Façanha médica aos 70 anos: “não havia esperança”

Narley Resende


“Um milagre”, definiu o médico Flávio da Costa Leite, de 70 anos, chefe das seções de Obstetrícia e Ginecologia, do Hospital do Rocio, em Campo Largo, Região Metropolitana de Curitiba (RMC), sobre o caso mais emblemático de seus 43 anos de carreira: uma jovem de 21 anos que deu à luz gêmeos, mesmo depois de ficar internada com morte cerebral por 123 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os aparelhos que mantinham viva Frankielen Zampoli foram desligados na madrugada de quarta-feira (22). Ela teve morte cerebral decretada após um aneurisma cerebral no dia 17 outubro de 2016.

Após o nascimento das crianças, com 27 semanas de gestação, a família autorizou a doação de órgãos. “Ela ficou quatro meses mantida nutricionalmente, no oxigênio, com medicamentos, sem infecção, com morte cerebral – ela, além de gerar duas crianças hígidas (com boa saúde), ela doou mais de dez órgãos, que era o propósito de vida dela. Ela tinha feito essa doação antes mesmo de ter essa patologia”, enaltece o cirurgião Luiz Ernesto Wendler, diretor do hospital.

O caso é considerado raríssimo e uma façanha médica. É o único que se tem notícia no mundo de gravidez gemelar (de gêmeos) de mãe com morte encefálica, em que as crianças nasceram com saúde. Até hoje, o tempo máximo de uma grávida em morte cerebral mantida viva seria de 107 dias, na Argentina. De acordo com um artigo científico publicado no British Medical Journal, no mundo todo houve 30 casos em que 12 bebês sobreviveram de mães que foram mantidas vivas por aparelhos.

O carioca Flávio da Costa Leite, formado em 1973 pela primeira turma da Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, quando foi acadêmico interno residente do Hospital Evangélico de Curitiba, hoje é professor de Ginecologia e Reprodução Humana, na Faculdade Evangélica onde dá aula desde 1974. Dr Flávio veio a Curitiba em 1969. O nascimento dos gêmeos Asaphe e Anna Vitoria foi o grande ato de sua carreira. Ela nasceu com 1,4 quilo e ele com 1,3 quilo. Uma semana após o nascimento, ambos passam bem, mas ainda permanecem internados.

Paraná Portal – Algum congresso, artigo ou publicação, já registraram façanha médica como essa?

Foto: Narley Resende / Paraná Portal
Foto: Narley Resende / Paraná Portal

Flávio Leite – Na referência mundial tem 30 casos descritos, dos quais 12, pelo que tive contato até agora, sobreviveram. O nosso caso tem algumas particularidades. Primeiro: nove semanas. Segunda particularidade: gemelar. A referência mundial é só feto único. Terceira particularidade: nós conseguimos uma sobrevida fetal de 123 dias. A máxima no mundo é 107. Dentro do nosso conhecimento, hoje é um recorde. Não há relato. Tem um caso de 1979 que estou atrás que teve alguma coisa um pouco diferente, mas que em termo de gemelar, não.

PP – Qual é a referência oficial?

FL – A referência que nós temos é a partir de 1982, sempre nos Estados Unidos, Alemanha, Argentina. Entre os 30 casos, há um no Brasil. Este (de Frankielen) é o segundo.

PP – Tecnicamente, foi feito algo diferente do padrão médico para manter o desenvolvimentos dos bebês, em termos de inovação?

FL – A inovação, não. Como era uma paciente muito precoce, em termos da gravidez, eu tinha que sentar com a Unidade Intensiva para programar a reposição de tudo aquilo que ia ser necessário na evolução da gravidez. A questão hormonal, a questão de hidratação, nutrição parenteral para crescimento dos bebês. Tudo isso foi calculado. A gente sentava todos os dias para fazer cálculo de quanto estava ganhando para poder remanejar a necessidade / dia.

PP – Isso mobilizou uma equipe grande em torno da paciente?

Foto: Narley Resende / Paraná Portal
Foto: Narley Resende / Paraná Portal

FL – O sucesso da Frankielen baseado em uma equipe. Não foi o ‘Flávio’ que trabalhou sozinho, não foi o ‘Dalton (Rivaben, chefe da UTI)’ que trabalhou sozinho. Tem uma equipe, que inclui eu e o Dalton com o grupo da Intensiva na parte médica. Eu na parte obstétrica, literalmente falando. Mas eu tenho uma nutricionista, uma fisioterapeuta, tenho uma ‘menina’ do rastreamento da imagem que acompanhou a cada semana o controle do crescimento dos fetos. Tenho a enfermagem que foi de uma importância fundamental. Não existe uma menina que fica quatro meses acamada, sem mobilidade, e que saia com o corpo íntegro, sem nenhuma lesão de pele. Isso não existe. Eu discuti com as meninas que lidam sobre problemas de pele, elas disseram que ‘isso não existe”. E nós não fizemos nada diferente. É higiene, limpeza, mudança de decúbito e mobilidade. Tudo isso foi feito regularmente. E a Intensiva destinou para gente, para este caso, só quatro enfermeiras, que ficaram à disposição da Frankiele nesses 123 dias.

PP – É uma paciente do SUS (Sistema Único de Saúde). Como funcionava a estrutura? É prática dos hospitais, funcionaria em outros demandar tanto esforço de uma equipe?

FL – Acho difícil. Se você não tiver um suporte intensivo como o que foi disponibilizado para nós, acho difícil.

PP – O que determina isso?

FL – Quem determina é a gestão. A gestão do hospital, a gestão do próprio SUS. Tem que se mostrar para essa gestão SUS / governo que você tem esse caso diferente, que você precisa investir. No início, quando ela chegou, no dia 17 de outubro, pedi um protocolo ao Conselho Federal de Medicina. Quer dizer, até que ponto, eticamente, eu tenho liberdade de investir nessa situação. O Conselho foi muito feliz, e mostrou o protocolo da morte encefálica, quais são as possibilidades médicas de que eu não interrompesse o suporte vital. Eu estava autorizado, mesmo que a família estivesse contra, eu estava autorizado a investir no suporte de vida porque os bebês estavam vivos. Ficamos confortáveis para continuar com esse investimento.

Gêmeos PP – Como é que os bebês estavam nesse momento?

FL – As complicações inerentes à morte encefálica foram materna. Lógico, se tenho uma estrutura que está morta, estou lidando com um encubadora natural um suporte de vida que eu tenho que calcular e repor. Não tenho em contrapartida uma evolução natural da mãe do crescimento natural da gravidez. Tudo que aconteceu na evolução gestacional foi em decorrência do suporte que nós calculamos para a necessidade fetal. Eu não deixando a mãe deteriorar, eu tinha garantia que meus nenês iriam crescer como cresceram, dentro de um padrão muito bom para a idade gestacional deles.

PP – Eles nasceram em que condições?

FL – Ela começou conosco em nove semanas, numa gestação gemelar. Nós conseguimos, tínhamos um planejamento de (que o parto fosse realizado com) 28 semanas, o tempo de gestação que acho que nos daria mais segurança, chegamos a 27 mais um (dia). A menina nasceu com 1,420 kg e o menino nasceu com 1,370 kg. Entre eles não houve diferenças brutais de peso. Para um gemelar? Não. Muito bom. Inclusive, até brinquei com a nutrição, que eles estavam acima da curva de crescimento para aquela idade gestacional. O controle que a gente fazia por semana, da ecografia de crescimento, com 26 semanas, do dia 13, o tamanho deles era de 27. Como eles nasceram no dia 20, o tamanho deles era de 28. Na verdade a idade cronológica delas era de 24 semanas.

PP- O parto saiu dentro do planejado, então?

FL – Planejado. Esses casos todos terminam por via cesareana. Todos. Com anestesia. Não é porque está morta que vai deixar de ter anestesia, porque tem o problema do potencial doador de órgão. Eu tenho que manter os órgãos trabalhando direitinho para poder ser possível a doação. Especificamente, no caso da Frankielen: foi para o centro cirúrgico, fizemos anestesia, fizemos cesareana, extraímos os nenês; passamos para o berçário imediatamente. Para depois, volta para a UTI, que foi o caso dela depois. Ela (Frankielen) voltou para a UTI com a manutenção dos órgãos, no dia 20. Esperamos até dia 21, que é para a família, depois de sentar e estudar com calma, pudesse ter a facilitação para se liberar ou não a questão da doação de órgãos. Abri um novo protocolo de morte encefálica, pela família.

Na verdade, ela já está morta. A documentação protocolar de morte encefálica eu abri de novo. Eu já tinha feito uma, quando ela chegou. Mas eu abri de novo justamente para que a família entendesse que essa evolução de quatro meses não passasse uma imagem sugestiva de que terminasse esse procedimento, ela sentaria na cama, ia abraçar todo mundo – olha foi um momento que eu passei. Não. Fui claro, deixei para a família ‘claro’. Ela está em óbito, está em morte encefálica. Vou abrir protocolo novo protocolo para poder mostrar para vocês que realmente não tem possibilidade de vida. A minha conduta nesses casos, como é a conduta mundial, nascido os nenês seria desligar tudo e deixar a Frankielen descansar. Só segurei mais 24 horas para dar tempo à família. ‘Então, realmente, nós vamos então’ favorecer a doação de órgãos. Que eu achava maravilhoso porque estou lidando com uma menina de 21 anos.

Frankielen grávida da primeira filha. Foto: arquivo pessoal.
Frankielen grávida da primeira filha. Foto: arquivo pessoal.

PP – Como ela chegou?

FL – A história dela começou assim. No dia 16 de outubro ela foi encontrada caída. Em Contenda. De Contenda levaram ao posto de atendimento em Araucária (RMC). De lá, mantiveram contato com a gente e trouxeram para o Rocio. Ela chegou no Rocio com uma hemorragia maciça intracraniana com fixação da pupila. Não tinha mais resposta nenhuma. No primeiro exame neurológico dela, do dia 17, nós já constatamos que neurologicamente falando ela não tinha mais resposta. A conduta habitual é esperar três dias em observação e abre protocolo para morte encefálica. Só que nesse meio tempo nós fizemos a avaliação iconográfica e ultrassonográfica. Aí veio a grata surpresa de ter dois coraçõeszinhos batendo ali dentro. Para tudo. Abrimos o protocolo (de morte encefálica), mas a partir de 17 de outubro iniciamos a questão do suporte de vida. Foi primordial para os bebês. Não deu tempo de ter balanço negativo na evolução gestacional. A chama (o suporte) de manutenção somática do potencial doador. Foi simplesmente isso. Seguimos uma diretriz brasileira de medicina intensiva para esses casos.

PP – Não havia esperança de que os bebês pudessem sobreviver?

FL – Não. ‘Vamos fazer isso porque nos é facilitado’. Se vai dar certo, se vai ter evolução satisfatória, não sabemos. A grande maioria no mundo terminou em abortamento. Ou óbito fetal intraútero, o que é praticamente a mesma coisa. Nove semanas? A chance de não evoluir e terminar em abortamento era muito grande. É o mérito. O mérito de todo o grupo. Uma gestação que começou com 9 (semanas) e terminou com 27.

PP – É possível medir a façanha em sua carreira?

FL – Do fundo do coração? Milagre. A gente ia ganhando semana por semana, um degrau de cada vez. Bem centrado. ‘Vamos passar para o degrau seguinte, com avaliação ininterrupta, 24 horas por dia, uma equipe maravilhosa. Todo mundo em cima, na mesma direção. Fundamental para ter essa resposta. Ninguém sozinho. Fomos nós, todos.

***

Apesar de saudáveis, as crianças prematuras precisam de cuidados especiais. O pai das crianças, Muriel Padilha, é agricultor e vende batatas. Ele tem outros dois filhos. As doações para a família de Frankielen podem ser feitas diretamente para a avó Ângela Silva, pelo telefone (41) 99561-4835.

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