Remédio para leucemia produzido pela Fiocruz abre perspectiva para tratamento menos tóxico

Mirian Villa

Remédio para leucemia produzido pela Fiocruz abre perspectiva para tratamento menos tóxico

Um remédio baseado em uma enzima produzida pelo organismo humano, a L-asparaginase, tem potencial para tratar crianças e adultos com leucemia linfoide aguda (LLA) e amenizar a agressividade durante o processo de cura. 

O estudo, que é realizado pela Fiocruz Paraná desde 2015, desenvolveu uma versão inovadora da asparaginase humana, que passou a ter maior atividade bioquímica após mudanças em sua estrutura, concedendo potencial terapêutico. Ou seja, as modificações na enzima produzida pelo organismo humano permitiram que a molécula fosse transformada em um medicamento. 

Até agora, nenhuma outra equipe de pesquisadores conseguiu fazer com que a proteína funcionasse fora do corpo humano. Por isso, pacientes diagnosticados com leucemia linfoide aguda usam remédios que extraem essa molécula de bactérias. 

“A asparagina é o alimento do câncer, da leucemia…as células leucêmicas precisam ser alimentadas para sobreviver e multiplicar. Para explicar de maneira simples, é como se o remédio sequestrasse e acabasse com esse alimento”, explica Tatiana Brasil, pesquisadora do Laboratório de Proteômica e Engenharia de Proteínas. 

REMÉDIO PARA LEUCEMIA PRODUZIDO PELA FIOCRUZ PODE DEIXAR TRATAMENTO MENOS AGRESSIVO

O medicamento inovador abre perspectiva para um tratamento mais específico e menos tóxico. “A enzima obtida a partir de bactérias, embora efetiva no tratamento, provoca uma reação forte do sistema imunológico. A vantagem de se utilizar no tratamento uma proteína de origem humana seria a diminuição dos efeitos colaterais no paciente, decorrentes do reconhecimento de uma molécula estranha”, argumenta Tatiana. 

Um remédio baseado em uma enzima humana, a L-asparaginase, tem potencial para tratar crianças e adultos com leucemia linfoide aguda. Veja!
Amostra da medula óssea de um paciente com leucemia linfoide aguda (Reprodução Wikipedia/Furfur)

Além da diminuição dos efeitos colaterais, a descoberta do novo remédio para a leucemia linfoide aguda abre possibilidade para a produção nacional, já que o Brasil precisa importar a asparaginase bacteriana, que é utilizada nos serviços de oncologia do SUS (Sistema Único de Saúde). 

Com a produção nacional, será possível baratear o custo do tratamento, reduzir as importações e melhorar o tratamento. “Pela primeira vez no mundo a gente conseguiu ver em laboratório essa atividade de matar as células leucêmicas. Isso nos dá bastante otimismo para seguir em frente.”

A expectativa dos pesquisadores da Fiocruz é que os pacientes comecem a utilizar o medicamento em 2027. “O processo de desenvolvimento é demorado porque tem um critério, um rigor. Para chegar até o paciente é preciso passar por muitas etapas para ter certeza que aquela proteína vai funcionar.”

O próximo passo do estudo é aumentar a produção do medicamento para poder iniciar o estudo em pacientes com leucemia linfoide aguda. Além de Tatiana, outros dois pesquisadores fizeram a descoberta: Stephanie Bath de Morais e Nilson Zanchin. 

“O tratamento tem altas chances de cura…o que a gente está pensando é melhorar no sentido de qualidade de vida para o paciente”, finaliza Tatiana.

O QUE É LEUCEMIA LINFOIDE AGUDA (LLA)? 

A leucemia linfoide aguda é um câncer causado por um linfócito -célula responsável pela defesa do organismo- que sofre mutação na medula óssea. O dano gera um linfoblasto que não amadurece e a partir disso, as células saudáveis da medula óssea morrem.

Uma projeção do INCA (Instituto Nacional de Câncer) estima que sejam diagnosticados no Brasil 5.920 casos novos de leucemia em homens e 4.890 em mulheres por ano até 2022. As mutações não são herdadas, por isso, a hereditariedade não é um fator comum na causa da doença.

O risco de desenvolver a LLA é maior em crianças até cinco anos. Depois isso, o risco declina e começa a aumentar lentamente após os 50 anos.

Previous ArticleNext Article
[post_explorer post_id="785902" target="#post-wrapper" type="infinite" loader="standard" scroll_distance="0" taxonomy="category" transition="fade:350" scroll="false:0:0"]