará, quando terminada, a capital Bogotá às praias caribenhas da costa norte do país. O consórcio Ruta del Sol, que a Odebrecht compõe com duas empresas locais e é sócia majoritária, teria pago US$ 6,5 milhões ao ex-vice-ministro dos Transportes Gabriel García para conquistar o contrato, em 2009, e mais US$ 4,6 milhões ao ex-senador Otto Bula para levar a chamada ‘via Ocaña-Gamarra’, uma rodovia de 82 km anexa à principal.

Pelo menos por enquanto, a Justiça e o governo colombianos têm jogado duro com a Odebrecht, que vai perder seus três contratos, além das estradas, a empreiteira toca a revitalização do Rio Magdalena, que corta a região central do país, e deve ser expulsa.

“A Odebrecht vai embora do país. Uma empresa que caiu em tais problemas de corrupção tem que sair da Colômbia”, disse na semana passada o atual ministro dos Transportes do país, Jorge Eduardo Rojas, ao jornal El Tiempo. Segundo o ministro, o governo vai assumir as obras, inclusive a concessão delas – cinco pedágios já funcionam em um trecho da Ruta del Sol – e fazer uma nova licitação o quanto antes, para não paralisar a construção.

Dois mil trabalhadores da Odebrecht na Colômbia, segundo ele, estão há dois meses sem salário, e a execução da obra está em 52%. Um dos três presos na ‘Lava Jato colombiana’ (além de García e Bula), o lobista Andrés Cardona, foi investigado em 2012 por sua relação com o “Carrossel de Contratação”, um esquema de fraude a licitações. Mas a Odebrecht, que atua no país desde 1992 e tem 12 obras concluídas, nunca tinha sido alvo de denúncias.

“Se investiga agora porque, se antes de explodir o caso no Brasil havia indícios de que as contratações com a Odebrecht eram irregulares, nada era muito relevante”, explica Natalia Martinez, repórter do Metro Jornal em Bogotá, que cobre o andamento do caso no país.

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Repórter no Paraná Portal
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