Há 15 anos Lula era eleito presidente do Brasil; Lava Jato é capítulo à parte

Narley Resende


Lenise Klenk, Thaissa Martiniuk e Ivan Brandão, BandNews FM

Neste 27 de outubro de 2017, em seu aniversário de 72 anos, é com o pé na estrada, em meio a processos na Justiça e em tom de campanha, que Luiz Inácio Lula da Silva olha o futuro, logo ali em 2018, sem esquecer o passado, 15 anos desde que foi eleito presidente do Brasil.

Dois meses antes daquela eleição, disse o petista em um comício: “Lulinha não quer briga, Lulinha quer paz e amor”. E depois de três derrotas, essa versão reinventada chegou à vitória nas eleições.

“Se havia alguém no Brasil que duvidava que um torneiro mecânico…[interrompe com a voz embargada], saído de uma fábrica, …chegasse à Presidência da República, 2002 provou exatamente o contrário…[chora e é aplaudido]. E eu, que, durante tantas vezes,…fui acusado de não ter um diploma superior, ganho como meu primeiro diploma [chorando], o diploma de presidente da República do meu país”.

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Quando faltavam poucos meses para as eleições de 2006 e as pesquisas apontavam Lula com mais de 70% de aprovação, após programas como o Fome Zero, o então deputado federal Roberto Jefferson escancarou um esquema de mesadas em troca de votos no Congresso, que ficaria conhecido como o mensalão.

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Isentando Lula, que negou saber do esquema e viu os aliados mais próximos caindo – um a um – José Dirceu, Jose Genoíno… Antonio Palloci. O presidente sobreviveu… E se reelegeu.

Hoje, a menos de um ano do próximo pleito, o tom do ex-sindicalista mudou em relação a 2001, 2002: é mais áspero.

“E não sou eu que tenho que provar que sou inocente. Eles é que precisam provar que as mentiras que eles estão contanto são verdadeiras. Se alguém tem medo de ser preso, este que está enterrando a sua mulher hoje não tem”, declara Lula.

A mudança de postura veio à tona desde que começou a ser investigado na Lava Jato.

A condução coercitiva

O uso da força policial para conduzir Luiz Inácio Lula da Silva a prestar um depoimento em 4 de março de 2016 foi sentida como um golpe pelo ex-presidente. Por outro lado, a força-tarefa que coordenava as investigações teve condições de medir a temperatura da reação popular naquele dia, quando era deflagrada a 24.ª fase da Lava Jato, a chamada Operação Aletheia.

Controversa, a estratégia teve apoio de uma parte da sociedade. Mas as manifestações em apoio a Lula foram mais numerosas e se espalharam pelo país.

O ex-presidente ganhou espaço na imprensa e teve o nome fortalecido como possível candidato à eleição de 2018.

Nas duas vezes em que esteve em Curitiba para ser interrogado em processos da Lava Jato – em maio e setembro deste ano –, Lula levou centenas de apoiadores às ruas e também pequenos grupos contrários ao ex-presidente.

“Lula é vítima de injustiça. Está sendo criada uma pirotecnia todo dia na imprensa e até agora não foi apresentada nenhuma prova, chegou num ponto em que está se tornando ridículo. O comportamento do Ministério Público e Poder Judiciário se tornou ridículo. E a população já não aguenta isso, principalmente os movimentos sociais”, disse um líder pró-Lula.

“Mostrar indignação e apoiar a operação Lava Jato, onde finalmente apareceu um juiz e uma equipe que está combatendo a corrupção e colocando na cadeia os maiores empresários, colocando atrás das grades senadores, políticos corruptos e agora estamos julgando um ex-presidente”, resume a representante do ato anti-Lula.

Combate

Desde que Lula passou a ser investigado na Lava Jato, a defesa do ex-presidente adotou uma postura combativa. Além dos embates jurídicos travados nos processos, a discussão ganhou a arena pública nas redes sociais, canais na internet e imprensa.

O advogado Cristiano Zanin diz que a estratégia responde a uma série de procedimentos atípicos e hipóteses acusatórias voltados contra o ex-presidente Lula.

“Nós entendemos que sequer esses procedimentos deveriam ter sido abertos. E foram. E foram abertos em um local [Curitiba] que não faz qualquer sentido do ponto de vista jurídico. Esses processos não poderiam estar correndo em Curitiba. Os procuradores escolheram direcionar esses procedimentos ao juiz Sérgio Moro com argumento de que haveria valores de contratos da Petrobras direcionados ao ex-presidente Lula. No entanto, isso não se mostrou verdadeiro. A ponto de o próprio juiz Sérgio Moro já haver reconhecido em uma decisão proferida no dia 18 de julho que não identificou qualquer valor de contratos da Petrobras dirigidos ao ex-presidente Lula”, argumenta o advogado.

“Comandante máximo”

Em setembro do ano passado, Lula foi denunciado pela primeira vez pela Lava Jato em Curitiba. A ação proposta tratava da propriedade do triplex no Guarujá.

Deltan Dallagnol: "Lula é o Grande Gederal". Foto: Rodolfo Buhrer / Paraná Portal
Deltan Dallagnol: “Lula é o Grande General”. Foto: Rodolfo Buhrer / Paraná Portal

Embora a peça não acusasse formalmente Lula de organização criminosa, o procurador Deltan Dallagnol enumerou um conjunto de 14 evidências para defender a tese de que o ex-presidente é a peça central do esquema de corrupção na Petrobras.

“Essas provas demonstram que Lula era o ‘Grande General’, que comandou a realização e a continuidade da prática crimes, com poderes para determinar o funcionamento e, se quisesse, para determinar sua interrupção”, enfatizou o coordenador da força-tarefa Lava Jato no MPF.

Em Curitiba, Lula se tornou réu em três ações penais. Na primeira, foi condenado a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do triplex. Lula recorre da decisão, no TRF de Porto Alegre. Ele foi absolvido da acusação que envolvia o armazenamento dos bens do acervo presidencial.

O ex-presidente ainda responde a dois processos: um deles, relacionado ao terreno para o Instituto Lula e a um apartamento em São Bernardo do Campo (SP). O outro, à propriedade do sítio em Atibaia. Ele se disse preocupado com a “República de Curitiba”.

Ao ser interrogado pela segunda vez em Curitiba, em setembro, Lula se disse alvo de uma campanha difamatória. Ele quebrou o protocolo questionando o juiz Sérgio Moro sobre imparcialidade.

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Lula foi denunciado em nove processos pelo Ministério Público Federal ou pela Procuradoria Geral da República. Três ações são de Curitiba e o restante, de Brasília.

Em uma delas, o Ministério Público do Distrito Federal pediu que o ex-presidente seja absolvido da acusação de obstrução de Justiça.

Edição: Narley Resende e Fernando Garcel

Lula em Curitiba. Foto de Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Lula em Curitiba. Foto de Ricardo Stuckert / Instituto Lula
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