Funai repudia registros de tribo isolada em floresta no Acre

Narley Resende com colaboração de Fernando GarcelEm nota publicada nesta sexta-feira (23), a Fundação Nacional do Índio ..

Narley Resende - 23 de dezembro de 2016, 12:06

Narley Resende com colaboração de Fernando Garcel

Em nota publicada nesta sexta-feira (23), a Fundação Nacional do Índio (Funai) repudia o registro fotográfico de indígenas isolados em floresta do Acre. As imagens foram publicadas nesta semana em reportagem veiculada pela National Geographic, "Stunning New Photos of Isolated Tribe Yield Surprises", repercutida por diversos meios de comunicação, na qual o fotógrafo Ricardo Stuckert apresenta fotos de povo indígena isolado.

Para a Funai, a reportagem demonstra desrespeito aos povos indígenas isolados ao expor publicamente o povo que se mantém em isolamento por decisões próprias.

"O teor invasivo do sobrevoo e, consequentemente, das fotografias pode ser percebido no semblante de terror dos indígenas e na postura de ataque ao empunhar arcos e flechas contra a aeronave, conforme registrado na própria reportagem. Os efeitos de uma violência simbólica desse nível são social e culturalmente imensuráveis", diz a entidade na nota.

De acordo com a Funai, a legislação indigenista tem mecanismos de proteção aos povos indígenas isolados e de recente contato. A Fundação afirma que tomará providências para responsabilizar os autores e envolvidos.

No último domingo, o fotógrafo viajava para a aldeia Caxinauá, no Acre, onde faria uma sessão de fotos para o livro Índios Brasileiros. A obra vai documentar a rotina de 12 tribos brasileiras e será lançada no dia 19 de abril de 2017 - Dia do Índio.

O grupo fotografado vive numa área de 630 mil hectares onde estão três reservas indígenas: Kampa Isolados do Envira, Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira.


Leia a nota da Funai na íntegra:

A Funai vem a público manifestar-se diante da reportagem veiculada pela National Geographic, "Stunning New Photos of Isolated Tribe Yield Surprises", repercutida por diversos meios de comunicação, na qual o fotógrafo Ricardo Stuckert apresenta fotos de povo indígena isolado no estado do Acre.

Primeiramente, a reportagem demonstra desrespeito aos povos indígenas isolados ao expor publicamente indígenas que se mantém em isolamento por decisões próprias. O teor invasivo do sobrevoo e, consequentemente, das fotografias pode ser percebido no semblante de terror dos indígenas e na postura de ataque ao empunhar arcos e flechas contra a aeronave, conforme registrado na própria reportagem. Os efeitos de uma violência simbólica desse nível são social e culturalmente imensuráveis.

A instituição refuta argumentos que defendem que esse tipo de trabalho pode, de alguma maneira, contribuir para a defesa dos povos em questão, uma vez que atende somente aos interesses de venda de notícias sensacionalistas, não segue estratégias de proteção territorial e se omite diante dos direitos dos povos indígenas. Prova disso é o fato de que o trabalho foi realizado à revelia dos trâmites necessários ao controle de acesso a Terras Indígenas, inexistindo autorização de ingresso ou observância do direito de imagem, o que configura violação de direitos fundamentais preconizados na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

A legislação indigenista tem mecanismos de proteção aos povos indígenas isolados e de recente contato, de maneira que a Funai tomará providências para a devida responsabilização dos autores e envolvidos, assim como para o resguardo dos povos indígenas em questão.

Fundação Nacional do Índio (Funai)

Brasília, 23 de dezembro de 2016"


Por outro lado, o fotógrafo Ricardo Stuckert garante que os registros feitos durante a expedição têm apenas o contexto jornalístico do encontro. Em nota, Stuckert garante que não houve intenção de desrespeitar o povo indígena.

"Em relação às fotografias veiculadas pela National Geografic, tratam-se de imagens capturadas em encontro inesperado pelo repórter fotográfico e em contexto jornalístico. Em nenhuma hipótese houve intenção de desrespeitar ou invadir as tradições do povo indígena. Ao contrário, o autor sempre revelou uma profunda identificação com a cultura e a história dos índios brasileiros. O fotógrafo realiza trabalhos fotográficos com os índios desde 1996 e tem total consciência humanística da importância desses povos para o Brasil", diz a nota.

O sertanista José Carlos Meirelles, que atuou na Funai por mais de 30 anos e hoje é servidor público do Governo do Acre, acompanhava o fotógrafo no momento do sobrevoo da região. Para ele, a Funai criou uma "celeuma" que não precisava ser criada.

De acordo com Meirelles, a tribo registrada pelas lentes de Stuckert já é conhecida há décadas e fica numa região entre os municípios de Santa Rosa e Jordão. "Eu já sobrevoei a região várias vezes quando trabalhava lá. Nenhum índio morreu por isso. Aquela região é uma rota. Se você pega um tempo ruim, você acaba passando em cima ", diz. "Qual fotografo que passar por cima de um lugar desses não vai tirar uma foto?", questiona. "Tem índios morrendo todo dia no Mato Grosso do Sul, tem índio com terras invadidas por garimpeiros e madeireiras e o pessoal fica preocupado com uma coisa que não era para ficar tão preocupado assim", afirma.