Como está e até onde pode ir a energia limpa no Brasil?

Andreza Rossini

Repórter Bruno Brugnolo do Metro Curitiba

Há pouco mais de dois anos, em dezembro de 2015, o Brasil foi um dos 195 signatários do “Acordo de Paris”, para manter o aumento da temperatura média global a bem menos que 2°C (próximo de 1,5ºC) até o fim do século. O valor é associado a um nível de mudança climática considerado como ‘minimamente seguro’ aliado a desenvolvimento econômico satisfatório para as nações.

No “Acordo de Paris”, o Brasil se propôs a reduzir suas emissões em 37% até 2025 em relação a 2005, com uma meta indicativa de 43% até 2030. Para que isto aconteça, é primordial zerar a emissão de gases do efeito estufa até a metade do século, ou seja, pôr fim à dependência dos combustíveis fósseis, ao passo em que fontes renováveis – e limpas – como a solar, eólica e biomassa, ganhem espaço.

Há alguns anos, as energias provenientes do sol e do vento vêm pouco a pouco ganhando espaço no Brasil e no mundo. Contudo, hoje é incerto que o país chegue a 2050 com 100% de participação de fontes renováveis em sua matriz energética.


metro

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima e também membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza Carlos Rittl, falta uma política de “alinhamento” ao país. “Existe uma imensa contradição. A gente não tem clareza. No ano passado, ao mesmo tempo que aprovou isenção fiscal no setor de petróleo até 2040, parte do problema, criou o RenovaBio [Política Nacional de Biocombustíveis], parte da solução. À exceção desse programa, o Brasil não sabe o que pretende sobre matriz energética. O avanço acontece mais por forças de mercado”, diz. Rittl cita o PDE (Plano Decenal de Expansão de Energia) 2026, apresentado no ano passado, que considerou tímido e que “coloca dúvidas sobre qual caminho será seguido”.

O PDE é um documento feito pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética) – vinculada ao Ministério de Minas e Energia – que serve como um indicativo das perspectivas de expansão futura do setor de energia sob a ótica do governo. Os resultados do PDE mostram que a parcela renovável da matriz energética atingirá 48% em 2026, 2% a mais que dez anos antes, com 71,4% dos investimentos de R$ 1,4 trilhão, neste período, em petróleo e seus derivados.

O documento mostra também que a geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis deve alcançar 90% “em função do aumento de geração a partir das energias eólica, solar e biomassa”. De acordo com o PDE, o crescimento médio dessas fontes seria de 6,3% ao ano. Para se ter ideia, 20% da geração de energia elétrica do país em dezembro foi térmica, segundo boletim do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). “Não passamos por nenhum grande debate nacional, mesmo num mundo de emergência climática, com 25% dos municípios do país decretando emergência por calamidade pública em algum momento de 2017, seja por seca, tempestades ou alagamentos”, avalia Rittl.

Os preços das renováveis vem caindo, o país tem recursos abundantes e tem muito a ganhar se investir nisto, até com empregos”, completa.

Estudo mostra 100% de renováveis no país em 2050

A 4ª e última edição do relatório [R]evolução Energética, feita pelo Greenpeace Brasil em 2016, mostra o Brasil com 100% de participação de fontes renováveis em sua matriz até 2050, com a energia solar e eólica passando a ter papel fundamental (veja acima). Na geração de eletricidade, essas duas fontes alcançariam 46% de participação (25% eólica e 21% solar), mais do que o dobro previsto por um “cenário base”, uma projeção otimista do PDE (Plano Decenal de Expansão de Energia), já que o país não possui um estudo neste prazo.

Além de uma maior eficiência energética, seria necessária uma revolução no setor de transportes, como com a introdução de motores elé- tricos, transição do modal rodoviário para o ferroviário, priorização do transporte pú- blico e de deslocamentos não motorizados nas áreas urbanas. O uso da eletricidade para os transportes alcançaria 25% e os biocombustíveis 47%. De modo geral, a eletricidade, que hoje representa 20% do consumo total de energia do país, passaria a 45% em 2050 no cenário do Greenpeace.

Após 2 anos sem leilões, preço das limpas já é menor

Desde 2009 com leilões de energia eólica e solar, o governo ficou por dois anos entre 2015-17 sem contratar novas usinas dessas energias, na esteira da crise. Em dezembro, ambas voltaram a ser contratadas e pela 1ª vez a preços menores que os de hidrelétricas, que tradicionalmente são as mais baratas fontes de produção de eletricidade no país.

Os projetos eólicos tiveram preço médio de R$ 98 por megawatt-hora, contra R$ 145 da solar e R$ 219 da hidrelétrica. Em 2014, o preço mínimo da solar foi de R$ 245. “É um resultado excepcional. A gente previa no estudo que seriam as duas fontes mais baratas”, lembra Baitelo.

Post anteriorPróximo post
Comentários de Facebook