Falando de teoria econômica

José Pio Martins


Um amigo, crítico da vida política e social, me perguntou: por que a Economia ganhou a proeminência que tem hoje? Que razões justificam o status que o mundo dá a essa ciência? Comecei dizendo que devemos saber se a Economia é uma ciência ou não. A conversa foi interessante, mas antes foi preciso esclarecer um problema da língua portuguesa.

Toda área de conhecimento tem sua ciência e seu objeto. A Sociologia é a ciência que estuda os fatos sociais. A Astronomia estuda o espaço sideral. A Oceanografia estuda os oceanos e a vida neles. A Psicologia estuda os processos mentais e o comportamento. E a Economia estuda o quê? Aqui começa uma pequena confusão. 

Na língua inglesa, Economics é a ciência cujo objeto de estudo é a economy, ou seja, o sistema de produção, circulação, distribuição, consumo, acumulação, propriedade e trocas. Em português, Economia (com “e” maiúsculo) é a ciência que estuda a… economia (com “e” minúsculo). Ou seja, a palavra para a ciência e seu objeto é a mesma, e isso é ruim. A distinção está apenas na inicial maiúscula ou minúscula; insuficiente para evitar dubiedades. 

Eu gosto do método que divide a Economia em três partes. A Filosofia Econômica, a ciência das doutrinas e ideias sobre organização da sociedade. A Teoria Econômica, o conjunto de princípios e explicações sobre o funcionamento do sistema econômico. A Política Econômica, que é a intervenção da sociedade na economia, basicamente por meios das políticas governamentais. 

Então, perguntei ao amigo o que ele tinha em mente ao questionar a proeminência da Economia no mundo de hoje. Ele respondeu que a economia foi colocada no centro da vida e tudo parece girar em torno dela, como se fosse um sol tendo a política, a cultura, as artes e a religião orbitando em seu entorno. 

Comecei dizendo que o primeiro postulado econômico foi enunciado por Deus, ao expulsar Adão e Eva do paraíso. Ao dizer “comerás o pão com o suor de teu rosto”, o problema do casal pecaminoso passou a ser como obter o máximo de pão com o mínimo de suor, ou seja, uma questão de produtividade econômica (produto por hora de trabalho). 

O indicador mais importante que distingue uma sociedade atrasada de uma adiantada é a produtividade. Nos Estados Unidos, a produtividade do trabalho é de US$ 55,00/hora e no Brasil não passa de US$ 11,00/hora. Qualquer que seja a distribuição de renda, o padrão médio brasileiro, em termos de bem-estar material, será inferior ao padrão norte-americano. 

A relação mais simples entre produção e consumo se dá nos agrupamentos humanos isolados do mundo. Em uma tribo selvagem, alguns saem todos os dias para caçar, coletar e pescar, ou mesmo para plantar, e o que conseguem de provisões para a vida é consumido por todos os membros da tribo. 

Com o crescimento populacional da Terra, a formação de pequenas comunidades, a descoberta da agricultura e a especialização do trabalho, surgiram os locais de trocas, ou seja, o mercado, cujas trocas eram feitas pelo escambo, isto é, a troca de um produto por outro. 

Mas a população seguiu crescendo, os bens produzidos se expandiram, o número de comunidades aumentou e as trocas de sofisticaram. Assim, não mais se trocavam produtos por produtos, mas produtos eram comprados e vendidos com pagamento fixado em dado valor, resultante da quantidade multiplicada pelo preço unitário. Cada produto físico tornava-se assim um objeto de mercado, ou seja, uma mercadoria. 

Nessa fase, sobretudo após o advento da agricultura há 10 mil anos, o trabalho, a produção, o transporte, as compras, as vendas, a intermediação da moeda e o mecanismo para estabelecer preços relativos (quanto um bem vale em termos de outro) passaram a se constituir fatos da vida social. Esse sistema, a economia, se impôs e a reflexão, compreensão e identificação e suas leis constituíram a Economia, uma ciência social. 

A Economia é uma ciência, cujas leis e princípios funcionais emanaram da observação sobre a prática humana na busca dos bens materiais e serviços necessários a sobrevivência física do ser humano. No início, eram apenas o homem e a natureza, e o sistema produtivo se constituía de trabalho e recursos naturais. Assim foi por longos milênios. 

A inteligência humana inventou a ferramenta, um instrumento de produção movido pelos braços e força desse mesmo ser humano, que ajudou a elevar muito a produtividade e propiciou a produção de novos bens úteis ao consumo das famílias. A essa ferramenta foi dado o nome de “capital”, o terceiro fator de produção. 

O passo seguinte foi a invenção da máquina, um instrumento de produção movido por energia não humana, ou seja, um bem capital que fez a produtividade explodir e ampliou demais o leque de bens e serviços úteis. A organização da produção em determinado local, com comando e gerência, e a evolução do sistema de transportes e trocas está na base do surgimento da empresa moderna e de um mercado gigantesco, que hoje abrange os 201 países existentes. 

O conhecimento sobre como a sociedade organiza esse sistema, suas leis científicas de funcionamento e como se dá o processo econômico inteiro com todas suas variáveis acabaram por gerar um acúmulo de teorias, princípios e leis físicas reunidas sob a ciência econômica, cuja proeminência vem de sua complexidade e importância para a vida humana. E isso é só começo do problema. 

José Pio Martins, economista, professor, palestrante e consultor econômico-financeiro.

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Prof. José Pio Martins, economista, desenvolveu sua carreira basicamente no setor privado, com passagem em cargos públicos. É comentarista econômico da Rádio CBN Curitiba, colunista da Gazeta do Povo, faz parte da equipe de editorialistas desse mesmo jornal e é autor dos livros Educação Financeira ao Alcance de Todos (2004) e Seu Futuro (2011), ambos da Editora Fundamento, coautor do livro Pinceladas de Inovação (2018), Ed. Vitória Gráfica, e do livro Grandes Soluções para a Gestão Educacional (2020), (Ed. Instituto Casagrande), e membro da Academia Paranaense de Letras.
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