“Essa luta não é somente por democracia, essa luta é por outra civilização”, diz Mujica

Redação


Por Priscilla Fontes – estagiária sob orientação de Roger Pereira

O ginásio do Círculo Militar foi o palco, nesta quarta-feira (27), para discussões políticas e sociais intermediadas por quatro palestrantes – entre eles, o atual senador e ex presidente do Uruguai José Mujica. Aclamado pelo público por ser “o presidente mais pobre do mundo”, apelido que ele confronta substituindo a palavra “pobreza” por “simplicidade”. Mujica pegou o microfone e começou o seu discurso calma e lentamente: “Transformaram nosso tempo em mercadoria. Essa luta não é somente por democracia, essa luta é por outra civilização”, disse o político uruguaio.

Este foi o primeiro evento do projeto Ciclo de Diálogos Quarta Quarta, que compõe três seminários temáticos realizados em julho, agosto e setembro, na 4ª quarta-feira de cada mês. Inicialmente, o seminário iria acontecer na sede da APP-Sindicato, mas, devido a grande procura do público, a organização transferiu o evento para o ginásio do Círculo Militar do Paraná. Às 8h da manhã o local já estava cheio e uma banda marcou o início do debate sobre os regimes democráticos na América Latina. Segundo a organização, 7 mil pessoas se inscreveram.

Logo no início das atividades houve um coro “Fora Temer” vindo da plateia. Em seguida, a mediadora do evento informou as regras do seminário, dando vinte minutos para cada palestrante falar. O único que teve passe livre foi Mujica e, sem ter que se preocupar com o relógio, direcionou toda a sua atenção para o discurso, arrancando aplausos de quem estava nas cadeiras. O primeiro a compor a mesa desta quarta-feira foi o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Gilberto Maringoni, que também é jornalista e doutor em História. Maringoni discutiu sobre o conservadorismo no governo e afirmou: “A reação popular é como uma mola propulsora. Nós somos a mola da história. Podem empurrar, mas nós voltaremos com força”.

As questões raciais e feministas também foram abordadas, dessa vez por Heliana Hemeterio dos Santos, graduada e pós-graduada em História com especialização em gênero, raça e sexualidade. A militante discursou sobre o empoderamento da mulher negra, o racismo enraizado na sociedade e os direitos da população LGBT. Heliana foi clara desde o início: “A pauta que eu trago é polêmica, eu quero falar sobre racismo”, afirmou. Fazendo vários questionamentos e sendo incisiva na temática que carrega com orgulho para discutir, problematizar e desconstruir, a militante falou com propriedade que a cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil. Para ela, este fato dificulta a consolidação do processo democrático no país e na América Latina. Disse, ainda, que não temos que sentir vergonha da sociedade racista que somos, mas sim entender o por que do preconceito racial existir, a quem ele serve e lutar para que a situação mude. “O primeiro quintal que nós temos que varrer é o da nossa própria casa”, acrescentou.

Livia Morales, graduada em Letras e mestre em educação pela UFPR, também foi convidada para conduzir a conversa. Livia falou sobre a esquerda no cenário atual e se posicionou contra a homogenização política. “Política é lugar de diferença. Quem gosta de tudo igual é fascista. A esquerda não pode ser assim”, declarou.

Mujica foi o último a falar, mas veio com a calma e os questionamentos que sempre se propõe a ter. Com o discernimento e a consciência de quem pratica o que prega, Mujica continuou usando sandálias mesmo depois de se tornar presidente e não abriu mão de dirigir acompanhado do volante de seu Fusca azul. No evento, ele disse que o homem já tem recursos para acabar com a miséria de todo o mundo, basta que esta seja a prioridade. “Não há problema ecológico, há problema politico”, disse em alto e bom som para todos os curitibanos ouvirem. Mujica priorizou o principal objetivo do evento: discutir sobre os processos democráticos. “Democracia é uma luta, não uma palavra estática. É produto da consciência humana, não do marketing eleitoral”, finalizou.

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