Sequestros-relâmpagos e roubos com Pix explodem em SP, e delegado diz que ‘virou praga’

Rogério Pagnan - Folhapress e Isabella Menon, Folhapress

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Em maio, a estudante de psicologia Larissa Look Dias, 21, viveu horas de terror na zona sul de São Paulo. Rendida por criminosos armados, ela foi mantida no interior do próprio carro por cerca de duas horas enquanto as contas bancárias dela eram esvaziadas.

Todas as características desse crime são semelhantes aos tradicionais sequestros-relâmpagos, a não ser pela forma como a dupla conseguiu levar os R$ 10 mil: por meio de transferências pelo Pix.

“Não fiquei surpresa porque já imaginava que, quando essa onda de Pix surgiu, era por esse caminho que os bandidos iriam começar a agir. Até porque é muito rápido. Cai na conta deles na hora”, disse ela.

Levantamento inédito obtido pela Folha de S.Paulo aponta que Larissa tem razão. Tem sido cada vez mais comum os criminosos usarem o novo tipo de transferência para sangrar as contas das vítimas, tanto nos chamados sequestros-relâmpagos, quanto nos roubos a mão armada (ou roubo com retenção da vítima).

De acordo com dados de inteligência do governo paulista, somadas essas duas modalidades criminosas, desde de dezembro do ano passado foram registrados 202 crimes no estado de São Paulo nos quais as vítimas relataram o uso do Pix por parte dos criminosos durante o roubo.

Para ter uma ideia do crescimento, nos primeiros quatro meses desde o surgimento desse tipo de crime (entre dezembro de 2020 e março de 2021), foram registrados 51 boletins em todo o estado. De abril a julho, os registros pularam para 151 casos.

Policiais ouvidos pela reportagem afirmaram que o uso de transferência pelo Pix por criminosos tem se tornado muito comum.

Em maio, por exemplo, mês que Larissa foi roubada, quase 30% dos sequestros-relâmpagos foram praticados com a utilização dessa modalidade de transferência -9 dos 32 casos registrados naquele período.

“No início, era comum que a vítima fosse abordada, seu cartão, roubado, e os criminosos fizessem compras altas com a pessoa, mas o risco de serem pegos era alto. Depois, a tática usada era obter dinheiro com maquininhas de cartão de crédito e débito. Agora, vemos o Pix, que é uma ferramenta ótima para o mercado, mas, para atividade ilícita, é uma arma”, disse Tarcio Severo, delegado da divisão antissequestro do Dope (Departamento de Operações Especiais de Polícia).

Ele afirma que, apesar de as transações deixarem rastros, a polícia tem dificuldade em localizar o assaltante pois, na maioria das vezes, a quantia roubada é enviada para contas de laranjas, que logo são avisados -a tática é usada para evitar que o banco seja acionado e bloqueie o dinheiro.

“Virou uma praga”, diz o delegado Gilberto Tadeu Barreto. “O Pix é uma tecnologia fantástica, mas está sendo usada de uma forma totalmente indevida. E não só nesse tipo de crime, mas também em estelionatos. Foi um mecanismo que os criminosos aprenderam a usar de uma forma muito rápida”, afirma.

Apesar da dificuldade, a equipe de Barreto conseguiu identificar seis pessoas que, em junho, participaram de um sequestro-relâmpago de uma dentista. Ela ficou refém por cerca de três horas e, por meio do Pix, os bandidos tiraram R$ 22 mil das contas dela.

Além dos dois criminosos que a fizeram refém, os policiais também identificaram os donos das contas usadas. Todos tiveram a prisão preventiva decretada -dois já foram detidos, e o restante está foragido.

De acordo com o delegado Roberto Monteiro, da seccional centro, nem sempre os bancos fazem o ressarcimento das vítimas nesse tipo de crime.

“Se foi registrado o BO, ficando clara e confirmada a grave ameaça, impossível de resistir, alguns bancos estão ressarcindo. Mas não é um procedimento usual, pois alegam que a senha pessoal é de conhecimento restrito do correntista, a quem cabe preservá-la”, diz.

Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo analisam que é difícil encontrar uma maneira de se prevenir desse tipo de crime. O consenso é que se deve buscar o banco para travar os limites diários de transferências, como forma de reduzir o prejuízo.

Rafael Alcadipani, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV, diz que uma forma de se proteger seria adquirir dois celulares, um só para transações bancárias, que ficaria em casa, e outro para sair na rua. Mas, como ele próprio reconhece, essa é uma dica que não pode ser adotada pela maioria dos brasileiros.

Guaracy Mingardi, analista criminal e também membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que outra forma de se prevenir seria pedir para o banco emitir alertas referentes a transações no celular de algum parente, o que poderia facilitar a busca por ajuda caso a pessoa observe alguma movimentação de dinheiro fora do comum.

Renato Opice Blum, advogado de direito digital e presidente da ABPD (Associação Brasileira de Proteção de Dados), diz que não tem como abolir de vez o uso de transferências bancárias, já que dependemos delas para pagamentos do dia a dia.

Ele sugere também que adeptos do Pix prefiram usar como chave de acesso o email ou a opção que gera combinação de letras e números aleatórios, assim o beneficiário não tem acesso a dados pessoais, como o CPF e o celular.

Melhorias de segurança por parte dos bancos também são um dos pontos levantados pelos especialistas ouvidos pela reportagem. “Assim como o caixa eletrônico tem essas tecnologias, como de manchar notas roubadas, é preciso criar para o meio digital. Qual o sentido de se liberar empréstimo para alguém pelo celular na hora? Nenhum”, diz Rafael Alcadipani.

Febraban diz que que bancos contam com ‘melhores tecnologias em relação à prevenção de fraudes’ Procurada, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informou, por meio de nota, que o setor usa “toda sua experiência com os sistemas de pagamentos agora para o Pix”.

“Desde abril, os usuários podem controlar seu limite no sistema de pagamento instantâneo, permitindo que ele reduza ou aumente o valor disponível para realizar transações e pagamentos, seguindo à risca as instruções normativas do Banco Central”, diz a nota.

Ainda de acordo com a instituição, o limite máximo oferecido pelos participantes do Pix para transações dentro do horário útil, ou seja, entre 6h e 20h, é igual ao existente para transações via TED. Fora do horário útil segue o limite de compra disponibilizado para o cartão de débito.

A instituição também orienta que, caso o usuário for vítima de um assalto ou de um sequestro-relâmpago e seja obrigado a fazer uma transferência via Pix, deve-se registrar um boletim de ocorrência e procurar imediatamente seu banco.

Além disso, a entidade também afirma que “as transações do Pix são totalmente rastreáveis, e, no caso de irregularidades, todos os envolvidos serão identificados e responderão pelos delitos”. “As áreas de segurança dos bancos também têm protocolos para reverter o envio do dinheiro o mais rápido possível, para que rapidamente possam comunicar às autoridades competentes”, continua.

Por fim, a Febraban diz que “cada instituição financeira tem sua própria política de análise e ressarcimento, que é baseada em análises aprofundadas e individuais, considerando as evidências apresentadas pelos clientes e informações das transações realizadas”.

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