Número de mulheres chefes nos lares aumenta 76,8%

Julie Gelenski


Especial Metro Jornal/ Rapahel Velada e Clovis Melo

As mulheres brasileiras trabalham cada vez mais horas do que os homens, mas a diferença na renda dos gêneros se mantém; situação que se agrava na comparação entre brancos e negros. O cenário de desigualdade de gênero e raça no Brasil foi detalhado por uma análise divulgada ontem pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com dados apurados de levantamentos do IBGE no período de 20 anos entre 1995 e 2015.

Os números que mais chamam atenção dizem respeitos às mudanças no perfil das famílias. Há 21 anos, as mulheres eram líderes de 22,9% das famílias. Em 2015, esse número havia aumentado 76,8%, com as mulheres como referência principal em 40,5% dos lares. Isso não significa, necessariamente, que se tratam de mães solteiras. Em um terço dos casos, segundo a pesquisa, há um cônjuge homem em casa, mas a mulher é a referência, sobretudo financeira, da família. Também há muito mais mulheres e homens vivendo sozinhos. Em 1995, 4,1% delas e 3,8% deles moravam sós. Vinte anos depois, os índices passaram para 7,3% e 7,2%, respectivamente. O número de casais sem filhos foi outro a sofrer aumento (veja detalhes na tabela abaixo).

Trabalho e renda 

Com relação ao tempo de trabalho, entre 2005 e 2015, o período semanal que as mulheres trabalham mais do que os homens passou de 6,9 horas para 7,5 horas. “É por causa da dupla jornada. As

Denir, 59, criou os filhos sozinha, trabalha fora e em casa, e agora ajuda a cuidar dos netos, Guilherme e Gabriela / RICARDO LOPES/METRO MARINGÁ
Denir, 59, criou os filhos sozinha, trabalha fora e em casa, e agora ajuda a cuidar dos netos, Guilherme e Gabriela / RICARDO LOPES/METRO MARINGÁ

mulheres que entram no mercado continuam respondendo pelo trabalho doméstico”, avalia a pesquisadora do Ipea Natália Fontoura, uma das autoras do estudo. Cerca de 90% das mulheres declaram realizar trabalho doméstico, uma proporção que se manteve estável entre 1995 e 2015. No caso dos homens, a porcentagem também se mantém estável, mas em 50%. A desigualdade na

renda entre gêneros e raças até vem caindo, mas o abismo ainda é gigantesco. Entre 1995 e 2015, a renda das mulheres negras foi a que mais cresceu (80%) e a dos homens brancos foi a que menos aumentou (11%). “Melhorou, mas há uma hierarquia que segue sem risco de alteração. Homens ganham mais do que mulheres e brancos ganham mais do que negros”, diz a pesquisadora do Ipea.

Nos 20 anos que o estudo abarca, a renda média dos homens (brancos e negros) cresceu 19,5%, enquanto a das mulheres, 65%, Mesmo assim, eles ainda ganham, em média, 30% a mais do que elas.

Negra, mulher e chefe de família, a prestadora de serviços de limpeza e manutenção Denir Pereira Mendes, 59, ilustra bem o cenário pesquisado pelo Ipea. Moradora de Maringá (PR), trabalha mais de 10 horas por dia para conseguir uma renda que não chega a dois salários mínimos, criou sozinha um casal de filhos e, quando necessário, também ajuda com os netos, de 12 e 9 anos. “Saio bem cedinho, 5h30, almoço fora e nunca chego em casa antes das 19h”, detalha. “Quando chego em casa, faço janta, sempre tem uma loucinha pra lavar, um banheiro para limpar”, complementa.

Tabela Metro Jornal Desigualdade de gênero

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