‘Não há como comparar com House of Cards’, desabafa procurador da Lava Jato

Narley Resende


O procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos coordenadores da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal do Paraná, fez outro desabafo por meio das redes sociais.

Em um texto publicado neste sábado (20) no Facebook, Lima afirma que não há como comparar a série House of Cards com a crise política brasileira. Para o procurador, o cenário “está mais para The Walking Dead, onde hordas de mortos-vivos, apodrecidos de alma e corpo, passam entre nós, contaminando tudo que poderia ser bom com o vírus da imoralidade e da corrupção”.

“Corremos todos nós o risco de que sejamos um país de zumbis morais, que nem coragem de olhar um espelho teremos, com medo de ver que nos tornamos apenas um reflexo decaído de alguém que um dia se pensou ético. Basta. Basta. Basta. Cumpramos a Constituição e nos livremos do mal. Amém”, desabafa o procurador.

Na última quarta-feira, o seriado norte-americano do Netflix fez piada com a crise política do Brasil, após a publicação de uma reportagem que aponta que os donos da JBS gravaram o presidente Michel Temer (PMDB) dando aval para a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, atualmente preso.

No perfil oficial da série no Twitter, a série protagonizada por um político conhecido pelo jogo sujo para conquistar o poder, afirmou em português “Tá difícil competir”. O Twitter da série normalmente faz publicações em inglês.

Perguntada por uma usuária do Twitter se não deveria fazer uma versão de House of Cards passado no Brasil, o perfil afirmou: “Eu até tentaria, mas se eu reunisse 20 roteiristas premiados não conseguiria chegar numa história à essa altura…”.

Lima

Leia o texto do procurador:

“O cadáver insepulto

Não há como comparar a crise brasileira com a série House of Cards. O que vivemos hoje está mais para The Walking Dead, onde hordas de mortos-vivos, apodrecidos de alma e corpo, passam entre nós, contaminando tudo que poderia ser bom com o vírus da imoralidade e da corrupção.

E falo isso hoje como cidadão, e não como Procurador da República e membro da Força-Tarefa Lava Jato. Essa história de horror tem que acabar. Não é possível admitir mais que esse cadáver do sistema político-partidário continue a apodrecer tudo o que toca.

Nenhum motivo existe para que o Brasil conviva com isso como se estivéssemos sempre fadados a essa podridão e mau cheiro. Nem me venham dizer que devemos tapar o nariz para isso, na esperança de uma volta a normalidade do sistema econômico.

Nem também me digam que as gravações de Michel Temer não são estarrecedoras. Nenhum relativismo moral justificaria uma conversação onde são explicitadas as bases de tudo o que de errado, podre e vil a Operação Lava Jato tem tentado mostrar.

Os que desejam fechar os olhos hoje, em uma cegueira ética intencional, são os mesmos que aplaudiam as investigações que revelaram a podridão dos governos do PT. Igualaram-se abjetamente aos que acusavam a Lava Jato de parcialidade contra o governo Dilma e Lula.

As motivações econômicas não podem justificar que esses cadáveres insepultos continuem entre nós. Suas vísceras expostas enojam, seus costumes obscenos desvirtuam, a sua sujeira contamina. Devemos lutar contra TODOS eles, enterrando-os definitivamente para que, sepultados pela democracia, tenhamos realmente oportunidade de um futuro são.

Se não fizermos isso, corremos todos nós o risco de que sejamos um país de zumbis morais, que nem coragem de olhar um espelho teremos, com medo de ver que nos tornamos apenas um reflexo decaído de alguém que um dia se pensou ético.

Basta. Basta. Basta. Cumpramos a Constituição e nos livremos do mal. Amém.

Carlos Fernando dos Santos Lima, cidadão.

P.S. Aqueles que não gostarem do que escrevi e constarem de minha lista no facebook, por favor desfaçam a “amizade”. Para mim ficaria difícil fazer isso um por um. Obrigado.”

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