A cultura da gambiarra

José Pio Martins


A palavra “gambiarra” foi o tema da abertura da Olimpíada no Rio de Janeiro. O termo tanto pode significar coisa improvisada e malfeita (conotação negativa), como capacidade de resolver um problema com poucos recursos (conotação positiva). O uso comum da palavra “gambiarra” se refere à traquinagem de puxar fios dos postes e ter energia sem pagar. Ou seja: uma fraude, que ainda hoje é bastante conhecida.

Além de ser praticada no âmbito de atividades privadas, a gambiarra existe em profusão em obras e serviços feitos pelo governo e suas estatais. Há uns dez anos, tive acesso a um material que mostrava escolas estaduais do Paraná com diversos problemas, como vasos sanitários quebrados, fios elétricos soltos, lâmpadas caindo, portas despencando, fogões arrebentados, geladeiras destruídas, teto cedendo, quadro-negro descascado e outras danificações.

A gambiarra não é virtude. É consequência do amadorismo, do desapreço à boa técnica e do atraso do país. É prova de que a pobreza é obra nossa, e não dos deuses. O trabalho se referia a auditoria feita no início do primeiro mandato do governador Beto Richa e apresentava um quadro apavorante e desolador. Parecia terra arrasada e revelava a deterioração das instalações onde as crianças recebem a educação básica. Aquela situação era amostra do que se repete amiúde em obras estatais e equipamentos públicos mantidos na base da gambiarra, do remendo, do improviso e da coisa malfeita.

Quando os remendos inadequados e perigosos se tornam comuns em escolas, hospitais, praças, ruas e prédios públicos, a gambiarra é a demonstração da pobreza e da incapacidade em solucionar os problemas da infraestrutura. A gambiarra também é notada em atividades administrativas. No governo Dilma, revistas internacionais especializadas ameaçaram não mais publicar estatísticas econômicas do Brasil sob o argumento de que eram manipuladas e mentirosas.

Um exemplo foram as maquiagens contábeis nos balanços do governo federal feitas na gestão de Guido Mantega como ministro da Fazenda. O governo gastava e, na hora de fechar as contas, excluía diversas despesas do balanço, para esconder os déficits. Essa gambiarra contábil, apesar de detectada e denunciada pelos analistas, foi repetida por vários anos.

Quando houve falta de chuvas e ocorreu a crise de energia em 2001, a nação descobriu várias usinas hidrelétricas inacabadas, muitas com o canteiro de obras em deterioração progressiva. As fotos mostravam um quadro lastimável, resultado da mania dos governantes em começar uma obra sem ter terminado a anterior. Esse tipo de comportamento é uma gambiarra corriqueira na administração pública, cuja consequência é o desperdício de recursos e o aumento da pobreza nacional.

A cultura da gambiarra é uma praga nacional, que deve ser combatida e não comemorada, como na abertura da Olimpíada. A Vila Olímpica, no Rio de Janeiro, foi duramente criticada por delegações internacionais, que se recusaram a ficar no local determinado, por problemas elétricos e de encanamentos. O prefeito Eduardo Paes fez piada dizendo que, para reparar a gambiarra, botaria um canguru nos aposentos da delegação da Austrália, e recebeu a seguinte resposta: “Não queremos canguru, mas apenas encanadores”.

O jornal New York Times disse que o Brasil quer ser país de primeiro mundo, mas insiste em manter instituições de terceiro mundo. A gambiarra não é virtude. É consequência do amadorismo, do desapreço à boa técnica e do atraso do país. É prova de que a pobreza é obra nossa, e não dos deuses.

 

*José Pio Martins, economista, professor, palestrante e consultor.

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Prof. José Pio Martins, economista, desenvolveu sua carreira basicamente no setor privado, com passagem em cargos públicos. É comentarista econômico da Rádio CBN Curitiba, colunista da Gazeta do Povo, faz parte da equipe de editorialistas desse mesmo jornal e é autor dos livros Educação Financeira ao Alcance de Todos (2004) e Seu Futuro (2011), ambos da Editora Fundamento, coautor do livro Pinceladas de Inovação (2018), Ed. Vitória Gráfica, e do livro Grandes Soluções para a Gestão Educacional (2020), (Ed. Instituto Casagrande), e membro da Academia Paranaense de Letras.
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