Procura por mamografias despenca durante a pandemia e preocupa comunidade médica no Paraná

Rafael Nascimento


Ainda que as ações do Outubro Rosa reforcem a necessidade de prevenção ao câncer de mama, o número de mamografias realizadas no Paraná em 2020 despencou no comparativo com o ano passado.

Por conta da pandemia e o medo de contrair a covid-19, milhares de paranaenses deixaram de procurar auxilio para prevenção ou tratamento da doença. A queda na procura pelo exame chega a 56%, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

Conforme levantamento da Sesa, 92.642 mamografias foram realizadas no estado até o mês de junho. Em 2019, ainda conforme a autoridade de saúde estadual, 330.803 procedimentos foram realizados no Paraná.

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que, em 2020, o Brasil registre 66.280 novos casos de câncer de mama. No Paraná este número pode chegar a 3.470.

ESTIMATIVA DO NÚMERO DE CASOS DOS TIPOS DE CÂNCER DE MAIOR INCIDÊNCIA EM MULHERES NO BRASIL, EM 2020

Fonte: Instituto Nacional de Câncer – INCA

O médico mastologista Cleverton Cesar Spautz alerta que a queda na procura pelo exame, considerado essencial para o diagnóstico precoce da doença, pode ser decisivo para casos de câncer de mama mais evoluídos em um futuro próximo e, consequentemente, impactar na sobrevida das pacientes.

“O rastreamento é fundamental, é a arma mais importante no combate ao câncer de mama. Não existe nada mais importante que um diagnóstico precoce da doença. Esse atraso na realização do exame no período de pandemia pode acarretar em um impacto na sobrevida das pacientes que podem vir a desenvolver o câncer de mama, e aumentar os índices de mortalidade. De maior risco do que uma infecção por covid-19 é o atraso de um diagnóstico para o tratamento do câncer de mama”, ressalta o especialista.

A preocupação da comunidade médica com a supressão da demanda por mamografias no estado vai de encontro a outro dado alarmante: um levantamento recente realizado pelo Ibope e pela Pfizer, indica que 62% das mulheres estão esperando a pandemia acabar para retomar consultas médicas e exames de rotina. A pesquisa foi feita com 1.400 mulheres a partir dos 20 anos e mostra que o índice é ainda mais alto a partir dos 60 anos, chegando a 73% das mulheres. 

SESA REFORÇA ORIENTAÇÕES DE RASTREAMENTO DURANTE A PANDEMIA

Em meio ao crescente número de casos confirmados da covid-19 e mortes pela doença no estado no primeiro semestre, a Secretaria de Estado da Saúde ajustou em julho, próximo ao pico do novo coronavírus no Paraná, as orientações ao atendimento de pacientes oncológicos. 

A normativa recomendava que os gestores de saúde avaliassem o retorno das ações de rastreamento de câncer, considerando o cenário epidemiológico e contexto local, e que a tomada de decisão deste retorno deveria considerar ainda o risco do adiamento do rastreamento de câncer e o risco de contágio com o SARS-CoV-2. Entretanto, a orientação para as situações de sintomas suspeitos de câncer ou resultados anteriores alterados foi a de manter a realização dos exames.

Com a estabilização nos índices de transmissão da covid-19 no estado e as ações do Outubro Rosa, a Sesa publicou uma nova nota técnica em 29 de setembro, recomendando a realização de ações à distância no combate ao câncer de mama garantindo a segurança das pacientes no retorno às atividade de rastreamento, especialmente em relação à população-alvo e periodicidade:

  • A mamografia deve ser realizada a cada dois anos em mulheres de 50 a 69 anos.
  • Fora dessa faixa etária e periodicidade, o exame é recomendado somente para mulheres com sinais ou sintomas de câncer de mama, como nódulo, retração do mamilo e outros; ou com histórico familiar em parente de primeiro grau.

“É uma situação peculiar, existia essa orientação de prorrogar os exames da mulheres assintomáticas imaginando que em alguns meses teríamos o retorno de uma forma mais rápida ao normal, o que não aconteceu. Se passaram pelo menos seis meses e seguimos no cenário da pandemia, agora com a diminuição de casos da covid-19. É importante aproveitar esse período do Outubro Rosa para engajar as mulheres a retomarem seus exames de rotina”, completa o médico mastologista da Clinipam Cleverton Cesar Spautz.

Entre os procedimentos adotados no Paraná para reforçar a segurança das mulheres na realização das mamografias estão o agendamento das consultas e exames, seguindo as medidas de precaução à covid-19, triagem das pacientes para sinais do novo coronavírus antes de chegarem à sala de espera para o atendimento e o distanciamento social nas unidades de saúde, além da limitação de entrada de acompanhantes.

A rede de saúde estadual conta hoje com 184 mamógrafos no Sistema Único de Saúde (SUS), distribuídos nas 22 Regionais de Saúde.

“Com absoluta certeza, mesmo em meio à uma pandemia as mulheres estão seguras para retomar sua rotina de exames. Todos os agentes de saude, sejam eles públicos ou privados, possuem conhecimento e capacidade de se adequar a essa nova realidade, e fazer com que os pacientes se sintam seguros. Infelizmente esse é um erro muito comum na população, às vezes as pessoas têm medo de ir até uma clínica, mas sentem segurança em frequentar outros lugares. E na realidade o ambiente clínico acaba sendo muito mais seguro que esses outros espaços”, finaliza o mastologista.

ESTIMATIVA DAS TAXAS DE INCIDÊNCIA DE CÂNCER DE MAMA A CADA 100 MIL MULHERES POR ESTADO, EM 2020

Fonte: Instituto Nacional de Câncer – INCA

CURITIBANA DESCOBRE E VENCE O CÂNCER DE MAMA EM PLENA PANDEMIA

A advogada Meyrielli Garnica sabe bem a importância do autoexame e de buscar ajuda médica em caso de qualquer anormalidade. Aos 35 anos e em meio a gestação de seu segundo filho, João Pedro, a curitibana descobriu e venceu a doença durante a pandemia do novo coronavírus.

Meyrielli conta que começou a sentir um incômodo na mama direita em fevereiro desse ano, com 33 semanas de gestação. “A mama ficou bastante dolorida, então procurei minha obstetra. Num primeiro momento, aparentemente não havia nada errado. Mas o desconforto continuou e voltei a procurar atendimento, dessa vez de emergência. Estava muito preocupada”, lembra.

Como havia possibilidade de mastite, infecção que causa dor e desconforto nos seios, ela passou por uma ecografia, mas o resultado não apresentou nenhuma alteração.

Já no começo de abril, durante um autoexame, a advogada sentiu um nódulo perto da axila, e em função do histórico familiar – sua mãe e avó já haviam desenvolvido a doença – procurou um mastologista. Uma biópsia confirmou que se tratava de um carcinoma inflamatório.

Por conta da gestação, o parto do João Pedro foi antecipado em um mês: saudável, ele nasceu com 36 semanas, no dia 24 de abril.

Meyrielli fez, ao todo, 16 sessões de quimioterapia, algumas delas bem delicadas por conta das reações ao tratamento. Ela conta que o apoio de toda a família foi fundamental para superar cada  etapa, dia após dia durante a pandemia.

“A primeira sessão de quimioterapia foi muito difícil, não podia ter acompanhante por conta da covid-19, e eu ainda estava bem fragilizada, aconteceu apenas três semanas depois da cesariana. Meu esposo me acompanhou, mas não pode entrar. Foi algo bem impactante. Mas tive muito apoio de toda a família. Aconteceu que minha mãe também estava passando por um tratamento para tratar metástase, e descobri que estava com câncer de mama um dia antes de ela fazer uma sessão de quimioterapia. Até evitei de contar para ela e a família num primeiro momento, só contei quando já tinha todas as informações sobre o tratamento, uma semana antes do parto. Meu marido foi meu chão, esteve comigo em todos os momentos, meus irmãos também. Todos estiveram muito presentes durante todo o tratamento”, afirma.

Ao lado dos filhos e da mãe, Meyrielli celebra a vida. Foto: arquivo pessoal

Ao fim da última sessão de quimioterapia, no dia 25 de setembro, o câncer de mama já havia regredido totalmente. E o próximo passo do tratamento de Meyrielli já tem data: por conta do fator genético, na próxima semana ela passará por uma mastectomia total das duas mamas, com a reconstrução na mesma cirurgia.

Curada e já com o João Pedro e Valentina, de seis anos, nos braços, a advogada espera que sua experiência de vida possa alertar outras mulheres a retomar seus exames de rotina e procurar atendimento sempre que necessário. 

“Se eu não tivesse ido atrás e procurado atendimento, hoje poderia não estar aqui. É preciso que as mulheres não esperem a pandemia passar para fazer os exames. O autoexame foi o que me ajudou a constatar algo estranho, e o risco é muito grande. Hoje, me sinto vitoriosa”, finaliza.

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