Juiz transformou vítima em culpado, diz fotógrafo que levou tiro da PM no olho

Camila Boehm - Repórter da Agência Brasil“O juiz está assinando embaixo e atestando o direito da Polícia Militar atirar ..

Narley Resende - 18 de agosto de 2016, 22:42

Camila Boehm - Repórter da Agência Brasil

“O juiz está assinando embaixo e atestando o direito da Polícia Militar atirar na cara de qualquer pessoa em uma manifestação pacífica”, disse hoje (18) o fotógrafo Sérgio Andrade da Silva sobre a decisão da Justiça que negou seu pedido de indenização por danos morais e físicos após perder o olho esquerdo por conta de um disparo de bala de borracha da PM em manifestação ocorrida em junho de 2013. Silva vai recorrer da decisão.

A decisão do juiz Olavo Zampol Júnior, que saiu em 10 de agosto, culpa o próprio fotógrafo pelo ferimento, alegando que ele estava conscientemente localizado entre a polícia e os manifestantes, e julga improcedente o pedido de indenização mesmo sem ouvir Silva nem suas testemunhas.

“No caso, ao se colocar o autor entre os manifestantes e a polícia, permanecendo em linha de tiro, para fotografar, colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer, exsurgindo desse comportamento causa excludente de responsabilidade, onde, por culpa exclusiva do autor, ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto”, disse o juiz na decisão.

Para Silva, a interpretação é absurda. “Além de ele transformar a vítima em culpado, a decisão desse juiz foi feita sem a presença de testemunhas. Ele não me convocou, não convocou nenhuma das minhas testemunhas. Simplesmente assinou aquilo que ele acredita ser verdadeiro e obviamente se utilizando da falácia de transformar vítima em culpado”, disse o fotógrafo.

Confronto

Sobre a noite da ocorrência, o fotógrafo contou que era o quarto ato contra o aumento da tarifa daquele ano e que a manifestação era pacífica até que os policiais bloquearam a Rua da Consolação, por onde os manifestantes pretendiam passar. A medida provocou discussão e bate-boca entre a polícia e os manifestantes e o clima ficou tenso, segundo Silva. “Até que a polícia que estava ali, mal preparada, não aguentou a pressão da multidão que estava na rua e começou a atirar bomba de efeito moral, bomba de gás lacrimogêneo, bala de borracha”, lembrou.

“Eu não pulei na frente da bala, em nenhum momento eu procurei enfrentar a polícia, enfrentar aquela situação”, destacou. “Eles usaram mais de 500 artefatos de armas menos letais só naquela noite. Isso é zona de guerra. Contra pessoas que estavam ali discutindo, falando alto e com um cartaz na mão. Ninguém estava partindo para cima da polícia.”

Para o fotógrafo, a decisão do juiz Zampol protege a ação violenta da polícia e do Estado, já que atirar com bala de borracha na altura da cabeça de alguém não condiz com o protocolo de atuação policial. “Isso , com o próximo fotógrafo, o próximo jornalista, o próximo cinegrafista, vai acontecer”, lamentou.