Ideologias opostas apartam mulheres vítimas de abuso

Folhapress

“Nem uma a menos”, diz o mote feminista que começou na Argentina e se espalhou pelo movimento. Algumas mulheres, contudo, sentem-se deixadas para trás por suas congêneres. Tudo porque têm uma ideologia indigesta para elas.

Isso acontece da direita à esquerda. A secretária de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do estado do Rio, Fabiana Bentes, puxou a discussão em março: “A gente tá vendo um monte de mulher se afogar e se perguntando: ‘Será que eu salvo?'”.

Fabiana estava num evento de sua pasta que lançou um projeto para mapear o assédio em ambiente de trabalho. Ao seu lado, Luiza Brunet.
A atriz teve quatro costelas quebradas após uma briga, três anos atrás, em Nova York, com seu então namorado, o empresário Lírio Parisotto.
Algumas feministas, nicho em geral associado ao campo progressista, a acolheram até certo ponto. Luiza se sentiu isolada após ficar clara sua simpatia por Jair Bolsonaro, que já disse que não estupraria uma mulher porque ela “não merece” de tão feia que seria.

Luiza foi à posse dele e, em fevereiro, agradeceu seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, pelo “compromisso com as mulheres”. Disse mais: “A gente precisa realmente de uma visão masculina de um homem bonito como você”.


Eduardo já foi acusado por Patricia Lélis, jornalista que trabalhou no PSC quando ele era do partido, de ameaçá-la. Há prints de mensagens que enviou a ela: “Você vai se arrepender de ter nascido. […] Num (sic) pode me envergonhar, vagabunda”.

Se Luiza o defende, seria ela merecedora de apoio? Na internet, várias mensagens concluíam: claro que não. Uma, por exemplo, levantou a hipótese de que Luiza foi oportunista ao mover “uma ação milionária” contra o ex. “Me julguem! Mas andar com o filho do Bozo [apelido de Bolsonaro entre seus detratores], chamando isso de movimento feminista… Soa interesse”, escreveu uma mulher.

Para a escritora e colunista da Folha Antonia Pellegrino, a polarização “produz uma espécie de cegueira para o que há em comum entre nós”.
E isso pode acontecer dentro das próprias patotas ideológicas. A estudante Laura Marquesi, 20, conta que, num ato no Dia Internacional da Mulher, esbravejou quando um grupo começou a gritar “Lula Livre”. Até gosta do ex-presidente, mas achava que ali não era lugar.

Um “esquerdomacho”, que Laura descreve como “o cara que fica pagando de progressista mas é babaca igual ao machistazinho de direita”, ameaçou sair no tapa. “Sabe o pior? As meninas que estavam com ele não fizeram p”¦ nenhuma. Uma riu.” A turismóloga Talita Freitas, 31, é bolsonarista roxa. Para ela, Bolsonaro tem “essa fala meio agressiva” para dar um jeito no país. Mas “muitos homens de direita” confundiram tudo e “começaram com hábitos feios, agir como se ele fosse o general deles”.

Talita mostra à Folha de S.Paulo o post de um desses direitistas: “A mulé se diz de direita e vem com mimimi de feminista. Oh, carai, tu é de direita ou tu é suvaco peludo?”. Várias mulheres curtiram. Se fosse se abrir com uma feminista, digamos, “típica” (de esquerda), ela especula o que ouviria de volta: “Por ser de direita tenho que aguentar isso calada”. É a lógica da mulher que, se usa minissaia, está pedindo para ser assediada. Só que, nesse caso, é a conservadora que sabia onde estava se metendo, então azar o dela.

Caso a mulher seja uma nêmesis ideológica, vale até apelar para o politicamente incorreto que a esquerda tanto critica na direita. Como espezinhar a aparência dela. A jornalista Cynara Menezes, do blog Socialista Morena, assim o fez, ao chamar a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) de “baranga” no Twitter. Mais: “Toda vez que um reaça vier atacar você, mulher de esquerda, manda ele CASAR COM A DAMARES”.
Atitudes assim são exceção entre progressistas. Pior é “o outro lado”, que as transforma em regras, diz Laura, a estudante que foi na manifestação do Dia da Mulher.

Amigas do colégio “votaram quase todas no Bolsonaro”, conta. Uma delas, petista, foi assaltada há duas semanas e virou alvo de chacota. “Ficaram falando que a esquerda trata bandido como coitadinho, então bem feito.” Ela e a amiga vítima pararam de falar com as ex-colegas.
Laura prefere nem dar o sobrenome que usa nas redes sociais, com medo de ataques.

Mestre em gênero, mídia e cultura pela London School of Economics, Joanna Burigo vê no caso Luiza Brunet uma forma de desmistificar a violência doméstica. “Se a Luiza, que é quem é, foi vítima, nenhuma mulher está imune.” Fundadora da Casa da Mãe Joanna, portal feminista, ela segue com uma ressalva: “Acho difícil fazer uma defesa da Luiza quando ela solidariza com a família Bolsonaro”. Em vez de “fazer aliança política com mulheres que sofrem, ela vai passar pano pra misoginia do presidente”, diz.

Ex-feminista que em 2018 organizou o 1º Congresso Antifeminista, Sara Winter questiona: por que as progressistas falam sobre “sororidade, que seria amor e ajuda mútua entre mulheres”, se “esses itens só estão disponíveis no cardápio se você for uma mulher de esquerda?”. É preciso “sair dessa coisa murchada de lutas identitárias, ou você começa a ficar muito sozinho”, diz Pellegrino.

Isso afeta até “feministas de carteirinha”, diz a escritora e ativista Nana Queiroz. “Neste flá-flu é mais importante lacrar, vencer o debate a todo custo, do que ser coerente com as próprias convicções. O problema afeta os dois lados, e a direita de maneira mais severa. Mas são as feministas quem têm a obrigação de dar o primeiro passo.”

Por Anna Virginia Balloussier

 

Post anteriorPróximo post