Peritos da PF criticam falta de laudos na Operação Carne Fraca

Narley Resende


A Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) emitiu uma nota criticando a ausência de “especialistas da corporação em análise de fraudes alimentares” na investigação da operação Carne Fraca.

A instituição afirma que a PF conta com 27 peritos com formação em medicina veterinária, “muitos dos quais com vasta experiência profissional na área de fiscalização e de análise sanitária”, mas nenhum foi procurado para embasar os trabalhos, o que teria, segundo a APCF, “poupado o país de tão graves prejuízos comerciais e econômicos”.

A APCF criticou também a baixa produção de laudos que sustentassem os indícios de adulteração da carne levantados na operação.

A PF afirma que tem apenas dois laudos: um que detectou DNA de frango em salsichas que deveriam ser de peru, e outro que apontou nível de amido acima do permitido em salsichas e linguiças calabresa.

Em ofício à Justiça, a PF informou que a ausência de mais laudos se deveu à dificuldade de identificar quais produtos estavam fraudados “sem que se quebrasse o sigilo necessário à sua investigação”.

Apenas dois laudos

O delegado Roberto Piasoli admite no ofício que não existem laudos sanitários periciais de 19 dos 21 frigoríficos investigados pela Operação Carne Fraca. > Íntegra do ofício

No documento, a PF relata a existência de um laudo que comprova que o frigorífico Souza Ramos teria fornecido às escolas estaduais do Paraná, por meio de contrato para a Secretaria de Estado da Educação (Seed), salsinhas com DNA de frango em produtos etiquetados como peru.

Um representante da BRF Brasil, empresa que ficou em segundo lugar na licitação para fornecimento do produto para a merenda, fez uma denúncia na Seed contra o frigorífico de Colombo.

Segundo essa denúncia, a Souza Ramos era uma microempresa e não teria condições de comprar e revender as 250 toneladas de salsicha de peru congelada solicitada no contrato. A BRF teria sugerido a análise do produto que encontrou DNA de frango na salsicha. Este laudo obtido pela PF foi feito pelo próprio Ministério da Agricultura.

O outro laudo citado, único realizado pela PF, é referente à empresa Peccin Agroindustrial, acusado de ter usado carne estragada em seus produtos.

No documento, a PF também afirma que o Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná) realizou três análises nos produtos da Souza Ramos que foram desconsideradas por conterem falhas.

Esses laudos apresentado pela PF ao juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª vara federal de Curitiba, é parte da denúncia apresentada pelo fiscal agropecuário Daniel Gouveia Teixeira que encabeçou as investigações sobre o esquema de pagamento de propina para fiscais do Ministério da Agricultura no Paraná.

Para as outras empresas investigadas, a PF afirma que não há laudos e que as investigações estão baseadas na interceptação de conversas “com sérias suspeitas de corrupção” entre superintendentes, chefes ou fiscais do Ministério da Agricultura.

“Informa-se que ainda não foram realizados outros Laudos pela Polícia Federal com relação às demais empresas envolvidas na investigação, cujos representantes foram interceptados em conversas com sérias suspeitas de corrupção, com Superintendentes, Chefes de Serviço ou Fiscais do MAPA, pela dificuldade de se identificar quais produtos estavam envolvidos em fraude ou onde pudessem ser encontrados, sem que se quebrasse o sigilo necessário à investigação, antes de sua fase ostensiva [sic]”, diz o delegado.

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