“Não dói o útero, mas sim a alma”

Redação


A adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens no morro São José Operário, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, no último sábado (21) voltou a usar redes sociais para desabafar, nesta sexta-feira (27). A menina adicionou a postagem publicada na quinta-feira (26) que sente dor na alma devido à impunidade dos estupradores.

“Venho comunicar que roubaram meu telefone e obrigada pelo apoio de todos … realmente pensei que seria julgada mal! Mas não fui, todas podemos um dia passar por isso. Não, não dói o útero e sim a alma por existirem pessoas cruéis sendo impunes!! Obrigada ao apoio”, publicou.

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A Polícia Civil que investiga o caso, já pediu a prisão de quatro suspeitos, entre eles o namorado da menina. Segundo os familiares da vítima, o rapaz que ela teria conhecido na escola e com o qual ela tinha um relacionamento, teria agido de forma premeditada.

“Um deles é namorado dela, tinha sido namorado dela, que ela conheceu na escola. E isso foi uma vingança dele. Ele fez isso com ela e chamou mais 30 para fazer o mesmo. O pai dela nem aguenta falar que chora muito. Um ser humano que é capaz de fazer isso com uma menina de 16 anos só, cheia de sonho, né? E eles fazem isso. A família está assim, sem palavras”, lamentou um dos familiares em entrevista ao G1-RJ.

Em depoimento à polícia, a menina afirmou que foi até a casa de um rapaz com quem se relacionava há três anos, ela afirmou que se lembra de estar a sós com ele na casa e então de acordar em outra casa da mesma comunidade no domingo, dopada e nua, onde haviam 33 homens armados com pistolas e fuzis.

Os familiares só souberam do estupro na quarta-feira (25), quando foram exibidos fotos e vídeos na internet da adolescente nua, desacordada e ferida. Os próprios agressores teriam compartilhado as imagens e um deles admite no vídeo: “uns trinta caras já passaram por aí”. A ouvidoria do Ministério Público recebeu mais de 800 denúncias sobre o caso.

Um agente comunitário encontrou a menina nas ruas do Rio de Janeiro e a levou para casa na terça-feira (24).

A adolescente foi encaminhada ao médico na quinta-feira (26) e recebeu um coquetel para evitar doenças sexualmente transmissíveis. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, ela vai receber acompanhamento psicológico.

Repúdio

Curitiba realiza desde quinta-feira (26) atos de repúdio ao crime bárbaro corrido no Rio de Janeiro. Nesta sexta-feira (27) novos atos estão marcados par acontecer na Praça Santos Andrade, em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) a partir das 18 horas. Mais de duas mil pessoas confirmaram presença e quatro mil se interessaram pelo evento no Facebook.

Representantes do Gabriela, um grupo de apoio a mulheres que venceram a violência doméstica, o coletivo feminista Elas por Elas e o coletivo Ocitocina, de produção cultural independente realizaram o lançamento da campanha “Eu quero 30 homens presos”, nesta tarde.

Uma outra manifestação está agendada para às 15 horas de domingo, também em frente ao prédio histórico da UFPR.

Repercussão

O presidente interino Michel Temer divulgou uma nota de repúdio ao estupro nesta sexta-feira (27). Temer anunciou, por meio de nota, que vai criar um departamento na Polícia Federal para investigar os crimes contra a mulher.

“É um absurdo que, em pleno século 21, tenhamos que conviver com crimes bárbaros como esse”, avaliou Temer. O comunicado destaca que o Ministério da Justiça e Cidadania convocou uma reunião para a próxima terça-feira (31) com secretários de segurança pública de todo o país em uma tentativa de combater a violência contra mulheres.

Ainda segundo Temer, será criado um departamento na Polícia Federal – semelhante à Delegacia da Mulher da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo – para agrupar informações estaduais e coordenar ações em todo país. Quando atuou como secretário de Segurança do governo de São Paulo, Michel Temer instituiu a primeira Delegacia da Mulher no Brasil.

“Nosso governo está mobilizado, juntamente à Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, para apurar as responsabilidades e punir com rigor os autores do estupro e da divulgação do ato criminoso nas redes sociais”, concluiu o presidente interino.

Mais cedo, o ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes, divulgou nota de repúdio ao estupro. No comunicado, o ministro afirma repudiar veementemente o que chamou de crime hediondo praticado contra a adolescente. O estupro, na avaliação de Moraes, representa a maior violência à dignidade da mulher e deve ser duramente reprimido.

A presidente Dilma Rousseff também se posicionou nas redes sociais.

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Segundo caso

No Piauí, a Polícia Civil também investiga caso de estupro coletivo, com a participação de pelo menos cinco pessoas que teriam violentado uma adolescente de 17 anos no município de Bom Jesus na última sexta-feira (20). Até o momento, quatro menores de idade e um rapaz foram presos suspeitos de participação no crime.

De acordo com a corporação, a jovem foi encontrada amarrada em uma obra abandonada. A vítima precisou receber atendimento médico, mas já recebeu alta. Após uma briga com o namorado, ela teria ingerido bebida alcoólica e os suspeitos se aproveitaram do momento para cometer o crime.

A Polícia Civil ainda aguarda o resultado de exames periciais.

Em nota divulgada ontem (26), a ONU Mulheres Brasil se solidarizou com a jovem e com a adolescente de 16 anos também vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro. No comunicado, a entidade pede ao Poder Público dos dois estados que seja incorporada a perspectiva de gênero na investigação, no processo e no julgamento dos casos. A organização também pede à sociedade brasileira “tolerância zero” a todas as formas de violência contra as mulheres e a sua banalização.

Estupro

De acordo com os dados mais recentes do 9º Anuário Brasileiro da Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2014 o Brasil registrou um caso de estupro a casa 11 minutos. 47,6 mil pessoas foram estupradas naquele ano, de acordo com os registros, considerando que apenas 35% dos casos sejam registrados.

Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2015 a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta 67% da população tem medo de ser vítima de agressão sexual. O percentual sobe para 90% quando são consideradas apenas as mulheres e cai para 42% considerando os homens.

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