Pandemia da Covid-19: como falar com crianças e adolescentes sobre morte e luto

Mirian Villa

Pandemia da Covid-19: como falar com crianças e adolescentes sobre morte e luto

Mais de 500 mil famílias brasileiras conviveram com o luto uma ou mais vezes desde o dia 11 de março de 2020, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) elevou o estado de contaminação à pandemia da Covid-19.

Um ano e quatro meses depois, ainda é preciso lembrar que esse não é apenas um número, mas sim pessoas importantes na vida de alguém. Além da evolução rápida do quadro clínico dos contaminados, outra característica que torna o processo de luto mais difícil é não se despedir. Por causa da proliferação do vírus, os velórios de vítimas fatais do Sars-CoV-2 não podem ser realizados. 

E não é só na idade adulta que é difícil de entender e conviver com a perda súbita de alguém próximo e querido, crianças e adolescentes também podem vivenciar a morte de maneira intensa. O Paraná Portal conversou com duas psicólogas especialistas em luto para entender como o falecimento de familiares e amigos afeta aqueles que ainda estão em formação.  

A psicóloga Joanneliese de Lucas Freitas relembra que o luto, visto como uma experiência que se sente diante da ausência de alguém, é vivido por todo ser humano e cada pessoa vai enfrentar esse processo de uma forma, assim como as crianças e adolescentes.

Crianças menores, por exemplo, mostram dificuldade de entender o conceito de irreversibilidade pelo estágio de seu desenvolvimento, o que pode ser intesificado pelos desenhos animados, que mostram a morte de alguns personagens, mas que retornam no próximo episódio. “Acaba que além de não ter cognitivamente capacidade de entender, ela [criança] está exposta a situações que acabam comunicando que alguém morreu e voltou”, explica Joanneliese.

Apesar de não compreenderem a irreversibilidade da morte, que alguém se despediu e não vai mais voltar, elas entendem que as pessoas ao seu redor estão sofrendo. “Ela percebe o sofrimento dos pais e vive o luto como os adultos ao seu redor vivem. E assim ela vai entender devagar, depois que estiver elaborando o primeiro luto, que aquele é um fato definitivo”, argumenta Michele Maba. 

Conforme Michele, o fato de lidar com perdas também é um processo aprendido. “De um modo em geral, crianças e adolescentes observam o ambiente ao redor e pensam ‘como eu vou reagir vai ser guiado pelos adultos’”, explica.

Em contrapartida, os adolescentes encaram o processo do luto através de outro olhar, já que do ponto de vista cognitivo eles entendem os fatos como um adulto. Mesmo assim, ainda existe uma diferenciação porque eles acreditam que a morte não é algo próximo. 

“Isso acontece porque ele está em processo de autoaceitação e autodescoberta. E por isso, ele não demonstra muito porque acha que precisa ser adulto, dar conta de levar a vida e não dá muito espaço para essa experiência do luto”, explica Joanneliese

A psicóloga também ressalta que durante o período da adolescência, a tendência é de se vincular ao papel social de que eles precisam ser fortes. “Ele não gosta de enfrentar a morte e fica sempre pensando no outro. “Eu tenho que cuidar dos meus irmãos” ou “eu preciso ir para escola e mostrar que eu estou bem”. E o luto, geralmente, vai aparecer na idade adulta.” 

Mas antes de vivenciar o processo de luto, pais e responsáveis se preocupam sobre a maneira que a morte vai ser contada, principalmente para crianças. Algumas pessoas utilizam metáforas para explicar a perda de um ente querido. Para Michele, ela se faz necessária em algumas idades, já que a partir do ponto cognitivo elas não conseguem entender concretamente o fato. 

“Para crianças pequenas, a metáfora ‘virou uma estrela’ ou ‘virou um anjinho’ é uma forma de falar sobre a morte. Usar a metáfora não é um problema, mas é necessário conversar, falar sobre como o adulto se sente, tentar passar tranquilidade diante do processo”, explica. 

Outro ponto importante nesse processo é a cultura familiar, ou seja, padrões de comportamento presentes no núcleo familiar. Se a conversa é a base da relação, este também é um momento importante de diálogo, inclusive para comunicar que as crianças e adolescentes conseguem lidar com a morte. 

Me preocupa um pouco alienar as crianças desse processo porque nós, adultos, podemos com o comportamento de esconder comunicar às crianças que elas não conseguem lidar com a situação. E isso não é verdadeiro, pois elas têm capacidade também de lidar com as tristezas da vida. Por exemplo, se a gente trata com mais normalidade e permite a criança partilhar um pouco do contexto, a gente ensina que ela é capaz”, argumenta Joanneliese

Como em outras situações, as crianças apresentam capacidade de adaptação. Por isso, a conversa sincera é necessária, porque dessa maneira elas têm a chance de passar por um processo de luto saudável. 

“Se as pessoas choram, reagem de uma forma negativa, no sentido de escandalizar aquela dor, a criança tende a seguir o mesmo caminho. O lidar com perdas também é um processo aprendido, de um modo em geral, crianças e adolescentes observam o ambiente ao redor”, diz Michele. 

“Nós somos modelos para as crianças, não podemos esquecer disso. Se a gente esconder dela o sentimento de tristeza, estamos dizendo que ela não é capaz de entender o que está acontecendo e é muito ruim dar esse tipo de mensagem subliminar para crianças”, finaliza Joanneliese

ÓRFÃOS DA COVID-19: 45 MIL CRIANÇAS E ADOLESCENTES PERDERAM PAI E MÃE DURANTE À PANDEMIA 

No começo do mês de maio, o Projeto de Lei 1437/21 criou o Pronasp (Programa Nacional de Apoio Social e Psicológico) destinado aos chamados “órfãos da pandemia”, que são crianças e adolescentes que perderam os pais ou responsáveis para a Covid-19. 

Segundo um cálculo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), pelo menos 45 mil crianças e adolescentes perderam pai e mãe durante a pandemia. O PL, que está em análise desde abril, prevê captação de recursos por meio de incentivos fiscais que serão destinados à proteção psicológica e social dos menores.

Outro projeto voltado ao amparo daquelas crianças e adolescentes que se tornaram vulneráveis durante a pandemia tramita no Senado. O PL 887/2021 pode conceder pensão de morte ao menor no valor de R$ 1.100,00 até os 18 anos, desde que o genitor não seja filiado a regime de previdência. O projeto segue em tramitação desde março.

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