“Depois de ter gerado uma vida em meio ao câncer, percebi que ter câncer não é o fim”

Andreza Rossini


Durante todo o mês de outubro diversas instituições realizam a campanha “Outubro Rosa” com o objetivo de prevenir o câncer de mama, doença que deve atingir 59.700 mulheres em cada ano entre 2018 e 2019, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer. O risco estimado é de 56,33 casos a cada 100 mil mulheres brasileiras.

A taxa de mulheres que conseguiram vencer o câncer de mama descoberto no início é de 93%, de acordo com o estudo “Taxas de sobrevivência ao câncer de mama”, divulgado pela Sociedade Americana do Câncer. O número cai para 72% quando a doença é descoberta em estágio intermediário ou avançado.

O objetivo é encorajar mulheres que sentem medo de um possível diagnóstico negativo. Depoimentos de mulheres que venceram são veiculados semanalmente nas redes sociais da clínica.
“Muitas mulheres retardam o diagnóstico pelo medo da mamografia ou pelo medo do resultado dos exames, mas isso reduz a chance de cura da doença”, explica a médica radiologista Dra. Cristiane Basso Spadoni.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer, o tumor na mama é o segundo tipo mais comum entre as mulheres no país e corresponde a 28% dos novos casos de câncer a cada ano.

Foto: Arquivo Pessoal

Ana Beatriz Frecceiro Schmidt

Entre as histórias marcantes de mulheres que venceram o câncer está a da curitibana, Ana Beatriz Frecceiro Schmidt, de 30 anos. Ela descobriu a doença enquanto amamentava seu bebê, de sete meses e estava gravida, de dois meses, de Louise.  A indicação médica era para aborto.

“Depois de eu ter gerado uma vida em meio ao câncer eu percebi que ter câncer não é o fim, o fim é só quando nós desistimos e não podemos desistir. Ter câncer não acaba com a vida de uma pessoa, pode ter vida em meio ao câncer, podemos ser feliz lutando contra o câncer, é tudo questão de escolha”, afirma.

Ana conta que encontrou o tumor ao procurar leite empedrado da amamentação. “Ano passado, quando o meu menino estava com sete meses, eu engravidei de novo da Louise e quando ele parou de mamar eu comecei a mexer no meu peito pra ver se tinha leite empedrado e encontrei uma bolinha bem pequeninha, aqui do lado”, apontou.

A mãe alertou sobre a necessidade de diagnóstico precoce da doença. “Mandei mensagem para o meu obstetra e no outro dia eu já fiz o exame. Muitas mulheres quando acham uma bolinha tem medo de fazer o exame, e esse é o maior problema, por isso que o câncer de mama é tão perigoso. Quando o câncer de mama é descoberto no início as chances de cura são maiores que 90%, mas quando a mulher acha a bolinha fica com medo de descobrir que é câncer e não vai ao médico, deixam até chegar ao limite e, quando chega ao limite, está numa fase terminal”.

Existem causas diferentes para o câncer de mama, hormonal e hereditária, entre outras. O de Ana era hormonal. Para conseguir manter a gestação, a mãe precisou trocar de obstetra e encontrar um que apoiasse a ação. “Eu estava grávida da Louise, eu sempre quis uma menina. Os médicos mandaram eu interromper a gestação. Eles disseram que devido aos hormônios da gravidez eu deveria interromper imediatamente para não piorar o tumor. Eu disse que não, que eu não iria interromper, que eu jamais tiraria a vida da Louise. Na verdade, ela me deu muita força também. Saber que eu lutava por duas vidas me deu muita força”, contou.

A gestação fez com que Ana desviasse o foco do câncer.  “Passar pelo primeiro processo do tratamento grávida, a mastectomia e as quimioterapias vermelhas. Eu tirava todo o foco do câncer e colocava na gravidez, então ao mesmo tempo que eu fazia uma quimioterapia eu preparava o meu chá de bebê, ao mesmo tempo que eu fazia a quimioterapia eu preparava o enxoval da Louise. Eu tinha algo mais para focar e me distrair”.

Foto: Arquivo Pessoal

Gestante e em tratamento, Ana deu à luz a Louise de parto normal. “Eu descobri [o câncer] bem no início justamente por causa dos hormônios da gravidez, mas também por causa dos hormônios ele poderia crescer muito rápido, e causar metástases, que era o que os médicos não queriam. Eu fiz todos os tratamentos que uma mulher com câncer faz, a única coisa que não fiz foi a radioterapia, que realmente mulher grávida não pode fazer. Para a Louise não fez nada, e ela nasceu de 41 semanas, com quase quatro quilos, de parto normal”.

O recado para as mulheres é de coragem. “As mulheres que descobriram o câncer agora e estão começando o tratamento, só posso dizer para ter muita força, fé e coragem. Não é uma luta fácil, ninguém escolhe passar pelo câncer, mas escolhe como passar pelo câncer. Não precisa ser uma fase triste, difícil e pesarosa, até porque o psicológico de uma pessoa feliz ajuda muito mais no tratamento, é muito mais curável”, encorajou.

Após o tratamento, Ana fez a retirada da segunda mama como prevenção à um novo tumor e reconstruiu as duas mamas.

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