Setembro amarelo: Diálogo é caminho para combater o suicídio

Jorge de Sousa

Setembro amarelo - diálogo - suicídio - saúde mental

O mês de setembro ganhou um significado importante nos últimos quatro anos.  O CVV (Centro de Valorização da Vida), a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e o CFM (Conselho Federal de Medicina) criaram em 2015 o movimento Setembro Amarelo e mudaram a forma de tratar o suicídio no Brasil.

O movimento tenta conscientizar a sociedade sobre a importância do conhecimento sobre essa doença e diminuir o preconceito gerado em cima desse tema.

O temor de que a simples menção da palavra pudesse gerar novos casos, prejudicou o conhecimento dessa doença que mata um brasileiro a cada 46 minutos, segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde).

Na visão da mestre em psicologia e professora da Universidade Positivo, Josiane Knaut, a abertura de meios para que as pessoas possam buscar ajuda é fundamental para o avanço no tratamento contra essa doença.

“As campanhas que discutem de forma aberta esse tema tendem a reduzir os casos, justamente por diminuírem o preconceito. As pessoas sabem que é um problema de saúde pública e podem buscar ajuda, sendo orientadas a chegarem nesse auxílio”, explicou Knaut.

Essa relação errônea entre divulgação do tema e crescimento do número de suicídios foi influenciada pela obra “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe.

A romantização dessa doença nessa publicação gerou um efeito chamado Efeito Werther, no qual se observou um pico de mortes ocorridas de forma semelhante ao protagonista do livro no século 18.

“As pessoas não sabem falar sobre morte e quando se trata de tirar a própria vida, elas ficam ainda mais confusas. É preciso mostrar para essas pessoas que há saída para esses problemas e não saída para a vida”, completou a psicóloga.

Importância da observação

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Conhecimento é fundamental para buscar ajuda ao combate dessa doença. Foto: Facebook/Setembro Amarelo

Alguns sinais podem auxiliar na detecção da doença e facilitar o tratamento prévio. Os principais são as mudanças repentinas de comportamento, como o isolamento, a tristeza excessiva, a ansiedade, irritabilidade, a diminuição da vida social e em alguns casos, a autolesão.

“É comum que pessoas com essa doença não se sintam úteis e importantes e se enxerguem como um fardo. Por isso, frases que podem parecer bobas no momento, também servem de alerta. Exemplo de quero dormir e não acordar mais e as pessoas estariam melhor se eu não estivesse aqui são sinais desse problema”, complementa Knaut.

É importante salientar que o histórico individual é muito importante nesse diagnóstico. Pessoas com doenças mentais como depressão, bipolaridade ou até mesmo quem sofreu choques graves em sua vida pessoal, como abusos, perdas e isolamentos também estão mais propensas a desenvolverem esses sintomas.

“Quando família e amigos percebem esses sinais a primeira coisa a se fazer é procurar um momento oportuno e conversas com essa pessoa. É preciso ouvir sem julgar e dar respostas que mostrem o entendimento dessa dificuldade, enfatizando que há outros caminhos para esse problema. Porque quem está nesse caminho não acredita que há outras possibilidades”, discorre a psicóloga.

Estresse como fator de risco

Ainda de acordo com o estudo da OMS, o Brasil é líder mundial em ansiedade, sendo esse sintoma ligado diretamente ao alto número de suicídios no país.

Knaut avalia que o ser humano carrega desde sua origem essa ansiedade, muito utilizada pelos ancestrais do período Paleolítico (10 mil anos antes de Cristo) para enfrentar predadores.

“Nosso cérebro era programado para que diante desse perigo o indivíduo tomasse a decisão de lutar ou fugir. Hoje nós não temos mais essa necessidade. Mas temos a competição, a ameaça a autoestima, o bullying, a avaliação e crítica, que ativam esse mecanismo próprio do ser humano e foi feito para a questão da sobrevivência”, avalia.

Algumas profissões carregam um estresse ainda maior, como por exemplo médicos e policiais, segundo o estudo da OMS.

Por isso, a Polícia Civil do Paraná (PCPR) firmou parceria com a Universidade Positivo e criou um programa para acompanhar e cuidar psicologicamente dos policiais da corporação.

O projeto ainda prevê a criação de uma rede entre profissionais de saúde mental e policiais em diversas cidades do estado, com a realização de palestras e orientações tendo o combate à doença como foco.

Como buscar ajuda?

A saúde pública oferece serviços gratuitos para o acompanhamento psicossocial. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) existem em diversas cidades do Brasil e trabalham na recuperação dessa doença.

Diversas escolas de psicologia de universidades públicas e privadas também estão disponíveis ao atendimento à comunidade, assim como o Centro de Valorização da Vida, que possui uma linha direta e gratuita à disposição da população pelo número 188, que presta atendimento 24 horas em qualquer dia da semana.

Em casos mais graves, nos quais há risco iminente de suicídio ou em que a pessoa já sofreu dessa doença, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) é a ponte para fazer o encaminhamento para o serviço de saúde pública adequado.

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